Tic. Tac. O
relógio da parede nos assiste, e marca discretamente o tempo que leva a
progressão do nosso descaramento. Quase não o noto. Quase não noto a ausência
do meu antigo servo também. Pouco a pouco o mundo vai perdendo forma, perdendo
importância. E eu vou perdendo a consciência. Os medos e as vontades implodem
em mim, paradoxando. Vou permitindo que minha mente se derreta enquanto o fogo
arde no ponto central da minha existência. Caminho da vida. Caminho do meu
orgasmo, ou da felicidade.
Olho para ele e mando novos sinais. Nada discreto, nada
controlado. Deixo meu útero falar por mim. Quanto mais lentos meus olhos se
movem, mais eu vou esquecendo os problemas que me aguardam aqui dentro. Minha
mente anestesia. Uma euforia branda se
instala em meus nervos. A mão bruta na minha coxa. A mesma mão nos meus seios,
e depois ela me puxa. Olhares suaves indo e voltando, permeados de uma
agressividade nata, de uma sensualidade bruta. Gemidos ecoando em minha mente. Vagamente
eu me lembro de poder ser percebida pelos ‘transeuntes’. Escondo o rosto
repetidas vezes, na tentativa de amenizar a declaração estampada em minha cara.
Eu gosto de sentir essa dor. Quero mais, quero mais forte. Abro as pernas
e mergulho em seus olhos. Vamos, você
sabe o que fazer. A linguagem corporal se confunde com telepatia. Ele me
atinge, bruto ainda. Bruto, antônimo de lapidado. Bruto, sinônimo de
agressividade. Meu masoquismo agradece. Deliciosamente animalesco. Levo a mão
ao meu pescoço. Desprovido da vagarosa sensualidade, ele prossegue. Tusso.
Apesar de tudo, é maravilhoso ser tocada.
Dou um beijo anomalamente sutil em sua pele, na tentativa de
encontrar uma zona erógena. Recebo a reação e a interpreto otimista. A mão vai
pra minha nuca, e a minha agora passeia entre minhas pernas. Arrepios,
provocações. Uma leve puxada de cabelo. Vou
me masturbar aqui, agora. Dessa vez eu digo mesmo, sussurro em sua orelha.
Quero que ele sinta que o estou fazendo por ele. Porque quero que ele veja,
porque quero que ele goste.
O mundo volta à tona. Interagimos desconcentrados. Ele se
senta, e logo eu desço ao seu colo. Ele me ajeita. Posso senti-lo contendo seus
gemidos, coisa que eu já não faço com muita dedicação. Alcanço seus dedos,
vagamente atenta aos outros. Minha boca está nervosa. Eu quero, eu quero. E você sabe o quê. Levo-os à minha boca. Tento
chegar à minha garganta, mas ele retoma o controle e brinca como acha melhor. Eu
só acompanho. Me movo inquieta sobre ele.
O ar que engana, em sua temperatura mais baixa que a real,
já me conhece há vários anos. Sabe que meus movimentos não são novos, mas a
minha excitação é fresca, apenas no sentido de recente, que de corpo eu sou
apenas quente. E cada vez mais. Nos obrigam a abandonar nosso conforto. Levantamos,
agraciados com um breve momento a sós na sala. Disfarço arrumando as minhas
coisas, sem saber bem por quê. Ele se põe atrás de mim, mas de modo que nossas
línguas possam finalmente se tocar. O momento é bom, mas precisamos mesmo ir.
Só mais um pouco... Não nos permitimos uma distância que ultrapasse alguns
centímetros, e ainda de costas pra ele, me insinuo, me esfrego. Tentado, ele me puxa com tamanha força que me
tira um pouco do chão. Perco a voz, o ar e a sanidade. Demoro a me recuperar, e
quando consigo, apenas solto algumas risadas de satisfação. Sei que chegamos ao
auge do que nos será permitido hoje.
Saímos cúmplices e satisfeitos (não completamente), e o sol
nos torra a alma do lado de fora. Até o calor é bom enquanto eu curto a
umidade da minha calcinha.
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