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quinta-feira, 7 de maio de 2026

I never meant for you to starve

Hoje é dia de polícia e ladrão
I'll let you out of the cage,
But if you run, I'll hunt you down
Eu não gosto de ser policial
But I need to keep us safe
Still, you deserve some sun
And you deserve some cake
Mother's day is coming, 
Happy birthday,
I'm still trying my best
Mesmo sendo obrigado
A ser o carcereiro.

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Para Você

Sei que estou louca
Quando me pergunto
Quem eu gostaria de ser
Se fosse para você
E como eu nunca vou te conhecer
Quem eu gostaria de ser
Se fosse para mim

domingo, 29 de março de 2026

A Criatura (The Being)

Queria saber
De onde vem
E por que vem
Se me plantei com tanto carinho
Para ser alguém que eu amaria olhar
Se nasce do fundo de meu peito
Ou da sombra por trás de meus desejos
E se apesar de ter-me regado
Dia sim e dia não
Ou se por ter-me nutrido tão bem
Diante da impiedade do tempo;

Queria entender
Se sou ou se finjo
Se crio e amamento
Esse ser que ruge doentio 
Apagando o brilho por trás de meus olhos
E colocando algo no lugar;

Se é natural ou hediondo,
Se veio comigo,
Se colhi na estrada,
Se é um desespero de uma falta,
Se é afogamento ou absência,
Se dei-lhe a luz,
Se me sequestra dela,
Se o compus, átomo por átomo
Se surge de algum sonho,
Com intenção e futuro,
Se é um acidente, ou mau planejamento 
Se me determina,
Ou apenas coincide;

Tento descobrir,
Mas tenho medo,
De a própria procura
Servir de alimento,
Tenho medo que cresça
E me desmorone
Tenho medo que se torne
Um desastre natural,
Ou o tipo de coisa
Que me tira o sono;

Que me torne humana;
Tenho medo
Que me traga à vida
Que se torne hábito,
Que ocupe o dia,

Que o quero tanto que me assusta
Que se o quisessem me daria medo

Queria saber
De onde brota,
Com que cor e fome,
Qual a primeira molécula
O que lhe faz um ser
Diante dos objetos;
Qual a primeira força de sua vontade;

E se o soubesse,
Se teria mãos para arrancá-lo
Se aguentaria o dilacerar de suas raízes,
Se estaria fincado em meus nerônios:
Se me traria a óbito;
E se ciente
Da escolha que me cabe,
Se eu escolheria 
Entregar-me
A este,
Se eu escolheria o mundo
Ou se eu escolheria a mim.

sábado, 21 de março de 2026

Frágua

Você carregava nas costas
Uma mochila furada
Cujo peso vinha do furo;
E com um kit de costura
Colocava tuas mãos no fogo
Tentando removê-la
Ou ao menos parte do peso;

Quando eu passei a ser parte
Do conteúdo da sua mochila;
Você se preocupou
Que o furo me puxasse pra baixo;
E então alimentou as chamas
Para combater os pesos;
Porque cinzas são mais fáceis de carregar;

Mas em vez de o furo ser lacrado,
O fogo pegou em mim
E de mim, nasceu um outro, furo próprio;
E eventualmente eu estava do lado de fora,
Carregando a minha mochila,
E metade da sua, que acabou selada em mim.

quarta-feira, 18 de março de 2026

Canto

A depressão é uma sereia
Que me encanta ao nascer do sol
Como passarinhos
Dizendo bom dia
Na minha janela 

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Oferenda, Beatriz

Não sei se você sente
Tudo que eu penso que sente
Mas me assombra a ideia
De morar dentro de ti
De ser apenas um pedaço
De quem você queria ter sido
E ter perdido a magia
Que escorria entre seus cachos
Não sei se te conheço
Ou se foi um sonho
Se um dia sorri por dentro, genuína
Se um dia acreditei
Quando abro meus olhos 
Não sei onde estou
Ou como cheguei aqui
Mas nos meus rastros
E sapatos gastos
Algo me diz que eu vivi
E que te vi
Por entre as nuvens e neblina
No alto da serra
Te vi plena e serena
Te vi completa
No palco, no salto
Comprida e aguda
Com os olhos cheios
Antes que a maré subisse
E nos levasse embora
Não sei se me lembro
Se era miragem
Se quando aprendi,
Era apenas saudade 
Se esse oco
Que me melodia
No fim da estrada
Se ainda te devo a vida
Se era o que você queria
Talvez eu nunca soube
Como ser ouvida de volta
E mesmo assim,
Eu sinto a sua falta. 

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

No meio do caminho

A única maneira
De sobreviver
Sob os confins 
da minha mente,
É estar sempre
 - na frente
E colocar pedras
No caminho de todos.

Faca de Serrinha

Meu cabelo fatia
Minha escova
E minhas unhas
Minha pele brota
Espinhos
Que se tornarão asas
Se eu não antes 
Arrancá-las
Minha atenção
Só dura o tempo
De este poema acabar.

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Bem-te-vi

Bem-te-vis,
Vim aqui pra lhes dizer
Que só existo
Pra ouvir seu canto 
A cada amanhecer 

O Centro

O universo não te obedece 
O universo nem te conhece
Você não é Deus
Nem é o centro
O mundo não orbita
Ao seu redor

Eu não sou mãos
Nem ferramenta
Nem o diabo
Que te atormenta
Eu não sou Deus
Nem sou o centro
Mas também 
Não giro ao seu redor

sábado, 8 de novembro de 2025

Ata

Eu conto as bocas e olhos,
Mantenho registro
Mas não importa o quão abertos
Todos estejam,
Eles continuam invisíveis.

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Tinta Branca

Eu não preciso de um amigo,
Preciso de alguém pra me ouvir
Chorar das três às quatro da manhã
Desculpa, passarinhos
Hoje não tem bom dia
Meus sorrisos acabaram.

domingo, 26 de outubro de 2025

Ela

Não me lembro quem ela era
Não importa
Queria que estivesse morta

No one will remember

Você tem um nome?
Eu não me lembro
Você tem um rosto?
Eu nunca vi
Eu sei que 
Em todos os seus sonhos
Você viaja pra bem longe de mim

Se você quiser ir
Eu não vou te pedir
Pra ficar aqui 
Eu quero que você vá

Se alguém me perguntar
Onde você foi parar
Eu lhe digo que não sei
Que nunca te conheci

Você tem nome?
Eu não me lembro
Você tem um rosto?
Eu nunca vi

Se um dia
Você esteve perto
Nunca soube,
Pra sempre te esqueci

sábado, 18 de outubro de 2025

Devolver ao Remetente

Não escrevo para ser ouvida,
Não mais.
Escrevo para
Fazer-me companhia;
A única que eu poderia
Vir a ter, eu concluí.

Não tenho amigos,
Não sei se um dia os tive;
Passo meus dias contando
Regressivamente,
Despedindo-me 
Do que ainda não foi. 

A dor passeia pelo meu corpo
Fazendo estrago,
Como um visitante indesejado,
Como uma criança sem supervisão;
Vasos, copos, pratos,
O controle remoto e a prataria,
Meus tesouros, minha paciência,
Minha energia;
Tudo em vão.

Um dia eu tentei aceitar visitas,
Eu era uma anfitriã (quase) perfeita,
Gastava o que não tinha,
Ouvia sem tímpanos, 
Sustentava o peso do tempo
Em meus dois pés,
Por tanto quanto fosse preciso.

Um dia eu acreditei
Que um dia teria
Algo oposto ao vazio que sinto
Todos os dias
Desde que acordo, 
Até nunca mais.

Quando a casca do ovo se quebrou
E nasceu de mim uma verdade;
Um preto no branco 
Escancarado
Frente aos meus olhos;
O soco que levei,
E que me deitei ao chão para sentir
Com propriedade;
Eu descobri que
Seria assim,
E desde então
Escrevo todas as cartas
Apenas para mim.

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

Prenúncio

Ele me bate
Como se eu fosse um tambor;
Uma mão tenta me apagar,
A outra cava mais fundo;
Eu me percebo a esmo;

O mar me leva e me joga na areia;
Eu sinto falta do cheiro de sal
E do gosto de ferro;
O teto ameaça demolição;
A ferrugem corroi tudo;

Eu bebo água como um peixe,
Mas não respiro melhor;
Não sei se é falta ou excesso,
Mas não passo no teste;
E o disco arranha,
Fazendo saltar a agulha;

O deslizamento é brutal;
As vidas são contadas;
Quem sobrevive
Num mundo em desmoronamento?

Uma bala para salivar,
Outra garrafa de um litro e meio;
O fígado estaciona em fila dupla;
Apetite deixa a desejar;

No compasso desse fim profético,
As marés oscilam, 
Sem conhecer a lua;
E dentro do breu de meus olhos,
Eu tento com toda a força 
Escutar o silêncio.

terça-feira, 7 de outubro de 2025

Passé Composé

Não é um poema, é um medo,
É um disfarce muito atento,
Que odeio e que não lembro,
Um segredo e quem eu desejava ser;

Não é um poema, é um trauma,
Quando estive em mãos erradas,
Quando nem me procurava,
E nem me sabia ver;

Não é um pedido, é uma carta
Para mim e para ela,
Que bem antes da aquarela,
Me mostrou o que eu viria a esquecer;

Não é um poema, é um dardo,
Um diário e um retrato,
Como um mapa perfurado,
Que não sei onde já fui;

Não é um desejo, é história,
Que me escapa da memória,
Que escrevi pelos meus braços
Que o sol me apagou;

Não é um poema, nunca foi,
Nunca seria,
Escrevi o que sentia, 
Porque não tinha ninguém pra escutar;

E afinal, 
Mesmo não sendo um poema,
Eu leio e te amo inteira,
Cabo a rabo, ponto e traço,
E te conheço aos poucos,
Um livro infinito, meu favorito,
O mais bonito, 
E o único capaz de me compreender.

segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Anonimato

Quem era você, menina?
Que se derretia
Por poemas escritos
E ditos 
Da boca pra fora
O quão vazia era,
Quão desesperada?
Do que precisava?
Pra se colocar nesses lugares
Como eu te salvaria,
Se um dia te encontrasse,

O que posso te dar, se ainda vive?

O quão ingênua e sábia,
Quão entregue a nada
Que não te notavam
E não notariam,
Onde você estava?
Por trás de todo o circo
Que aprendeu a armar?

Como se chamava?
Tinha casa?
Tinha rosto, gosto, cauda?
Eu lembro do eco distante
Do som da voz dos outros,
Da vibração aflitiva
De tentarem contato, e frustrados
Não constatarem, que,
Como você, 
Falavam com o abismo;

Você segurava um espelho;
Usava tintas,
Usava trajes,
Fazia gestos,
Que desconcentrassem,
Um espetáculo gratuito,
Voz de sereia, 
Fritando no asfalto;

Eu morro de medo de descobrir a verdade;

Eu tento te buscar
Nos meus sonhos;
Nos cheiros que sinto,
Nos petiscos e fotos antigas,
Eu tento te buscar debaixo d'água,
No escuro da noite,
E nas bolhas do sol;

Quem era você, afinal?

Você sequer sabia?
Que tinha nome,
Que tinha casa,
Que tinha gosto e cheiro,
Que tinha cores,
E que quando as cortinas se abriam
A plateia era imensa
Ávida por tuas luzes de prata;

Você ainda se lembra,
Que nasceu um dia,
Antes de sentir o mundo todo
Na ponta dos dedos?
Você se lembra de aprender a andar,
De balbuciar, 
De não ser alguém,
Antes de escolher não ser ninguém?

Queria poder um dia
Te reconhecer,
Ouvir teus passos inquietos,
Sentir teu olhar sedento,
A chama consumindo tua pele,
Mas você sumiu no vento
E no meu vazio eu penso
Que talvez
Você nunca tenha existido.

segunda-feira, 22 de setembro de 2025

As luvas e o leque

Eu perdoo teus pecados,
Os fantasmas do meu lado,
E o glitter que você me deixou
Pra respirar.

Perdoo as bombas-relógio,
O passado na gaveta,
Os sacos sem etiqueta,
A sujeira e os papeis
Que você deixou pras traças;
As desgraças, a perda óssea
E o tempo que você me gastou,
Que não valeu a pena no fim,
Mas eu te perdoo mesmo assim.

Eu te amei, e a mais ninguém
De tal maneira,
Fiz teus caprichos, cumpri ordens
Uma vontade de "deus",
Obedeci aos outros e 
A comandos insanos,
Para te satisfazer,
E você não esteve satisfeita,
Mas eu te amei mesmo assim.
E tava bom pra mim.

Eu perdoo os quilos acumulados
De objetos amontoados no canto,
Foram tantas promesas e no entanto;
Eu acabei me deslocando de você.
Foi sem querer;
Eu estava tentando salvar a sua vida,
Me parecia a única saída,
E agora você se foi.
Eu acho que se foi.

De todos os crimes que 
Cometemos juntas,
Se causei a sua morte,
Eu espero que não,
Seria o único que me condenaria;
"Mariana, 
o que você faz aí parada?",
Você ainda vive?
Te escrevo esta carta,
Mais uma,
Na esperança que você volte pra mim,
Mesmo que eu esteja melhor assim.

Resistência

Meus fios loiros refletem
Um passado distante
Alienígena, anônimo;
Eu tento conectá-los;
Descobri que somos baterias;
Certamente queimei a resistência.

Eu tento te pintar,
Pra dar cor e nome;
Tento emoldurar
E por na minha bolsa;
Eu quero dizer que te amo,
Quero que você se lembre de mim;
O eco fraco da tua memória
Me perturba.

Eu não sei como escrever versos,
Como transmitir o que doi
E a beleza
De pensar sobre você,
Sem te conhecer;
O vazio que tento alimentar
Com diversos pratos
Que tenho anotado, mas nada pretende
Te trazer de volta,
Te trazer pra mim.

Eu listo todos os seus feitos
Seus defeitos,
Suas mortes,
Suas artes,
Listo teus conhecidos, tuas histórias;
O que você consumia 
E o que criava em resposta,
E me parece tão lindo
O teu existir;
Tudo que você tentava esconder
E tudo do que tentava fugir;
Eu tenho inveja.
É como poder assistir 
Um filme pela primeira vez.

O primeiro amor, o primeiro beijo,
O primeiro orgasmo,
A primeira colher de brigadeiro,
O primeiro banho de mar.
Eu tento descobrir
Qual era a temperatura do teu sol
E a densidade da chuva
Sob a qual andava de bicicleta;
Seus pesadelos,
Seus buracos,
E seus recheios.

À noite,
Eu te chamo baixinho
Antes de fechar meus olhos,
Acho que você sabia algum segredo
Que guardou de mim.
E na época não parecia,
Mas agora soa muito importante;
Caso de vida ou morte,
Se é que isso ainda faz sentido,
Se é que eu sei a diferença.

Eu desisti
De me despedir,
Por favor, volta.
Eu te trato melhor, 
Eu te dou presentes,
Eu te salvo da beira do abismo,
É diferente agora,
Agora eu te amo. 
Você me ensinou isso.
Muito obrigada.
Mas, quando você foi embora
A saudade doeu demais.
E tudo bem doer, mas
Eu preferia você aqui.