segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

Bote

Se acha demais
Porque tem uma arma 
Amassada entre as coxas
E o privilégio
De ter nascido 
Um centímetro mais alto;
Porque pertence a uma raça
Que não sente
Ou manifesta fraquezas,
Que não sofre
Em vez disso, desaba
Aos montes, como insetos
Após um dia de vida;
Se acha demais,
No topo do mundo
Não sobe escadas
Vê a vida de cima
E não enxerga a morte
Como uma serpente
Escalando pela sua espinha
Mirando em seu pescoço.


sábado, 25 de janeiro de 2025

Unreal

I'm sick
I'm tired
I'm sad.

This is not a poem
But
I have the same voice tone
While I write this down
The same despair
To be felt
To be proven
A real
Thing

domingo, 19 de janeiro de 2025

Frequência

Eu tento desaprender o que você me ensina
Descamar a camada de pele
Que você me queimou
Eu tento olhar o céu
Enxergar o silêncio
Que você não me permite acessar
Ver cores que você não vê
Que você apaga
Eu tento defender meu posto
Sempre sob ataque
Fingir cinismo
Performar alguém
Que você gostaria de ter
Mas não sendo tua
Nunca tua
Nunca 
Nunca nada teu.
Eu tento trancar a porta
Trancar os ouvidos
Trancar minha pele
Mas o dano que você me proporciona
Não enxerga fechaduras
É um ácido,
Corroendo o aço
Da minha armadura.
Eu tento
A cada minuto 
Tento não ser
Uma bomba relógio
Tento não ser humana
Tento não estar aqui
Presente, em meu corpo
Sobrevivendo
Tento não sobreviver.
Mas você já me ensinou
A desaparecer de mim.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

O Quarto

Eu a tranco num quarto
Bichos de pelúcia
Som de chuva
Bolo quentinho
Recém feito
Livros de colorir.
Ela grita,
Ela chora,
Ela ameaça se atirar na parede
E se atira.
Eu escuto o estrondo,
Mas seguro a porta;
Ela não pode sair.
Eu faço minhas orações 
Baixinho, com a mão no peito
Peço silêncio
A única coisa que eu sei pedir.
Fecho os olhos no escuro,
Costuro meus lábios,
Durmo cedo.
Se eu apagar tudo
Ela vai continuar aqui.
Eu a tranco num quarto
Cobertas macias
Cheiro de lavanda
Um estoque interminável de balas
Diversos sabores.
Eu beijo a porta de leve
Boa noite, querida,
Eu sinto muito,
Te amo,
Mas você não pode sair.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2025

1461

O ano começa e em seus primeiros minutos
Eu tenho pouca coisa na cabeça:
Meu maço lacrado 
Sobre a mesa do meu quarto
E você. 

A menina que fala,
Cumprimenta a todos
Com um sorriso no rosto
E um arco-íris nos olhos;
Uma batalha acontece
Entre as trincheiras;
Guerras planejadas
Que não ocorrem
E não vão ocorrer.

Eu tenho no meu coração 
O impulso de sair correndo
Tapar os ouvidos e me esconder
Como eu tinha quando aos 5 anos
Que me escondia de minha mãe
Certa de que seria encontrada
Certa do tempo que levaria
E da paz que esses minutos me traziam;

Tenho o impulso
De correr pros teus braços
De chamar teu nome no meio da noite
E idealizo um silêncio só nosso
Que não ocorre,
Que nunca vai;
Assim como 
Nunca serei tua.

Um dia predisse
Que nunca daríamos certo
Sinto falta de Janaína,
Mas não do teu corpo sobre o meu
Não me recordo de nada
Sobre o teu toque
Pra além
De teus pés gigantes
E tua sombra pingando sobre mim.
Me recordo mais da água
Que de você;
Então qualquer saudade
Seria no fim
Uma mentira.

Não me impede de recitar teu nome
De novo e de novo
E de novo e de novo
Ecoando em minha mente
Como uma voz intrusa
Como uma visita,
Um parente,
Cuja presença não me foi informada
Previamente,
O som da voz invadindo o meu quarto
Mesmo com a porta trancada
Mesmo com as mãos tapando meus ouvidos
Ainda sim
Ela me invade
Como uma obra no segundo andar
Martelando teu nome no meu crânio
Assinando a base da escultura
Que você descobriu em mim.

O ano começa
Com muito barulho
E muito cansaço
O cansaço de 365 dias
O cansaço de mil quatrocentos e sessenta
E um;
Eu sinto falta de ajoelhar
Para um jesus cristo
Sórdido,
Entregue,
Falso, 
Icônico.
Eu sinto falta do meu satã
E dos gritos no meio da noite.
Eu sinto falta de
Todas as cores que nunca existiram
E nunca virão a existir.

Então é isso,
Minha vida é uma mentira,
Um tempo que não passa
E o teu nome me passando um café
No fim da tarde
Eu mencionei
Que cafeína me mata?
Sento na minha cova aberta
Decidida a não me deitar ao fundo
Mas ainda recitando teu nome
Enquanto cavo.