terça-feira, 16 de dezembro de 2025

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

No meio do caminho

A única maneira
De sobreviver
Sob os confins 
da minha mente,
É estar sempre
 - na frente
E colocar pedras
No caminho de todos.

Faca de Serrinha

Meu cabelo fatia
Minha escova
E minhas unhas
Minha pele brota
Espinhos
Que se tornarão asas
Se eu não antes 
Arrancá-las
Minha atenção
Só dura o tempo
De este poema acabar.

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Bem-te-vi

Bem-te-vis,
Vim aqui pra lhes dizer
Que só existo
Pra ouvir seu canto 
A cada amanhecer 

O Centro

O universo não te obedece 
O universo nem te conhece
Você não é Deus
Nem é o centro
O mundo não orbita
Ao seu redor

Eu não sou mãos
Nem ferramenta
Nem o diabo
Que te atormenta
Eu não sou Deus
Nem sou o centro
Mas também 
Não giro ao seu redor

sábado, 8 de novembro de 2025

Ata

Eu conto as bocas e olhos,
Mantenho registro
Mas não importa o quão abertos
Todos estejam,
Eles continuam invisíveis.

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Tinta Branca

Eu não preciso de um amigo,
Preciso de alguém pra me ouvir
Chorar das três às quatro da manhã
Desculpa, passarinhos
Hoje não tem bom dia
Meus sorrisos acabaram.

domingo, 26 de outubro de 2025

Ela

Não me lembro quem ela era
Não importa
Queria que estivesse morta

No one will remember

Você tem um nome?
Eu não me lembro
Você tem um rosto?
Eu nunca vi
Eu sei que 
Em todos os seus sonhos
Você viaja pra bem longe de mim

Se você quiser ir
Eu não vou te pedir
Pra ficar aqui 
Eu quero que você vá

Se alguém me perguntar
Onde você foi parar
Eu lhe digo que não sei
Que nunca te conheci

Você tem nome?
Eu não me lembro
Você tem um rosto?
Eu nunca vi

Se um dia
Você esteve perto
Nunca soube,
Pra sempre te esqueci

sábado, 18 de outubro de 2025

Devolver ao Remetente

Não escrevo para ser ouvida,
Não mais.
Escrevo para
Fazer-me companhia;
A única que eu poderia
Vir a ter, eu concluí.

Não tenho amigos,
Não sei se um dia os tive;
Passo meus dias contando
Regressivamente,
Despedindo-me 
Do que ainda não foi. 

A dor passeia pelo meu corpo
Fazendo estrago,
Como um visitante indesejado,
Como uma criança sem supervisão;
Vasos, copos, pratos,
O controle remoto e a prataria,
Meus tesouros, minha paciência,
Minha energia;
Tudo em vão.

Um dia eu tentei aceitar visitas,
Eu era uma anfitriã (quase) perfeita,
Gastava o que não tinha,
Ouvia sem tímpanos, 
Sustentava o peso do tempo
Em meus dois pés,
Por tanto quanto fosse preciso.

Um dia eu acreditei
Que um dia teria
Algo oposto ao vazio que sinto
Todos os dias
Desde que acordo, 
Até nunca mais.

Quando a casca do ovo se quebrou
E nasceu de mim uma verdade;
Um preto no branco 
Escancarado
Frente aos meus olhos;
O soco que levei,
E que me deitei ao chão para sentir
Com propriedade;
Eu descobri que
Seria assim,
E desde então
Escrevo todas as cartas
Apenas para mim.

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

Prenúncio

Ele me bate
Como se eu fosse um tambor;
Uma mão tenta me apagar,
A outra cava mais fundo;
Eu me percebo a esmo;

O mar me leva e me joga na areia;
Eu sinto falta do cheiro de sal
E do gosto de ferro;
O teto ameaça demolição;
A ferrugem corroi tudo;

Eu bebo água como um peixe,
Mas não respiro melhor;
Não sei se é falta ou excesso,
Mas não passo no teste;
E o disco arranha,
Fazendo saltar a agulha;

O deslizamento é brutal;
As vidas são contadas;
Quem sobrevive
Num mundo em desmoronamento?

Uma bala para salivar,
Outra garrafa de um litro e meio;
O fígado estaciona em fila dupla;
Apetite deixa a desejar;

No compasso desse fim profético,
As marés oscilam, 
Sem conhecer a lua;
E dentro do breu de meus olhos,
Eu tento com toda a força 
Escutar o silêncio.

terça-feira, 7 de outubro de 2025

Passé Composé

Não é um poema, é um medo,
É um disfarce muito atento,
Que odeio e que não lembro,
Um segredo e quem eu desejava ser;

Não é um poema, é um trauma,
Quando estive em mãos erradas,
Quando nem me procurava,
E nem me sabia ver;

Não é um pedido, é uma carta
Para mim e para ela,
Que bem antes da aquarela,
Me mostrou o que eu viria a esquecer;

Não é um poema, é um dardo,
Um diário e um retrato,
Como um mapa perfurado,
Que não sei onde já fui;

Não é um desejo, é história,
Que me escapa da memória,
Que escrevi pelos meus braços
Que o sol me apagou;

Não é um poema, nunca foi,
Nunca seria,
Escrevi o que sentia, 
Porque não tinha ninguém pra escutar;

E afinal, 
Mesmo não sendo um poema,
Eu leio e te amo inteira,
Cabo a rabo, ponto e traço,
E te conheço aos poucos,
Um livro infinito, meu favorito,
O mais bonito, 
E o único capaz de me compreender.

segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Anonimato

Quem era você, menina?
Que se derretia
Por poemas escritos
E ditos 
Da boca pra fora
O quão vazia era,
Quão desesperada?
Do que precisava?
Pra se colocar nesses lugares
Como eu te salvaria,
Se um dia te encontrasse,

O que posso te dar, se ainda vive?

O quão ingênua e sábia,
Quão entregue a nada
Que não te notavam
E não notariam,
Onde você estava?
Por trás de todo o circo
Que aprendeu a armar?

Como se chamava?
Tinha casa?
Tinha rosto, gosto, cauda?
Eu lembro do eco distante
Do som da voz dos outros,
Da vibração aflitiva
De tentarem contato, e frustrados
Não constatarem, que,
Como você, 
Falavam com o abismo;

Você segurava um espelho;
Usava tintas,
Usava trajes,
Fazia gestos,
Que desconcentrassem,
Um espetáculo gratuito,
Voz de sereia, 
Fritando no asfalto;

Eu morro de medo de descobrir a verdade;

Eu tento te buscar
Nos meus sonhos;
Nos cheiros que sinto,
Nos petiscos e fotos antigas,
Eu tento te buscar debaixo d'água,
No escuro da noite,
E nas bolhas do sol;

Quem era você, afinal?

Você sequer sabia?
Que tinha nome,
Que tinha casa,
Que tinha gosto e cheiro,
Que tinha cores,
E que quando as cortinas se abriam
A plateia era imensa
Ávida por tuas luzes de prata;

Você ainda se lembra,
Que nasceu um dia,
Antes de sentir o mundo todo
Na ponta dos dedos?
Você se lembra de aprender a andar,
De balbuciar, 
De não ser alguém,
Antes de escolher não ser ninguém?

Queria poder um dia
Te reconhecer,
Ouvir teus passos inquietos,
Sentir teu olhar sedento,
A chama consumindo tua pele,
Mas você sumiu no vento
E no meu vazio eu penso
Que talvez
Você nunca tenha existido.

segunda-feira, 22 de setembro de 2025

As luvas e o leque

Eu perdoo teus pecados,
Os fantasmas do meu lado,
E o glitter que você me deixou
Pra respirar.

Perdoo as bombas-relógio,
O passado na gaveta,
Os sacos sem etiqueta,
A sujeira e os papeis
Que você deixou pras traças;
As desgraças, a perda óssea
E o tempo que você me gastou,
Que não valeu a pena no fim,
Mas eu te perdoo mesmo assim.

Eu te amei, e a mais ninguém
De tal maneira,
Fiz teus caprichos, cumpri ordens
Uma vontade de "deus",
Obedeci aos outros e 
A comandos insanos,
Para te satisfazer,
E você não esteve satisfeita,
Mas eu te amei mesmo assim.
E tava bom pra mim.

Eu perdoo os quilos acumulados
De objetos amontoados no canto,
Foram tantas promesas e no entanto;
Eu acabei me deslocando de você.
Foi sem querer;
Eu estava tentando salvar a sua vida,
Me parecia a única saída,
E agora você se foi.
Eu acho que se foi.

De todos os crimes que 
Cometemos juntas,
Se causei a sua morte,
Eu espero que não,
Seria o único que me condenaria;
"Mariana, 
o que você faz aí parada?",
Você ainda vive?
Te escrevo esta carta,
Mais uma,
Na esperança que você volte pra mim,
Mesmo que eu esteja melhor assim.

Resistência

Meus fios loiros refletem
Um passado distante
Alienígena, anônimo;
Eu tento conectá-los;
Descobri que somos baterias;
Certamente queimei a resistência.

Eu tento te pintar,
Pra dar cor e nome;
Tento emoldurar
E por na minha bolsa;
Eu quero dizer que te amo,
Quero que você se lembre de mim;
O eco fraco da tua memória
Me perturba.

Eu não sei como escrever versos,
Como transmitir o que doi
E a beleza
De pensar sobre você,
Sem te conhecer;
O vazio que tento alimentar
Com diversos pratos
Que tenho anotado, mas nada pretende
Te trazer de volta,
Te trazer pra mim.

Eu listo todos os seus feitos
Seus defeitos,
Suas mortes,
Suas artes,
Listo teus conhecidos, tuas histórias;
O que você consumia 
E o que criava em resposta,
E me parece tão lindo
O teu existir;
Tudo que você tentava esconder
E tudo do que tentava fugir;
Eu tenho inveja.
É como poder assistir 
Um filme pela primeira vez.

O primeiro amor, o primeiro beijo,
O primeiro orgasmo,
A primeira colher de brigadeiro,
O primeiro banho de mar.
Eu tento descobrir
Qual era a temperatura do teu sol
E a densidade da chuva
Sob a qual andava de bicicleta;
Seus pesadelos,
Seus buracos,
E seus recheios.

À noite,
Eu te chamo baixinho
Antes de fechar meus olhos,
Acho que você sabia algum segredo
Que guardou de mim.
E na época não parecia,
Mas agora soa muito importante;
Caso de vida ou morte,
Se é que isso ainda faz sentido,
Se é que eu sei a diferença.

Eu desisti
De me despedir,
Por favor, volta.
Eu te trato melhor, 
Eu te dou presentes,
Eu te salvo da beira do abismo,
É diferente agora,
Agora eu te amo. 
Você me ensinou isso.
Muito obrigada.
Mas, quando você foi embora
A saudade doeu demais.
E tudo bem doer, mas
Eu preferia você aqui.

sábado, 13 de setembro de 2025

Cópias Térmicas

Quero dizer-lhes que não me procurem
Não por desejá-los, ou que o faça
Não por não me desejarem,
Mas por fazerem-no
Estou tão farta de fazer-me desejável
Tão esgotada
Espero mentiras,
Decepções,
Contratos que perderam o prazo,
Traças em meus envelopes;
Não posso dizer
Que meus pulmões estão 
Mais solitários que nunca
Porque estiveram piores
E a dor não doer, não é mais
O que eu respiro quando a lua some.

Estou cansada dos meus resquícios
Estagnando-se memórias
Nas caixas de quem nunca soube meu nome,
De quem nunca ouviu a minha voz;
Eu quero mais que isso,
Eu quero companhia,
Eu quero um colo,
Eu quero o cheiro do meio
Do peito,
De algum batendo
Ao me ouvir cantar,
A me fazer sorrir.

Não quero um holofote,
Reconhecimentos,
Sucesso. 
Quero grama molhada
E um pet que não me rejeite;
Quero sentir conforto,
Segurança,
O amor escasso 
De qualquer fonte;
Eu passo fome,
Eu sufoco, desidrato,
Me desmancho nos rejuntes
E não tenho por onde fugir;
Não mais.

Ela me pergunta
O que eu olho em frente
O que eu desenho, crio
O que sai do meu parto
Quando eu examino,
E eu tento respondê-la
Que sempre foi a mesma coisa
A uma coisa
A única,
Que eu sempre quis.

Eu quero avisá-los
Que cada contato
Me corroi aos poucos,
Que esse desejar me arruína,
Que um buraco negro 
Me come por dentro
E não preciso alimentá-lo ainda mais.

Quero ter a quem dizer
Que não tenho o que dizer
Que não tenho ninguém
E que não me tenho também;
Estou sempre só.
Mas também não gosto de receber visitas.

terça-feira, 2 de setembro de 2025

domingo, 20 de julho de 2025

Soco

Ninguém mais te suporta
Só eu abro a boca
Porque o soco vem
E eu não tô com medo

Você fechou os olhos
Bem arregalados
Tapou os ouvidos
Com a própria voz

Quebrou milhões de copos
Queimou panelas
Jogou os talheres no lixo
E ela disse: "ele é assim"

Eu me perguntei
Se ela sabia
Se era novidade,
Acho que era o plano

Ela foi criada ouvindo
"Ele é assim"

Você riu de mim
Zombou, sentiu
O prazer de olhar alguém
De cima a baixo
De cima do palco

Eu despistei,
Tranquei a porta
Comprei um balde
Dormi com uma faca
Debaixo do travesseiro 

"Perdoa ele, não foi por mal"
E não foi isso que me consolou.

Eu tive medo
Sonhei contigo
Me quebrando numa quina
Tive medo por ela
Tive pelo meu filho
Arrumei uma mochila
Com tudo que eu tinha
E cinquenta reais.

Sua filha foge
Quando você abre a boca
Eu nem abro a minha,
Ela já sabe.

Eu vou dormir com ódio
Escorrendo por entre os dedos.
Ensaio a tua morte,
Soco, assassinato,
O que for necessário.

Quando eu desfiz minha mala
Gastei o dinheiro e o medo,
E se você pensar
Em se meter comigo,
Te derrubo antes
De você piscar.

terça-feira, 15 de julho de 2025

terça-feira, 8 de julho de 2025

Entidade

Eu chamo teu nome 
Afogada em esperança
Eu tentei matá-la sufocada
Amarrei pesos aos tornozelos 
Ela se tornou água.

Pensei que era chama,
Queimando teus restos;
As fotos e os traços
O que coube nos bolsos.

Mas assim que tentei apagá-la,
Ela se tornou vento.

Eu chamo teu nome
De corpo estirado
Não te espero, não canto
Não deixo convites.

Sempre foi solitário
Sonhar ao teu lado,
Enquanto ela criava raízes
Sob meus pés.

Eu cortei e sequei
No sol de três da tarde
Os brotos e os galhos
Tentei engoli-los,
Mas tossi de volta.

Pensei, talvez o mofo
Me ajude a levá-los embora.
E agora,
Eu assisto enxarcada,
Passiva e calada,
E me pergunto
Como foi que começou o fogo.

quarta-feira, 2 de julho de 2025

Glass Dagger [♪]

I made myself a scar
Because I had a wound,
And it was painful —
A stab in the center of my chest,
Ugly, dirty, infected.

I tried to open it,
Sort the shards out,
Clean myself inside.
I picked up my skin
Like it was spikes of a porcupine
Or horns of a cactus —
Something that
Was not supposed to be there.

I guess I'm not a plant, nor an animal,
But my whole existence feels
Like a mistake,
Like I'm not supposed to be here.

I tried to paint myself —
The pain among the art,
Over my vesture.
I made a gesture
To my inner shadow
To let them know that I'm aware.

I made myself a wound,
And it was painful,
But the wound I had before
Was aching further.
So I had to move my claws
And do something about it.

Vivid Raptile [adapted] ♪

I have to lower my blood pressure so I can stand you inside my house
Inside my walls, under my sheets
Inside my clothes,
And thoughts
Like a parasite,
The way you used to call me
And I still believe it
But then again, 
I have no other source.

I have to pour down one of my drinks
Swallow
With my clogged throat,
And still try to empathize;
While holding my knife
Close to my hips
Against my chest
As if I were trying to tear myself apart
From the inside
I guess my heart isn't as spiky
As my skin,
And it shows
From my voice tone
From the way I move
For the way I breathe
Trying not to steal your air
Suffocating beneath you
Buried six feet
Under concrete;

I guess I never realized
The cage I live in is self made 
I made it all out of walls
So I could not escape 
'Cause I'm a snake
And who knows who I may bite
Once I manage to get out.

(Chorus:
I have been digging myself
To keep you alive
I have been crushing my toes 
So that you could walk
I have been talking myself
Outside of each fight
I did it all for you, to watch you thrive)

I try to choke
I try to hibernate
Simulate deaths
Virtual Reality trips
I try not to be awake
Or aware that you're a real person
While I silently point all of my fingers at you
And pray to god that you stay being my devil
Otherwise I would have to blame myself
And I'm barely alive
Or maybe I'm just saying that
Because you freak me out
And I don't want your rage to reach mine

(Chorus: 
I know if feels wrong
But I watch you try
From an outside view
Think I'm not alive
I've done it all for you
To see you smile
And I can't help you
More than I have done so far)

I stuff my mouth with pills
Hope it works fast
Set myself on fire
Freeze to an ice stone
It's been long since I've been around
Since I've been out of sight
But that's the only thing
That's keeping me alive.

(Chorus: 
I have nothing left
For you to tear apart
I gave you all I had
This is the last time
I put my heart on you
Hoping that you'd shine
But I have fallen now

Leave candles at my shrine)

Leave The Party ♪

I have been spending my whole life
Trying to be good enough
I slit my wrists I drank too much
But I was not even there

You said you two were going out and I was not invited
I smoked a pack of cigarettes trying to forget about it

(Chorus)
Uuuh when will you realize
That I've been here all the time
I've been alone by your side
Uuuh I think now you've realized,
That I'm still sitting on my own
But now I want to leave the party

I've tried to play all of your games
You hurt me, I never complained
I hurt you back, was it okay?
That's what you two used to teach me.

I only wanted to be friends
But you both forgot about me
I tried to hurt myself and laugh
Now I want to forget about it

(Chorus)
Uuuuh and I just want to leave the party
Uuuuh oh I just want to leave this party
Uuuh I want to forget about you
Uuuuh Mom, can I please just leave the party?

terça-feira, 1 de julho de 2025

Air

Your health is leaking.
I place my hands together, 
Try to hold it,
While it escapes from me
Like a breeze on butterfly wings.

I think of you,
I do my best to skip some thoughts,
I have to silence myself 
So I can be enough;
So I can do all I have to do.

I dig my feet on the ground:
Roots to keep me from falling,
Your breeze is getting stronger
And I have been greeted 
By previous hurricanes.

I have to nail down the drawers
So they stay in place,
Time is a blessing that evades me –
I hope my shelter stays still,
And I pray for your breath 
To keep coming.

I try to indulge myself,
Pull me from the cage.
I have to create time gaps,
So I can swallow it all.
It tastes bitter,
But I grew used to it.

My mind comes in waves
And so does your weather,
I'm trying my best to guess it;
But I'm not a meteorologist.

sexta-feira, 20 de junho de 2025

29

You made me hate all of my bits.

He made me hate my smell
And how hungry I felt,
Until starving felt correct
And eating was a privilege
I didn’t get to have.

You two made me hate my showers
And brushing my teeth.

And it seemed
Like the worse it felt,
The happier you'd be.

Neither took the time —
Or wasted it —
To teach me how to tolerate myself,
Or all the feelings that I held

Dead silent in my stomach,
Until I was no longer a person.

You made me hate my hair

And taught me that destroying it
Was for the best — except
If it was my idea,
Then it was trash.

I was trash.
You taught me that.

You never liked my colors,
Always despised my clothes —
Not because of them, but
Because I was dressing them.
And I was the ugly duck,
Even if I was the only duck.

Even so, you preferred him —
Who wasn’t there —
And ignored my every effort
To make you happy.

I was bad, evil, mean, whatever.
I didn’t stand a chance.

And still I loved you three.

He called me dumb
Uncountable times.
He never listened
Until I screamed —
And then you called me “too loud,”
As if you weren’t
Selfish, as if you weren’t
Abusive, as if
You didn’t shut me down
Or mock me since I was four,
As if you didn’t force me
To be more —

And try, and try,
Until I got sick.
Then you blamed me for being sick.

And when I hated myself,
And had spent twenty years
Fixing both of you,

You two smiled
And told me I was loved
Very, very much.

But you were thirty years late.
Now I hate you back.

segunda-feira, 9 de junho de 2025

Paradoxo

O que é,
Só é,
Porque um dia já foi.
Se antes,
Não tivesse sido,
Nunca viria a ser.

O que é,
Só é,
Quando se torna.
Nunca antes,
Teria como
Ter sido,
Previamente,
Prematuramente,
Anterior.

O que é,
Só é,
Porque é
Antes,
Depois,
E infinitamente 
No presente.

sábado, 31 de maio de 2025

Entropia

Me lembro de quando
Eu ainda acreditava que era eu
Isso foi muito, 
muito antes
da ordem chegar;
Quando chegou
Trouxe a guerra
E todos se curvaram a ela
Bela, nascida uma torre
para crescer e se estabelecer;
Para esmagar raízes,
Destruir impérios,
Constitucionalizar;

Quando eu ainda via cores no espelho,
A sombra sonora;
Estática, dinâmica
Onda-partícula,
O sangue líquido,
Viscoso, espesso,
Coágulo,

Quando eu ainda tinha olhos,
E um sol pra temperar
os meus quintais;

Ela ainda não me conhecia
Ou tinha se infiltrado
Em minha medula;
Neuralizadora,
Absoluta.

Eu me lembro
de um eco
De quando eu ainda acreditava
Mas já não me lembro no quê.

terça-feira, 27 de maio de 2025

Sussurros

Todas as cartas que eu te escrevo vão pra lixeira
Eu queria te contar como eu me sinto
Mas eu tenho feito isso a vida inteira
E você não reparou
E você não perguntou
E você nem mesmo quis saber
Eu tive que te ensinar
Que eu existo além do seu universo
Que você não me alcança
Nem nunca vai alcançar
Mas você não sabe quão imensa
Eu sou por dentro
Não sabe todo o seu mundo dentro de mim
Não sabe quantas vezes eu te pedi pra ficar
E você foi embora
E você sempre vai embora
Mas não me deixa ir
Mesmo longe de você
Eu continuo presa aqui.

segunda-feira, 26 de maio de 2025

Crepúsculo

Eu gosto de assistir 
os animais da noite
A noite é viva
Tem uma biosfera própria
Eu e meu coração 
Tentando atravessar a pele
Ariscos como eu
Astutos como eu
Pressentem perigo sem olhos
Escoam sorrateiros pelos cantos
O silêncio me chama
Me pede pra ficar
Mas eu preciso voltar
pra dentro de casa
Preciso me deitar
E fechar meus olhos
O sol me dispensa
quando surge
Eu sei que sou
Um ser noturno
Eles têm medo de mim
Como deveriam ter
Eu acho que também 
tenho medo deles
Não sei dizer
O meu maior medo
É ver o sol nascer

quinta-feira, 22 de maio de 2025

Water 2 (tradução)

O que é água, 
Na ausência de sombra 
E de um canto estreito?

O que é água, 
Sem uma direção 
À qual sorrir, ou 
Um calor humano?

O que é água, 
Sem as risadas 
E os pingos 
Desabando em mim?

O que é água, 
Sem estes lábios 
Que me afogam em mim?

O que é água, 
Sem fios de cabelo 
Escorrendo pretos em meus olhos,
Sem um par de pés 
Para pisar nos meus, 
Sem mãos
Pra me alcançar as costas, 
Sem dois braços 
Para me enlaçar?

O que sou eu, 
Senão uma gota d'água 
Sem você?

sábado, 17 de maio de 2025

Ventilador

Não tente me entender,
Você não me conhece
Não me diga o que fazer
Você não anda comigo
Não sente meu cheiro
Não dorme na minha cama
E se dormisse, saberia
Que eu só pego no sono
Depois que todos estão
Com seus olhos fechados

Lugar

Você pode ir
Ou você pode ficar
O que eu digo ou
O que eu sinto
Não importa
Os pés são seus
(e o coração também)

Passarinhos

Bom dia, passarinhos
Eu tenho uma história pra contar
Então quando eu assobiar,
Por favor, entendam.

quinta-feira, 15 de maio de 2025

Rapunzel

Você não tem mais o cheiro da minha mãe
Não tem mais os cachos longos
E os olhos grandes
Não tem mais o sorriso sincero no rosto
Ou os lábios pintados
De vermelho ou marrom
Você não usa mais roupas verde musgo
Vestidos jeans colados
Ou sandálias plataforma laranja gritante
Compridas como arranha-céus
Eu não sei quem você é
Você não faz mais bolo quentinho no fim de tarde
Ou panquecas para comer como petisco
Você não faz risoto marrom claro
Ou gelatina de três cores pro natal
Você não canta pra mim
Eu tenho medo de você
Você não me pergunta do que eu gosto
Não me pergunta sobre mim
Não me convida pro parque
Não me chama pra pintar
Não me ensina as cores
Não me desenha palhaços
Não bebe numa mesa de bar
Com música ao vivo
E usa um guardanapo 
Pra me convencer a esperar
A batata frita que vai acompanhar meu guaraná
Com uma rodela de laranja
A sua risada parece falsa
Performática
Você parece quebrada por dentro
Parece uma alienígena
Que vestiu o corpo dela 
E tenta convencer que ainda é ela
Eles acreditam 
Eu não.

Eu te conheço de dentro
Eu sei o som do teu sangue
Correndo pelas artérias
Sei o tempo do teu coração
Quantos segundos levam teus passos
Qual a temperatura das tuas entranhas
E tudo
Absolutamente tudo 
Que você come

Me lembro do teu corpo despido
De vê-lo minha cama
De teus olhos vermelhos
Dilatados
De ter medo do teu sorriso
E do tom da tua voz
Me lembro de chamar teu nome 15 vezes
E te ouvir responder cansada na última
E de você me trocar pela onda
De ser o centro das atenções numa pracinha

Teve um tempo
Em que eu parecia importante
Eu nunca fui, é claro
Mas 
Eu acreditava
Nas patas do coelho da páscoa
Nas sombras do Papai Noel
Nos agudos da tua voz
Limpos, apaixonados
Na sua gargalhada que ecoava quilômetros
Eu ainda não a odiava
Eu me lembro de você ser minha
Da maciez da sua pele
E do seu cheiro
Eu amava o seu cheiro
Era doce e macio
Como você, na maior parte do tempo

Eu me lembro de te dizer
Por favor não corta o seu cabelo
Você se sentiu ofendida
Agredida
Eu não pude fazer nada
Você cortou seu cabelo 
E jogou com ele
Tudo que eu te conhecia
Pelo ralo

sábado, 10 de maio de 2025

Lua

Quero te contar um segredo,
Li teu livro inteiro
Seis anos de atraso,
Num só fôlego
Não sei o que pensei que acharia
Mas não era isto
Me sinto mais próxima
De você,
Seja quem você for

Eu não me lembro
De verdade,
Não sei como é a memória
Por que a chamam lembrança
Se nunca me lembro
Nunca
Dos traços de meu passado

Alguém me sussurra
Que te conheci
Que já estive em teus braços
Que já te carreguei dentro de mim

Quando leio teus versos
Reconheço algo
Que não vivi
Não nesta encarnação 
Um eco
De alguém que um dia
Talvez eu tenha sido

Peço perdão
Se minha imagem
Te remete a algo
Se fui agradável
Se te fiz feliz
Se te fiz chorar

Se reconhece meus lábios
Minha frequência
Meus olhos
Que nunca nem os vi
Peço perdão
Se meus fios de cabelo
Te perfuram inquietos
Um corte de papel

Eu sinto que já assisti esse filme
As falas vêm a mim depois de ditas
Nunca antes

O teu semblante
Teu olhar perdido
A maneira como junta tuas frases
Me soa familiar
Como um parente distante
Que conheci ainda antes
De sequer pensar em ser alguém

Eu poderia sorrir
Performar silhuetas
Flamejantes
Como nos teus sonhos mais remotos
Poderia ser uma mãe
Um colo
E os seios fartos
Que um dia ofereci

Mas eu não tenho filhos
Eu não tenho amores
Eu não tenho amigos
Eu não habito este mundo
E nunca te conheci

sexta-feira, 28 de março de 2025

Cry

I could go for any kind of love
If you dare
If you might
I can sense my heartbeats
Getting hotter
Boiling blood
All over me
I could go for any drops
A light breeze
Drowning me
I want you to give me compliments,
For free
Attention, time
Just for a day
I won't keep bothering you
I won't keep you busy for long
I need some fucking time
To be taken care of
And the price I'll pay is high
I won't even force you
To read this verse
You see? 
It doesn't cost you much
And it will be worth it
I promise
I'm in for anything
You can take at least an year from me
For a day,
I think it's a great deal
For you, at least
That can go for anyone
Anyone
I'm so fucking alone

Deja de esperar, mi amor

Dáme um beso y bájame de la cruz

quinta-feira, 27 de março de 2025

Polpa Vermelha

Eu já caí do abismo
Já me destrocei
Meus membros agonizam
Distantes uns dos outros
Fendidos por agulhas rochosas
Navalhas da terra
Me separando de mim
Minha cabeça
Uma melancia espatifada
A polpa vermelha
Da minha massa cinzenta
Desfiada como um pedaço de frango
Um quebra-cabeça impossível
De solucionar

Eu já caí
Tropecei no ar
Inventei um degrau invisível
Pra justificar 
Por que não me afastei 
Do precipício
E desengonçada que sou
Fui capengando até despencar

Eu já fui
Já morri
Já conheci a gravidade
Como uma melhor amiga
Como uma alma gêmea
Já senti o clímax da morte
Já senti o pânico
O cortisol
E o alívio
Já senti o nada
Me tomar no escuro
E então
Deixei de ser

Eu já caí
Já não me lembro a sensação 
Do concreto
Da pele rasgando
Dos meus órgãos
Explodindo
Pirotécnicos
Já não me lembro o som
De um coração batendo
Ou de ossos se estraçalhando

Já não me lembro
Qual a cor do céu
Ou o que é a temperatura
A textura do ar
O som sumindo
Zunindo
Extinguindo-se de mim

Todavia,
No silêncio breu
Do tempo e espaço
De alguma forma
Eu continuo aqui.

terça-feira, 25 de março de 2025

Deep Ink

I don't wanna tell you,
But I'm thinking of you
You, naked in my bed
Fulfilling my desires
Indulging my demands
Doing your best work
Just to make me happy
I'm thinking of you
Of three of you
Each one performing 
One of my fantasies
Simultaneously,
Oh god, how I miss
My dreams about you.
I'm terrible at keeping secrets
But there's this one line
Of a movie scene
That keeps playing in my mind
"The secret ingredient of sex..."
And I don't wanna tell you
In fact, I really want to
But I'm scared that
It might not be real
And if it is,
What would I 
Be supposed to do,
With you on my hands?
I want you,
Outpouring my fingers,
Yearning for me
Craving my mind 
And soul
Begging it to become 
Yours

I'll shut my mouth
But my thoughts are stronger
Wider, taller
Thicker
I think of you
And cry for mercy
I wanna own you
I wanna take a walk
Over your body
I want you to be my carpet
And the neon painting
Of my nails
I wanna snort you,
Consume you,
Remind myself
Of an old feeling,
An old being, 
A forgotten couple
Buried below
Our forgetfulness  
  
I crave you
I think of you
I know these thoughts and 
This emptiness
Will leak
And leave me behind
I know I am long forgotten
I know you won't hear my prayers
And if you do,
It will probably be too late

I wish I had it
That flame you seek for
I wanted to be your solution
I wanted you to think of me
And that it'd be so dirty
So deep dark into your soul
That you'd be terrified to tell me
I wanted you
To feel
Exactly how I feel
How I felt
When I once loved you

I crave myself
My long destroyed hope
Of an addictive future
I want
My memory of you
Printed over my eyes

I think of you,
Telepathically try to tell you
My secret
My self-centered dreams
My stained desires 
Of having you, for me only
But you won't hear
I guess
You won't read this letter
And you definitely 
Won't 
Love me back

segunda-feira, 24 de março de 2025

Visit

I'm really fucking sad
And that doesn't bother me
In fact, it feels kinda cozy
Like a fresh blanket on a rainy day
I feel hopeless
Lonely
Yeah, I think that's the word
I feel sick
And I sense some PTSD tape
Playing in the back of my mind
I'm like, five

I don't wanna see you
I don't wanna go where you're going
I don't wanna smell your cigarette smoke
I'm terrified
I'm unsettled
By your distant presence
I once tried to rip off my wrist
Just so I could forget you
I don't want you
And I don't want to remember you exist

It's been a while
Since I realized
People poison me
9 out of 10 times
I rather kill myself at peace
Away from any influence
At least I would enjoy it
At least I would experience it
By myself

I don't wanna see you 
I don't wanna tell you I'm depressed
You should already know it
If I'm being honest
Why would you think any different?
Did you even meet me, for real?
I'm always lonely 
I'm trapped in a deep pit
I can only hear my own voice
And wish that I didn't have a body
Or memories
I don't want any company
You're overstaying your visit.

sábado, 22 de março de 2025

Confissão

Algumas vezes,
Ninguém é culpado
Ainda doi e sangra,
Ainda espirra no carpete
Ainda a mancha alastra
Sem diluir-se
Não é sempre, mas, às vezes
A culpa não vem
De quem está ao seu lado
Ou de você, às vezes sim, mas
Talvez antes, muito antes
De todos os envolvidos;
Ou sob efeito
De uma fonte anônima
Uma frequência não conhecida
Como a cor rosa,
Desabrocha o fogo
Espetacularmente
E vê-se a olho nu
O que nunca esteve ali de fato
Às vezes não há fatos para observar
Ou culpa para absorver 
Mas
Ainda penetra o cheiro 
Pelos seus poros
Ainda zune seus ouvidos
Atordoantemente
Ainda borra as luzes
Ao redor
E ensina a sua íris
Como desligar-se dos sons
Aos tímpanos como esconder sabores
E à derme
A promover uma montanha-russa
Questionável
Diante dos mais
Incoerentes sinais

Antes mesmo que o conflito comece
Que haja tema
Que bocas se abram
Que passos sejam dados
Pratos atirados
Às vezes
Não existe culpa
Ou nomes para preencher assinatura
Mas
Ainda há um assassinato

domingo, 23 de fevereiro de 2025

Shampoo

Eu dou um passo em direção 
Ao batente da porta
Seus gritos me atravessam os ombros
Antes que eu vislumbre a rua
Meus cabelos borbulham 
Mal enxaguados
Eu tô sempre correndo por sua causa
Você me dá conselhos sórdidos 
De como fazê-la calar
Meu primeiro trago tem gosto 
Dos meus quinze anos
Um prazer tóxico
Um de tantos, muitos
Que não consegui abandonar
O sol da noite me derrete
Engolido pelo chão
Cuspido em mim
As trancas dessa casa
Tem cor de vidro
Mas não quebram nem aos murros
A brisa que me carrega na rua
É uma tosse do dia
Me chamando pra ficar
Me expulsando de casa
Me fazendo voltar pra cá
Eu volto como perdesse a alma
Ela se desloca de mim quando 
Destranco a porta
Levanto meus muros
Aciono meu vento
E me ponho de volta na horizontal
É aqui que nasço
É aqui que morro
É aqui que eu nunca terei estado
Porque nunca passei do batente da porta

segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

Bote

Se acha demais
Porque tem uma arma 
Amassada entre as coxas
E o privilégio
De ter nascido 
Um centímetro mais alto;
Porque pertence a uma raça
Que não sente
Ou manifesta fraquezas,
Que não sofre
Em vez disso, desaba
Aos montes, como insetos
Após um dia de vida;
Se acha demais,
No topo do mundo
Não sobe escadas
Vê a vida de cima
E não enxerga a morte
Como uma serpente
Escalando pela sua espinha
Mirando em seu pescoço.


sábado, 25 de janeiro de 2025

Unreal

I'm sick
I'm tired
I'm sad.

This is not a poem
But
I have the same voice tone
While I write this down
The same despair
To be felt
To be proven
A real
Thing

domingo, 19 de janeiro de 2025

Frequência

Eu tento desaprender o que você me ensina
Descamar a camada de pele
Que você me queimou
Eu tento olhar o céu
Enxergar o silêncio
Que você não me permite acessar
Ver cores que você não vê
Que você apaga
Eu tento defender meu posto
Sempre sob ataque
Fingir cinismo
Performar alguém
Que você gostaria de ter
Mas não sendo tua
Nunca tua
Nunca 
Nunca nada teu.
Eu tento trancar a porta
Trancar os ouvidos
Trancar minha pele
Mas o dano que você me proporciona
Não enxerga fechaduras
É um ácido,
Corroendo o aço
Da minha armadura.
Eu tento
A cada minuto 
Tento não ser
Uma bomba relógio
Tento não ser humana
Tento não estar aqui
Presente, em meu corpo
Sobrevivendo
Tento não sobreviver.
Mas você já me ensinou
A desaparecer de mim.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

O Quarto

Eu a tranco num quarto
Bichos de pelúcia
Som de chuva
Bolo quentinho
Recém feito
Livros de colorir.
Ela grita,
Ela chora,
Ela ameaça se atirar na parede
E se atira.
Eu escuto o estrondo,
Mas seguro a porta;
Ela não pode sair.
Eu faço minhas orações 
Baixinho, com a mão no peito
Peço silêncio
A única coisa que eu sei pedir.
Fecho os olhos no escuro,
Costuro meus lábios,
Durmo cedo.
Se eu apagar tudo
Ela vai continuar aqui.
Eu a tranco num quarto
Cobertas macias
Cheiro de lavanda
Um estoque interminável de balas
Diversos sabores.
Eu beijo a porta de leve
Boa noite, querida,
Eu sinto muito,
Te amo,
Mas você não pode sair.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2025

1461

O ano começa e em seus primeiros minutos
Eu tenho pouca coisa na cabeça:
Meu maço lacrado 
Sobre a mesa do meu quarto
E você. 

A menina que fala,
Cumprimenta a todos
Com um sorriso no rosto
E um arco-íris nos olhos;
Uma batalha acontece
Entre as trincheiras;
Guerras planejadas
Que não ocorrem
E não vão ocorrer.

Eu tenho no meu coração 
O impulso de sair correndo
Tapar os ouvidos e me esconder
Como eu tinha quando aos 5 anos
Que me escondia de minha mãe
Certa de que seria encontrada
Certa do tempo que levaria
E da paz que esses minutos me traziam;

Tenho o impulso
De correr pros teus braços
De chamar teu nome no meio da noite
E idealizo um silêncio só nosso
Que não ocorre,
Que nunca vai;
Assim como 
Nunca serei tua.

Um dia predisse
Que nunca daríamos certo
Sinto falta de Janaína,
Mas não do teu corpo sobre o meu
Não me recordo de nada
Sobre o teu toque
Pra além
De teus pés gigantes
E tua sombra pingando sobre mim.
Me recordo mais da água
Que de você;
Então qualquer saudade
Seria no fim
Uma mentira.

Não me impede de recitar teu nome
De novo e de novo
E de novo e de novo
Ecoando em minha mente
Como uma voz intrusa
Como uma visita,
Um parente,
Cuja presença não me foi informada
Previamente,
O som da voz invadindo o meu quarto
Mesmo com a porta trancada
Mesmo com as mãos tapando meus ouvidos
Ainda sim
Ela me invade
Como uma obra no segundo andar
Martelando teu nome no meu crânio
Assinando a base da escultura
Que você descobriu em mim.

O ano começa
Com muito barulho
E muito cansaço
O cansaço de 365 dias
O cansaço de mil quatrocentos e sessenta
E um;
Eu sinto falta de ajoelhar
Para um jesus cristo
Sórdido,
Entregue,
Falso, 
Icônico.
Eu sinto falta do meu satã
E dos gritos no meio da noite.
Eu sinto falta de
Todas as cores que nunca existiram
E nunca virão a existir.

Então é isso,
Minha vida é uma mentira,
Um tempo que não passa
E o teu nome me passando um café
No fim da tarde
Eu mencionei
Que cafeína me mata?
Sento na minha cova aberta
Decidida a não me deitar ao fundo
Mas ainda recitando teu nome
Enquanto cavo.