segunda-feira, 22 de setembro de 2025

As luvas e o leque

Eu perdoo teus pecados,
Os fantasmas do meu lado,
E o glitter que você me deixou
Pra respirar.

Perdoo as bombas-relógio,
O passado na gaveta,
Os sacos sem etiqueta,
A sujeira e os papeis
Que você deixou pras traças;
As desgraças, a perda óssea
E o tempo que você me gastou,
Que não valeu a pena no fim,
Mas eu te perdoo mesmo assim.

Eu te amei, e a mais ninguém
De tal maneira,
Fiz teus caprichos, cumpri ordens
Uma vontade de "deus",
Obedeci aos outros e 
A comandos insanos,
Para te satisfazer,
E você não esteve satisfeita,
Mas eu te amei mesmo assim.
E tava bom pra mim.

Eu perdoo os quilos acumulados
De objetos amontoados no canto,
Foram tantas promesas e no entanto;
Eu acabei me deslocando de você.
Foi sem querer;
Eu estava tentando salvar a sua vida,
Me parecia a única saída,
E agora você se foi.
Eu acho que se foi.

De todos os crimes que 
Cometemos juntas,
Se causei a sua morte,
Eu espero que não,
Seria o único que me condenaria;
"Mariana, 
o que você faz aí parada?",
Você ainda vive?
Te escrevo esta carta,
Mais uma,
Na esperança que você volte pra mim,
Mesmo que eu esteja melhor assim.

Resistência

Meus fios loiros refletem
Um passado distante
Alienígena, anônimo;
Eu tento conectá-los;
Descobri que somos baterias;
Certamente queimei a resistência.

Eu tento te pintar,
Pra dar cor e nome;
Tento emoldurar
E por na minha bolsa;
Eu quero dizer que te amo,
Quero que você se lembre de mim;
O eco fraco da tua memória
Me perturba.

Eu não sei como escrever versos,
Como transmitir o que doi
E a beleza
De pensar sobre você,
Sem te conhecer;
O vazio que tento alimentar
Com diversos pratos
Que tenho anotado, mas nada pretende
Te trazer de volta,
Te trazer pra mim.

Eu listo todos os seus feitos
Seus defeitos,
Suas mortes,
Suas artes,
Listo teus conhecidos, tuas histórias;
O que você consumia 
E o que criava em resposta,
E me parece tão lindo
O teu existir;
Tudo que você tentava esconder
E tudo do que tentava fugir;
Eu tenho inveja.
É como poder assistir 
Um filme pela primeira vez.

O primeiro amor, o primeiro beijo,
O primeiro orgasmo,
A primeira colher de brigadeiro,
O primeiro banho de mar.
Eu tento descobrir
Qual era a temperatura do teu sol
E a densidade da chuva
Sob a qual andava de bicicleta;
Seus pesadelos,
Seus buracos,
E seus recheios.

À noite,
Eu te chamo baixinho
Antes de fechar meus olhos,
Acho que você sabia algum segredo
Que guardou de mim.
E na época não parecia,
Mas agora soa muito importante;
Caso de vida ou morte,
Se é que isso ainda faz sentido,
Se é que eu sei a diferença.

Eu desisti
De me despedir,
Por favor, volta.
Eu te trato melhor, 
Eu te dou presentes,
Eu te salvo da beira do abismo,
É diferente agora,
Agora eu te amo. 
Você me ensinou isso.
Muito obrigada.
Mas, quando você foi embora
A saudade doeu demais.
E tudo bem doer, mas
Eu preferia você aqui.

sábado, 13 de setembro de 2025

Cópias Térmicas

Quero dizer-lhes que não me procurem
Não por desejá-los, ou que o faça
Não por não me desejarem,
Mas por fazerem-no
Estou tão farta de fazer-me desejável
Tão esgotada
Espero mentiras,
Decepções,
Contratos que perderam o prazo,
Traças em meus envelopes;
Não posso dizer
Que meus pulmões estão 
Mais solitários que nunca
Porque estiveram piores
E a dor não doer, não é mais
O que eu respiro quando a lua some.

Estou cansada dos meus resquícios
Estagnando-se memórias
Nas caixas de quem nunca soube meu nome,
De quem nunca ouviu a minha voz;
Eu quero mais que isso,
Eu quero companhia,
Eu quero um colo,
Eu quero o cheiro do meio
Do peito,
De algum batendo
Ao me ouvir cantar,
A me fazer sorrir.

Não quero um holofote,
Reconhecimentos,
Sucesso. 
Quero grama molhada
E um pet que não me rejeite;
Quero sentir conforto,
Segurança,
O amor escasso 
De qualquer fonte;
Eu passo fome,
Eu sufoco, desidrato,
Me desmancho nos rejuntes
E não tenho por onde fugir;
Não mais.

Ela me pergunta
O que eu olho em frente
O que eu desenho, crio
O que sai do meu parto
Quando eu examino,
E eu tento respondê-la
Que sempre foi a mesma coisa
A uma coisa
A única,
Que eu sempre quis.

Eu quero avisá-los
Que cada contato
Me corroi aos poucos,
Que esse desejar me arruína,
Que um buraco negro 
Me come por dentro
E não preciso alimentá-lo ainda mais.

Quero ter a quem dizer
Que não tenho o que dizer
Que não tenho ninguém
E que não me tenho também;
Estou sempre só.
Mas também não gosto de receber visitas.

terça-feira, 2 de setembro de 2025