sábado, 31 de maio de 2025

Entropia

Me lembro de quando
Eu ainda acreditava que era eu
Isso foi muito, 
muito antes
da ordem chegar;
Quando chegou
Trouxe a guerra
E todos se curvaram a ela
Bela, nascida uma torre
para crescer e se estabelecer;
Para esmagar raízes,
Destruir impérios,
Constitucionalizar;

Quando eu ainda via cores no espelho,
A sombra sonora;
Estática, dinâmica
Onda-partícula,
O sangue líquido,
Viscoso, espesso,
Coágulo,

Quando eu ainda tinha olhos,
E um sol pra temperar
os meus quintais;

Ela ainda não me conhecia
Ou tinha se infiltrado
Em minha medula;
Neuralizadora,
Absoluta.

Eu me lembro
de um eco
De quando eu ainda acreditava
Mas já não me lembro no quê.

terça-feira, 27 de maio de 2025

Sussurros

Todas as cartas que eu te escrevo vão pra lixeira
Eu queria te contar como eu me sinto
Mas eu tenho feito isso a vida inteira
E você não reparou
E você não perguntou
E você nem mesmo quis saber
Eu tive que te ensinar
Que eu existo além do seu universo
Que você não me alcança
Nem nunca vai alcançar
Mas você não sabe quão imensa
Eu sou por dentro
Não sabe todo o seu mundo dentro de mim
Não sabe quantas vezes eu te pedi pra ficar
E você foi embora
E você sempre vai embora
Mas não me deixa ir
Mesmo longe de você
Eu continuo presa aqui.

segunda-feira, 26 de maio de 2025

Crepúsculo

Eu gosto de assistir 
os animais da noite
A noite é viva
Tem uma biosfera própria
Eu e meu coração 
Tentando atravessar a pele
Ariscos como eu
Astutos como eu
Pressentem perigo sem olhos
Escoam sorrateiros pelos cantos
O silêncio me chama
Me pede pra ficar
Mas eu preciso voltar
pra dentro de casa
Preciso me deitar
E fechar meus olhos
O sol me dispensa
quando surge
Eu sei que sou
Um ser noturno
Eles têm medo de mim
Como deveriam ter
Eu acho que também 
tenho medo deles
Não sei dizer
O meu maior medo
É ver o sol nascer

quinta-feira, 22 de maio de 2025

Water 2 (tradução)

O que é água, 
Na ausência de sombra 
E de um canto estreito?

O que é água, 
Sem uma direção 
À qual sorrir, ou 
Um calor humano?

O que é água, 
Sem as risadas 
E os pingos 
Desabando em mim?

O que é água, 
Sem estes lábios 
Que me afogam em mim?

O que é água, 
Sem fios de cabelo 
Escorrendo pretos em meus olhos,
Sem um par de pés 
Para pisar nos meus, 
Sem mãos
Pra me alcançar as costas, 
Sem dois braços 
Para me enlaçar?

O que sou eu, 
Senão uma gota d'água 
Sem você?

sábado, 17 de maio de 2025

Ventilador

Não tente me entender,
Você não me conhece
Não me diga o que fazer
Você não anda comigo
Não sente meu cheiro
Não dorme na minha cama
E se dormisse, saberia
Que eu só pego no sono
Depois que todos estão
Com seus olhos fechados

Lugar

Você pode ir
Ou você pode ficar
O que eu digo ou
O que eu sinto
Não importa
Os pés são seus
(e o coração também)

Passarinhos

Bom dia, passarinhos
Eu tenho uma história pra contar
Então quando eu assobiar,
Por favor, entendam.

quinta-feira, 15 de maio de 2025

Rapunzel

Você não tem mais o cheiro da minha mãe
Não tem mais os cachos longos
E os olhos grandes
Não tem mais o sorriso sincero no rosto
Ou os lábios pintados
De vermelho ou marrom
Você não usa mais roupas verde musgo
Vestidos jeans colados
Ou sandálias plataforma laranja gritante
Compridas como arranha-céus
Eu não sei quem você é
Você não faz mais bolo quentinho no fim de tarde
Ou panquecas para comer como petisco
Você não faz risoto marrom claro
Ou gelatina de três cores pro natal
Você não canta pra mim
Eu tenho medo de você
Você não me pergunta do que eu gosto
Não me pergunta sobre mim
Não me convida pro parque
Não me chama pra pintar
Não me ensina as cores
Não me desenha palhaços
Não bebe numa mesa de bar
Com música ao vivo
E usa um guardanapo 
Pra me convencer a esperar
A batata frita que vai acompanhar meu guaraná
Com uma rodela de laranja
A sua risada parece falsa
Performática
Você parece quebrada por dentro
Parece uma alienígena
Que vestiu o corpo dela 
E tenta convencer que ainda é ela
Eles acreditam 
Eu não.

Eu te conheço de dentro
Eu sei o som do teu sangue
Correndo pelas artérias
Sei o tempo do teu coração
Quantos segundos levam teus passos
Qual a temperatura das tuas entranhas
E tudo
Absolutamente tudo 
Que você come

Me lembro do teu corpo despido
De vê-lo minha cama
De teus olhos vermelhos
Dilatados
De ter medo do teu sorriso
E do tom da tua voz
Me lembro de chamar teu nome 15 vezes
E te ouvir responder cansada na última
E de você me trocar pela onda
De ser o centro das atenções numa pracinha

Teve um tempo
Em que eu parecia importante
Eu nunca fui, é claro
Mas 
Eu acreditava
Nas patas do coelho da páscoa
Nas sombras do Papai Noel
Nos agudos da tua voz
Limpos, apaixonados
Na sua gargalhada que ecoava quilômetros
Eu ainda não a odiava
Eu me lembro de você ser minha
Da maciez da sua pele
E do seu cheiro
Eu amava o seu cheiro
Era doce e macio
Como você, na maior parte do tempo

Eu me lembro de te dizer
Por favor não corta o seu cabelo
Você se sentiu ofendida
Agredida
Eu não pude fazer nada
Você cortou seu cabelo 
E jogou com ele
Tudo que eu te conhecia
Pelo ralo

sábado, 10 de maio de 2025

Lua

Quero te contar um segredo,
Li teu livro inteiro
Seis anos de atraso,
Num só fôlego
Não sei o que pensei que acharia
Mas não era isto
Me sinto mais próxima
De você,
Seja quem você for

Eu não me lembro
De verdade,
Não sei como é a memória
Por que a chamam lembrança
Se nunca me lembro
Nunca
Dos traços de meu passado

Alguém me sussurra
Que te conheci
Que já estive em teus braços
Que já te carreguei dentro de mim

Quando leio teus versos
Reconheço algo
Que não vivi
Não nesta encarnação 
Um eco
De alguém que um dia
Talvez eu tenha sido

Peço perdão
Se minha imagem
Te remete a algo
Se fui agradável
Se te fiz feliz
Se te fiz chorar

Se reconhece meus lábios
Minha frequência
Meus olhos
Que nunca nem os vi
Peço perdão
Se meus fios de cabelo
Te perfuram inquietos
Um corte de papel

Eu sinto que já assisti esse filme
As falas vêm a mim depois de ditas
Nunca antes

O teu semblante
Teu olhar perdido
A maneira como junta tuas frases
Me soa familiar
Como um parente distante
Que conheci ainda antes
De sequer pensar em ser alguém

Eu poderia sorrir
Performar silhuetas
Flamejantes
Como nos teus sonhos mais remotos
Poderia ser uma mãe
Um colo
E os seios fartos
Que um dia ofereci

Mas eu não tenho filhos
Eu não tenho amores
Eu não tenho amigos
Eu não habito este mundo
E nunca te conheci