De ter perdido algo
Um luto profundo e duradouro
Às vezes penso, me pergunto
Se fui eu que morri
E como poderia amar-me tanto
Que tal morte me dilacerou por completo
E então penso, quando, onde?
Tento recuperar fotografias,
Bordados, cheiros de mofo,
Cheiros de passado,
Os brinquedos que sumiram,
As coisas jogadas fora,
O que queimou no fogo,
E o que morreu afogado
Talvez eu tenha tempo demais
Ou talvez eu esteja pra além
De algo a ser salvo
Quanto mais vasculho, reviro
O sótão e os livros velhos
O cheiro de poeira e ácaro,
O cheiro de metal e água
Eu sei que há rastros
Que alguém viveu
E o tempo devorou
Feito fogo engolindo florestas
Eu penso no que sobrou
E se eu tenho como encontrar a trilha
Mas é inevitável perder-se
Com tantas falhas, com tantas placas derrubadas
Com tantas marcas no chão; e tantas que seguiram a direção errada
Quanto mais falhas, maior a falta
Quanto mais procuro, mais cavo
E a dor se espalha por mim
Como um veneno, septicemia
Algo que borbulha minhas veias por dentro
E fisga meus órgãos como uma adaga
Eu tento segurar firme em minhas próprias mãos
E continuar buscando
Se eu parar, tenho medo
Do que me sobraria
Do que eu poderia fazer
Tenho medo
Do que vai acontecer se eu continuar procurando
Se eu encontrar
Se não encontrar
O mistério me come viva
O que ainda me restou pra ser
No fim do dia
Quando eu escuto minha voz
Quando eu escuto as várias
Eu sei
Que nada no mundo é maior
Que minha solidão
Mesmo que o silêncio nunca venha
Ela vai me matar de qualquer jeito
O fim do dia me traz
A esperança de findar também