Não por desejá-los, ou que o faça
Não por não me desejarem,
Mas por fazerem-no
Estou tão farta de fazer-me desejável
Tão esgotada
Espero mentiras,
Decepções,
Contratos que perderam o prazo,
Traças em meus envelopes;
Não posso dizer
Que meus pulmões estão
Mais solitários que nunca
Porque estiveram piores
E a dor não doer, não é mais
O que eu respiro quando a lua some.
Estou cansada dos meus resquícios
Estagnando-se memórias
Nas caixas de quem nunca soube meu nome,
De quem nunca ouviu a minha voz;
Eu quero mais que isso,
Eu quero companhia,
Eu quero um colo,
Eu quero o cheiro do meio
Do peito,
De algum batendo
Ao me ouvir cantar,
A me fazer sorrir.
Não quero um holofote,
Reconhecimentos,
Sucesso.
Quero grama molhada
E um pet que não me rejeite;
Quero sentir conforto,
Segurança,
O amor escasso
De qualquer fonte;
Eu passo fome,
Eu sufoco, desidrato,
Me desmancho nos rejuntes
E não tenho por onde fugir;
Não mais.
Ela me pergunta
O que eu olho em frente
O que eu desenho, crio
O que sai do meu parto
Quando eu examino,
E eu tento respondê-la
Que sempre foi a mesma coisa
A uma coisa
A única,
Que eu sempre quis.
Eu quero avisá-los
Que cada contato
Me corroi aos poucos,
Que esse desejar me arruína,
Que um buraco negro
Me come por dentro
E não preciso alimentá-lo ainda mais.
Quero ter a quem dizer
Que não tenho o que dizer
Que não tenho ninguém
E que não me tenho também;
Estou sempre só.
Mas também não gosto de receber visitas.
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