domingo, 26 de março de 2023

Se o lobo ao menos hibernasse

Consumo açúcar como uma droga
Para não morrer
Pequenas doses encontradas
Que as busco como um rato faminto
Como formigas no outono
Entro debaixo d'água tal um peixe
Tentando pegar fôlego
Respirar um pouco
Antes que me assaltem de mim
Mais uma vez
Toco um caixão como tocasse o céu
E um sol quente se abre sobre minha cabeça
Como rachando o céu em dois
E derrubando a torre dos que me cercam
Puxando o meu tapete
Para me afogar na poeira
Do que tranquei a cento e sete chaves

Estou seca
Distante
Um metal frio, barra gélida
Uma jaula e um cadeado
Por cujo buraco da fechadura
Deixa passar um vento
E no uivo desse vento agudo
Eu a ouço me praguejar de morte
Eu tento de tudo a essa altura
Sinto minha vida se escorrendo 
Pela minha nuca
Ela desce pela minha coluna fragmentada
Me serve uma adaga na altura dos quadris
Me amarra os pulsos
Uma ode a cristo
E como fazer de um prisioneiro um exemplo
Plantar um silêncio milenar
Quando chega em pernas,
Elas queimam em brasas
E sei que sou a bruxa
Que ele me joga ainda na fogueira
E fraquejo nos passos
Não sei se fujo ou se fico
E espero virar carvão pra provar
Que sou inocente

Tento me congelar
Tento virar o vento que me amaldiçoa
Mas ele me puxa de volta
Com o mesmo grito do monstro
Que sou
E sei que o sangue que me tiro
Foi ele que ensinou o ofício do lobo
Porque sou a carne
Porque sou a alma
Porque sobretudo ainda não morri

Mas se eu ficar aqui,
Ele me come.

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