domingo, 26 de outubro de 2025

Ela

Não me lembro quem ela era
Não importa
Queria que estivesse morta

No one will remember

Você tem um nome?
Eu não me lembro
Você tem um rosto?
Eu nunca vi
Eu sei que 
Em todos os seus sonhos
Você viaja pra bem longe de mim

Se você quiser ir
Eu não vou te pedir
Pra ficar aqui 
Eu quero que você vá

Se alguém me perguntar
Onde você foi parar
Eu lhe digo que não sei
Que nunca te conheci

Você tem nome?
Eu não me lembro
Você tem um rosto?
Eu nunca vi

Se um dia
Você esteve perto
Nunca soube,
Pra sempre te esqueci

sábado, 18 de outubro de 2025

Devolver ao Remetente

Não escrevo para ser ouvida,
Não mais.
Escrevo para
Fazer-me companhia;
A única que eu poderia
Vir a ter, eu concluí.

Não tenho amigos,
Não sei se um dia os tive;
Passo meus dias contando
Regressivamente,
Despedindo-me 
Do que ainda não foi. 

A dor passeia pelo meu corpo
Fazendo estrago,
Como um visitante indesejado,
Como uma criança sem supervisão;
Vasos, copos, pratos,
O controle remoto e a prataria,
Meus tesouros, minha paciência,
Minha energia;
Tudo em vão.

Um dia eu tentei aceitar visitas,
Eu era uma anfitriã (quase) perfeita,
Gastava o que não tinha,
Ouvia sem tímpanos, 
Sustentava o peso do tempo
Em meus dois pés,
Por tanto quanto fosse preciso.

Um dia eu acreditei
Que um dia teria
Algo oposto ao vazio que sinto
Todos os dias
Desde que acordo, 
Até nunca mais.

Quando a casca do ovo se quebrou
E nasceu de mim uma verdade;
Um preto no branco 
Escancarado
Frente aos meus olhos;
O soco que levei,
E que me deitei ao chão para sentir
Com propriedade;
Eu descobri que
Seria assim,
E desde então
Escrevo todas as cartas
Apenas para mim.

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

Prenúncio

Ele me bate
Como se eu fosse um tambor;
Uma mão tenta me apagar,
A outra cava mais fundo;
Eu me percebo a esmo;

O mar me leva e me joga na areia;
Eu sinto falta do cheiro de sal
E do gosto de ferro;
O teto ameaça demolição;
A ferrugem corroi tudo;

Eu bebo água como um peixe,
Mas não respiro melhor;
Não sei se é falta ou excesso,
Mas não passo no teste;
E o disco arranha,
Fazendo saltar a agulha;

O deslizamento é brutal;
As vidas são contadas;
Quem sobrevive
Num mundo em desmoronamento?

Uma bala para salivar,
Outra garrafa de um litro e meio;
O fígado estaciona em fila dupla;
Apetite deixa a desejar;

No compasso desse fim profético,
As marés oscilam, 
Sem conhecer a lua;
E dentro do breu de meus olhos,
Eu tento com toda a força 
Escutar o silêncio.

terça-feira, 7 de outubro de 2025

Passé Composé

Não é um poema, é um medo,
É um disfarce muito atento,
Que odeio e que não lembro,
Um segredo e quem eu desejava ser;

Não é um poema, é um trauma,
Quando estive em mãos erradas,
Quando nem me procurava,
E nem me sabia ver;

Não é um pedido, é uma carta
Para mim e para ela,
Que bem antes da aquarela,
Me mostrou o que eu viria a esquecer;

Não é um poema, é um dardo,
Um diário e um retrato,
Como um mapa perfurado,
Que não sei onde já fui;

Não é um desejo, é história,
Que me escapa da memória,
Que escrevi pelos meus braços
Que o sol me apagou;

Não é um poema, nunca foi,
Nunca seria,
Escrevi o que sentia, 
Porque não tinha ninguém pra escutar;

E afinal, 
Mesmo não sendo um poema,
Eu leio e te amo inteira,
Cabo a rabo, ponto e traço,
E te conheço aos poucos,
Um livro infinito, meu favorito,
O mais bonito, 
E o único capaz de me compreender.

segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Anonimato

Quem era você, menina?
Que se derretia
Por poemas escritos
E ditos 
Da boca pra fora
O quão vazia era,
Quão desesperada?
Do que precisava?
Pra se colocar nesses lugares
Como eu te salvaria,
Se um dia te encontrasse,

O que posso te dar, se ainda vive?

O quão ingênua e sábia,
Quão entregue a nada
Que não te notavam
E não notariam,
Onde você estava?
Por trás de todo o circo
Que aprendeu a armar?

Como se chamava?
Tinha casa?
Tinha rosto, gosto, cauda?
Eu lembro do eco distante
Do som da voz dos outros,
Da vibração aflitiva
De tentarem contato, e frustrados
Não constatarem, que,
Como você, 
Falavam com o abismo;

Você segurava um espelho;
Usava tintas,
Usava trajes,
Fazia gestos,
Que desconcentrassem,
Um espetáculo gratuito,
Voz de sereia, 
Fritando no asfalto;

Eu morro de medo de descobrir a verdade;

Eu tento te buscar
Nos meus sonhos;
Nos cheiros que sinto,
Nos petiscos e fotos antigas,
Eu tento te buscar debaixo d'água,
No escuro da noite,
E nas bolhas do sol;

Quem era você, afinal?

Você sequer sabia?
Que tinha nome,
Que tinha casa,
Que tinha gosto e cheiro,
Que tinha cores,
E que quando as cortinas se abriam
A plateia era imensa
Ávida por tuas luzes de prata;

Você ainda se lembra,
Que nasceu um dia,
Antes de sentir o mundo todo
Na ponta dos dedos?
Você se lembra de aprender a andar,
De balbuciar, 
De não ser alguém,
Antes de escolher não ser ninguém?

Queria poder um dia
Te reconhecer,
Ouvir teus passos inquietos,
Sentir teu olhar sedento,
A chama consumindo tua pele,
Mas você sumiu no vento
E no meu vazio eu penso
Que talvez
Você nunca tenha existido.