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terça-feira, 15 de julho de 2025
quinta-feira, 15 de maio de 2025
Rapunzel
Você não tem mais o cheiro da minha mãe
Não tem mais os cachos longos
E os olhos grandes
Não tem mais o sorriso sincero no rosto
Ou os lábios pintados
De vermelho ou marrom
Você não usa mais roupas verde musgo
Vestidos jeans colados
Ou sandálias plataforma laranja gritante
Compridas como arranha-céus
Eu não sei quem você é
Você não faz mais bolo quentinho no fim de tarde
Ou panquecas para comer como petisco
Você não faz risoto marrom claro
Ou gelatina de três cores pro natal
Você não canta pra mim
Eu tenho medo de você
Você não me pergunta do que eu gosto
Não me pergunta sobre mim
Não me convida pro parque
Não me chama pra pintar
Não me ensina as cores
Não me desenha palhaços
Não bebe numa mesa de bar
Com música ao vivo
E usa um guardanapo
Pra me convencer a esperar
A batata frita que vai acompanhar meu guaraná
Com uma rodela de laranja
A sua risada parece falsa
Performática
Você parece quebrada por dentro
Parece uma alienígena
Que vestiu o corpo dela
E tenta convencer que ainda é ela
Eles acreditam
Eu não.
Eu te conheço de dentro
Eu sei o som do teu sangue
Correndo pelas artérias
Sei o tempo do teu coração
Quantos segundos levam teus passos
Qual a temperatura das tuas entranhas
E tudo
Absolutamente tudo
Que você come
Me lembro do teu corpo despido
De vê-lo minha cama
De teus olhos vermelhos
Dilatados
De ter medo do teu sorriso
E do tom da tua voz
Me lembro de chamar teu nome 15 vezes
E te ouvir responder cansada na última
E de você me trocar pela onda
De ser o centro das atenções numa pracinha
Teve um tempo
Em que eu parecia importante
Eu nunca fui, é claro
Mas
Eu acreditava
Nas patas do coelho da páscoa
Nas sombras do Papai Noel
Nos agudos da tua voz
Limpos, apaixonados
Na sua gargalhada que ecoava quilômetros
Eu ainda não a odiava
Eu me lembro de você ser minha
Da maciez da sua pele
E do seu cheiro
Eu amava o seu cheiro
Era doce e macio
Como você, na maior parte do tempo
Eu me lembro de te dizer
Por favor não corta o seu cabelo
Você se sentiu ofendida
Agredida
Eu não pude fazer nada
Você cortou seu cabelo
E jogou com ele
Tudo que eu te conhecia
Pelo ralo
terça-feira, 25 de março de 2025
Deep Ink
I don't wanna tell you,
But I'm thinking of you
You, naked in my bed
Fulfilling my desires
Indulging my demands
Doing your best work
Just to make me happy
I'm thinking of you
Of three of you
Each one performing
One of my fantasies
Simultaneously,
Oh god, how I miss
My dreams about you.
I'm terrible at keeping secrets
But there's this one line
Of a movie scene
That keeps playing in my mind
"The secret ingredient of sex..."
And I don't wanna tell you
In fact, I really want to
But I'm scared that
It might not be real
And if it is,
What would I
Be supposed to do,
With you on my hands?
I want you,
Outpouring my fingers,
Yearning for me
Craving my mind
And soul
Begging it to become
Yours
I'll shut my mouth
But my thoughts are stronger
Wider, taller
Thicker
I think of you
And cry for mercy
I wanna own you
I wanna take a walk
Over your body
I want you to be my carpet
And the neon painting
Of my nails
I wanna snort you,
Consume you,
Remind myself
Of an old feeling,
An old being,
A forgotten couple
Buried below
Our forgetfulness
I crave you
I think of you
I know these thoughts and
This emptiness
Will leak
And leave me behind
I know I am long forgotten
I know you won't hear my prayers
And if you do,
It will probably be too late
I wish I had it
That flame you seek for
I wanted to be your solution
I wanted you to think of me
And that it'd be so dirty
So deep dark into your soul
That you'd be terrified to tell me
I wanted you
To feel
Exactly how I feel
How I felt
When I once loved you
I crave myself
My long destroyed hope
Of an addictive future
I want
My memory of you
Printed over my eyes
I think of you,
Telepathically try to tell you
My secret
My self-centered dreams
My stained desires
Of having you, for me only
But you won't hear
I guess
You won't read this letter
And you definitely
Won't
Love me back
sábado, 2 de novembro de 2024
boys
So many things can happen on a friday night
The love of your life
Coming out of a rabbit hole
While you scratch your thighs,
Like you're trying to get your skin off
An attempt to ground yourself
But reality slips through the crack
The guy that most recently stolen
Your miserable heart
Making the craziest proposal
You've ever heard
The baby inside you
Being completely covered
On caressing and kisses
All of it feels so weird
Sometimes I want to get, ahm
Just to relax
To let go of it all
So many things can happen on a friday night
A glass of white wine
A full pack of marlboro red
And the usual meal
Of your 14y self
She didn't have an option
But you do
You know more, you're a grown ass person now
So many things can happen on a friday night
To watch yourself yelling, masking
To a huge crowd
To notice another alien, tiny version
Staring at you and judging you,
For being someone different
Than who you truly are
But you don't even know how to be yourself
Psychotic breaks
What is it to be someone?
You enjoy poetry, and songs
Psychology,
And doing couple sessions
You remember that you're good at it
It's nice to have friends
But it's also nice to have boys
And to realize
How capable you are
Of noticing another human being
So many things can happen on a friday night
So many that you lose track of it
So many that saturday morning comes
And you still have no idea of where you are
Or were
What was the life you've been living
Was it all a lie?
So many things can happen
Beyond your control
That you cannot foresee
That you cannot reach
So many things indeed
And you cannot digest
You have such a tiny life
You're just a baby, girl
But you survived all of it
This is a miracle, don't you think?
quarta-feira, 30 de outubro de 2024
Higher Dosage
I didn't shower today
I tried to cum
She kinda forced me to do it
So she could call me dirty
He's here
And a voice yells
Into my fucking ears
I'm supposed to write about it
He seems normal
He seems boring
What the hell was I expecting?
I just wanted a huge fight
Something to fight for, whatever
God, how I miss fucking
But I'm scared I'll never stop
If I start it over
I don't think I can keep up
With my own pace
I have been having horny thoughts
About murder
So I hope you get what I mean
This is not safe
She calls me pathethic
She laughs at me
WHAT DO YOU WANT FROM ME?
I never get an answer
I mean,
Nothing different from the same one
A single sentence
I want to fucking kill you, make you suffer
And I try to please her
But it's not enough
I wonder how she handles the paradox
How would she keep me in pain
If my body was gone
But I heard rumors
That a spirit can be tortured
So I guess that this might be her plan
What will be eternity
If I never fight back?
But how can I fight her,
When everything I do is self-prophetic
I only do what she twists me into
I'm so confused
And tired
I need a way out
But I am it
I have no clue
Of what else could I ever become
Plato
Estou tentando
Eu odeio essa frase, mas
É verdade
Ou pelo menos eu tento me convencer
Tudo que me falta ser
Que me falta fazer
Eu mergulho nas minhas mentiras
Que hipocrisia
Eu tento ser gentil
Como tento ser com os outros
Como no fundo não sou
Ou penso que não
Que ódio não saber
O que eu mesma penso
O que eu mesma sinto
Eu não te conheço
Nunca te conheci
É um mantra pra mim
Só que
Talvez eu ainda não tenha descoberto
Que eu falo isso pro espelho
O que você viveu?
Qual o seu passado?
O que você gostava de ouvir?
De comer?
Do que você tinha medo?
Por que te apagaram de mim?
Será que teu medo é tão gigantesco
Que te escurece da minha visão?
Quem te criou?
Você vivia sozinha
Sempre viveu sozinha, não é?
Eu queria ouvir uma resposta
Eu cutuquei as sombras
Mergulhei bem fundo
Eu tentei conversar contigo
Mas você só rosna
Eu entendo,
O porquê disso
Porém,
Eu preciso de respostas
Porque se você não for comigo,
Eu não vou
Eu não tenho como controlar esse corpo
Se você não colaborar comigo
Eu tento te fazer agrados
Tento te deixar presentes
Mas você tá sempre reclamando
Roncando no meu estômago
Pedindo mais e mais pra eu engolir
Eu tô cansada,
Por favor tem piedade
Tem empatia
Comigo e tudo que eu tô fazendo
Que eu tô tentando
Eu sei que você odeia essa frase
Eu sei que você me odeia
Mas, não poderia ser diferente?
Eu não te conheço,
Mas eu fiz meu dever de casa
Eu tenho colocado tudo de mim
Pra consertar
O que a gente quebrou
Ou que quebraram pra gente
Muito tempo atrás
Mas por favor
Me dá um tempo
Eu preciso descansar
Eu preciso mesmo
E você não me deixa dormir.
segunda-feira, 29 de abril de 2024
Expectativa
- Eu tava te esperando.
- Bom, se não tivesse seria muito estranho eu ter vindo aqui agora.
- Como foi o caminho? Cansativo?
- É. Demorou muito. Mas agora eu cheguei.
- Entra, senta, quer uma água? Chá, coca-cola?
- Tem café?
- Posso tentar fazer um... Não costumo tomar café.
- Não precisa.
- Tudo bem.
Você se senta no sofá da sala enquanto eu procuro a leiteira pra ferver a água. Tem um coador de pano pendurado perto do fogão. Eu percebo que não tem pó de café.
- Ah, tem que comprar o café. Mais tarde eu vou lá. Quer ir comigo?
- Eu bebo água.
- Depois a gente vê isso. Aqui.
Te dou um copo com água gelada. É como eu gosto. Esqueci de perguntar se você queria gelada mas deixo pra lá. Tem coisas demais que eu quero perguntar. Só consigo olhar pra você.
- Obrigado.
Não consigo sorrir. Normalmente eu sorriria mas, nessas circunstâncias, explosões subatômicas tomam conta do meu corpo. Não consigo controlar minhas expressões. Me sinto uma cobra.
Quero te tocar, mas não sei como. Quero te beijar, mas não sei como. Tudo me apavora. Tenho medo que você saia correndo. Você coloca o copo na mesa.
Você repara em mim, eu me pergunto se você notou minha guerra interna ou se você tá vivendo o próprio universo. Tento escolher palavras para me comunicar, mas não sei o que fazer.
Me sento do seu lado. Encosto meu corpo no seu, estou tremendo. Você parece distante. Será que eu pareço distante?
Recosto minha cabeça sobre você. Sentir o calor da sua pele é como encostar em brasa. A adrenalina me dá choques.
- ... Posso te pedir uma coisa?
Minha voz sai fraca. Você me olha confuso.
- Depende... o quê?
Eu me levanto. Vou até o quarto e pego um canivete preto. Ele tá bem amolado. Me sento ainda mais trêmula e coloco ele na sua mão. Tento respirar fundo. Está difícil fazer contato visual.
Eu olho pra você, tentando transmitir o resto das instruções sem precisar verbalizá-las. Você está resistente.
- ... Me fala que eu entendi errado.
- Não.
- É brincadeira isso?
Você tem um tom agressivo. Não sei o que está acontecendo com você, mas você parece com raiva. É confuso pra mim entender se isso é bom ou ruim.
- Não. É sério.
Você me olha nos olhos profundamente. Com ódio. É assustador. Eu congelo de medo. Você não responde.
- Você não tem coragem?
Parece que meu comentário te tira do pouco eixo que você ainda tinha.
- Tá. Tá bom, você quer isso? Você quer mesmo isso? Então vamos fazer isso.
Você se levanta e anda pela sala agitado. O seu tom de voz, o seu corpo e cada palavra que você diz me apavoram mais e mais. Você parece... instável. Começo a me perguntar se cometi um erro. Eu deveria ter me perguntado isso antes de colocar uma faca na sua mão.
- Me enforca
Você me olha estupefato. Como se eu tivesse soltado a maior das ofensas que eu poderia ter dito contra você. Mas obedece. Como se não tivesse escolha.
Você vem violento com a mão direita prendendo minha nuca contra a parede. Pressionando minha passagem de ar com a palma das mãos com uma força tal que eu sinto mais dor que sufocamento. Eu contorço meu rosto com a dor. Você fica irado. Sacode minha cabeça e bate com ela na parede.
- VOCÊ NÃO QUERIA ISSO?
A porrada produz um eco dentro do meu crânio. Eu balanço a cabeça que sim.
Tento murmurar um "obrigada", mas não sai nenhum som. Você prendeu minhas cordas vocais. Você entende mesmo assim.
O agradecimento parece surtir algum efeito em você pois você transita para um estado hipnótico. Me observa como se eu fosse um enigma, com um enorme interesse.
Aperta mais forte o meu pescoço, me sinto um brinquedo na sua mão. Na mão de uma criança fazendo pirraça.
Você põe a mão em uma das minhas coxas e por um instante quase parece um ato sexual, enquanto você levanta a barra do meu vestido, mas, esse momento rapidamente é interrompido por uma queimação súbita como um foguete fino que desce de quase a altura da minha cintura até o meu joelho esquerdo.
Você me olha atento à minha reação. Eu me contorço e me encolho.
- Mais?
Não estou mais em condição de responder. Eu fecho meus olhos com força, sobrecarregada com o excesso de estímulo. Você permite que eu respire; sem soltar o meu pescoço.
Leva a boca até a minha orelha e sussurra:
- Abre os olhos. Agora.
Eu obedeço, com dificuldade. Te olho assustada. Sua voz é firme e ameaçadora. Você se tornou outra pessoa.
Você encosta a ponta da faca na parte interna da minha coxa direita. Pressiona. Eu sinto o sangue escorrer antes de sentir a dor. Com força, você faz o segundo corte 3 vezes mais profundo que o anterior. A dor é muito maior.
As lágrimas começam a descer pelo meu rosto. Eu tô com dor. Eu tô com medo. Eu quero sair correndo, mas eu não consigo.
Eu não sei como eu fui parar ali.
Você sorri quando me vê chorar, como se fosse um prêmio que acabasse de receber.
Eu tento proteger minhas pernas com os braços, mas percebo que não foi uma ideia muito genial quando você resolve cortar meus braços.
Você solta o meu pescoço e os corta rápido, como um espadachim. Eu me sinto um legume sendo fatiado. Eu estou tremendo tanto e tão desorientada que você não sente mais a necessidade de me prender contra a parede. Eu cubro o rosto em pânico. Encolhida em posição fetal.
Você puxa minhas mãos para baixo e me olha nos olhos com um sorriso sádico.
- Eu disse olhos abertos.
Você leva o canivete até a minha bochecha.
- Que tal aqui?
Eu sinto o sangue se esvaindo do meu cérebro e luzes piscando ao redor de você. Não consigo te escutar direito.
- Eu acho que vou desmaiar. Por favor, não...
- Tudo bem.
Você me segura. Eu acordo deitada no seu colo, coberta em sangue, o canivete ao lado de seu copo de água.
Você me dá um beijo na testa.
- Oi. Como você tá?
- ...Confusa. Fraca.
Você se levanta e recosta minha cabeça no sofá.
Eu escuto água e uns barulhos de louça e gavetas. Você volta com um pouco de sal nos dedos e um pano de prato molhado.
- Abre a boca.
Eu abro a boca meio lenta. Você passa o sal debaixo da minha língua.
Torce o pano em cima da minha testa pingando algumas gotinhas de água, e começa a limpar meus cortes. Arde.
- Acho que vamos ter que te enfaixar.
- Eu... não pensei nisso.
- Alguma ideia?
- Ahm... tem um vestido preto lá na cama. Acho que dá pra amarrar ele na minha perna? É aí né? Tá doendo a beça.
- Vou ver.
Você volta com o vestido. Passa ele por debaixo da minha coxa direita e aperta. A náusea diminui, mas ainda me sinto fraca.
- Vem aqui.
Você se senta do meu lado novamente e me chama pra ir pro seu colo. Eu vou meio torta, sem força. Você me puxa. E me abraça por trás. Beija meu pescoço e o topo da minha cabeça. Encosta a bochecha na minha orelha e sussurra:
- Eu te amo. Eu não vou deixar você morrer.
[Esse texto foi uma homenagem e uma referência a um evento literário do passado]