O ano começa e em seus primeiros minutos
Eu tenho pouca coisa na cabeça:
Meu maço lacrado
Sobre a mesa do meu quarto
E você.
A menina que fala,
Cumprimenta a todos
Com um sorriso no rosto
E um arco-íris nos olhos;
Uma batalha acontece
Entre as trincheiras;
Guerras planejadas
Que não ocorrem
E não vão ocorrer.
Eu tenho no meu coração
O impulso de sair correndo
Tapar os ouvidos e me esconder
Como eu tinha quando aos 5 anos
Que me escondia de minha mãe
Certa de que seria encontrada
Certa do tempo que levaria
E da paz que esses minutos me traziam;
Tenho o impulso
De correr pros teus braços
De chamar teu nome no meio da noite
E idealizo um silêncio só nosso
Que não ocorre,
Que nunca vai;
Assim como
Nunca serei tua.
Um dia predisse
Que nunca daríamos certo
Sinto falta de Janaína,
Mas não do teu corpo sobre o meu
Não me recordo de nada
Sobre o teu toque
Pra além
De teus pés gigantes
E tua sombra pingando sobre mim.
Me recordo mais da água
Que de você;
Então qualquer saudade
Seria no fim
Uma mentira.
Não me impede de recitar teu nome
De novo e de novo
E de novo e de novo
Ecoando em minha mente
Como uma voz intrusa
Como uma visita,
Um parente,
Cuja presença não me foi informada
Previamente,
O som da voz invadindo o meu quarto
Mesmo com a porta trancada
Mesmo com as mãos tapando meus ouvidos
Ainda sim
Ela me invade
Como uma obra no segundo andar
Martelando teu nome no meu crânio
Assinando a base da escultura
Que você descobriu em mim.
O ano começa
Com muito barulho
E muito cansaço
O cansaço de 365 dias
O cansaço de mil quatrocentos e sessenta
E um;
Eu sinto falta de ajoelhar
Para um jesus cristo
Sórdido,
Entregue,
Falso,
Icônico.
Eu sinto falta do meu satã
E dos gritos no meio da noite.
Eu sinto falta de
Todas as cores que nunca existiram
E nunca virão a existir.
Então é isso,
Minha vida é uma mentira,
Um tempo que não passa
E o teu nome me passando um café
No fim da tarde
Eu mencionei
Que cafeína me mata?
Sento na minha cova aberta
Decidida a não me deitar ao fundo
Mas ainda recitando teu nome
Enquanto cavo.