Quando sentisse tédio?
Eu ligo o ventilador
Num frio congelante
Visto três peças de roupa
E uma coberta
Eu passo um dia
Enforcando meus pulsos
Como se não fosse nada
E ninguém percebe
Me encoleiro como antigamente
Por uma ou duas horas
Pra respirar melhor
E deixo que minha coluna se torça
E retorça, até quase arrebente
Porque acho que meu corpo
Já não tem valor ou utilidade
Eu bebo até que meu coração
Ameace infarte
Até que eu não consiga ficar de pé
Por excesso de cafeína
Porque meu fígado e rins
Pedem clemência
Eu não sinto pena
De minhas células que sufocam
Apavoradas
Eu sinto que é hora de filetá-las
De separá-las umas das outras
De dizer adeus
À paz que eu fingia ter
Esse grande abismo que é existir
A falta de tudo
De significado que preencha os nomes
Das coisas diversas que existem
Ao meu redor
O anti-ser da existência vazia
A fome
De vida, de comida, de sabe deus o quê
Eu tento encontrar alimento
Nutriente, concreto
Qualquer coisa que preencha a barriga
Eu tento comer o vento
Fechar os olhos
Tentar aguentar o nada que me atinge
Eu tento fazer silêncio
Colar os lábios
Escutar o ruído branco
Sentir o cinza
Mas eu me pergunto
Se vale o esforço
Se valho eu
Se existe futuro
Eu engulo minhas pílulas
Fingindo esperança
Performando alguém
Que nem sei quem é
Eu apago a luz
E agradeço
Por congelar meus ossos
Por respirar entre quatro paredes
Por me afogar
No mar de panos
Que não me aquece