Você cumplicia
Com um descaso forjado
Eu sei que você me ouviu
Eu sei que ninguém mais
O dom para a comunicação
É raro e extenso
O silêncio é o hífen entre as palavras
Não conectar,
Saber a quem projetar a voz
E a quem ocultar
É uma arte
Uma arte solitária
Uma maldição erudita
Etiquetada, e exímia
Eu te digo por pausas
Pelo não verbal
Que foi calar-me
Com um cigarro na boca
Com uma garrafa de guaraná
Sei que ela nunca vai saber
Não é do teu feitio
E por que o toleraria
Se ela o conhecesse?
Eu o conheci
E desejei nunca antes
Tê-lo feito
Desejei nunca te ter desejado
Nunca te ter protegido
Ou machucado
Ou estimado
E empatizado
Desejei não ter tido interesse
Numa falha inata
Não ter vivenciado
Esta cova profunda
Do não ter
Espero que você compreenda
Do que me escutou
Que eu te odeio muito
Eu te desprezo, me enojo
Eu também te amo
Não sei de onde
E isso me machuca demais
Espero que você entenda
Todas as minhas fugas
Do teu olhar
E compreenda que
Com isso
Eu quero não poder enxergar