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terça-feira, 18 de junho de 2024

Wolverine

Me afogo em sonho
Luto contra o chumbo em minhas veias
Conserto muito mal as pás
Do vento que me serve de soro
Injetado nos buracos de mim,
Tentando desobstruir
Procuro a escuridão num eco
Tento refletir alguma humanidade
Recebo ódio
Leio mais um texto seu
Pra perfumar meu sono
Pra regar as flores mortas
Do meu inconsciente 
Sufoco tentando acordar
E engulo 12 mínimas 
Sementes de pânico
Como plantasse um inferno em meu âmago
Devolvo-as
Como fosse uma escolha minha
Rasgar meu estômago ao meio
Mas não
Desabo por trás de córtex
Tomando decisões das quais me arrependerei
Eu nunca me arrependo,
Sempre sou grata
Por cada destruição que colho
Nino diálogos
Com robôs e bonecos
Não existem humanos 
Não existe espécie 
Como foi afirmado

Visito teu estábulo
Teu antro de café e cigarro
Tua palha alastrada e grudando meus tornozelos
Como a palha faz depois de certo atrito
Sinto falta de ter meus pulsos decepados
Por palavras vazias
E um nojo descomunal
O xarope preto que escorre da sua língua
Entra em mim e me habita como um parasita 
Mas na verdade não é o vírus
Que está me consumindo
É algum tipo de câncer
Uma parte faminta de mim que me devora
E deixa herdeiros
Antes de morrer

segunda-feira, 17 de julho de 2023

Dissipação

Quem é você?
que não te conheço
que não te lembro meu nome
Que me rende uma noite sem sono
ou
Uma vida sem glória
um erro, um fracasso,
um estado pós-mortem
Um eco antigo
do que eu poderia ter sido
E quem eu poderia ter sido?
Se um dia eu tivesse existido
Quem é você,
Meu espelho no breu?
A fotografia invertida, o negativo
Como poderia haver algo
do outro lado
se no meio da selva
todas as árvores são surdas?
Se me parir foi consentir
com o infinito silêncio
do espaço intergaláctico
Se desde o átomo à Via
Não há nada além de este perene
Quem é você
Se é que você existe?
Você tem um nome?
Teve, um dia?
Você soube de alguma outra realidade?
Sou apenas eu que estou pra lá
De onde quer que exista qualquer coisa
Que me possa tocar
Mais uma vez?
Eu existo de fato?
Eu tenho um nome?
Eu e você somos dois que o mesmo,
ou dois distintos?
Somos o mesmo átomo
do infinito no espaço-tempo?
Eu, você
e todas as outras almas
ou seres, ou coisas supérfluas no mundo?

segunda-feira, 25 de outubro de 2021

Três anos de pôr-do-sol

Os dias nascem,
e cessam.
Poderia ser mais um texto
sobre a banalidade dos dias
Mas não é
Este não é.

Sinto falta do farfalhar 
das folhas ao vento 
do fim da tarde
Do burburinho 
das mentes aflitas
das pessoas 
Na estação Central 
de transporte "público";

Sinto falta das pernas doloridas,
costas arqueadas,
corpo dependurado,
A coluna uma toalha molhada,
torcida e atirada, 
antes de posta no varal;
A cabeça uma âncora,
precipitando-se;
E os olhos como cortinas pesadas,
a forçar o fim 
de uma noite de espetáculo.

Sinto falta de
no queimar de meu pavio
bem no fim, antes que apagasse
encontrar um resquício de pólvora:
Ver algo brilhar na escuridão
do meu fim diário
De existir diariamente
De saber que este morrer
Esta luz e este brilho,
Trariam o profundo escuro da noite
Que me traria outro dia
E eu estaria de volta
E eu teria sempre algo novo
que incendiar. 

As nuvens caminham,
os pássaros colocam seus ovos
nos ninhos,
as mariposas copulam sobre as frutas e fazem filhos,
a terra sofre erosão e a mata queima. 
Partidos políticos mudam,
pessoas nem tanto, 
tenho um dejavu escrevendo um texto;
Se minha casa fosse meu país, 
eu estaria vivendo na guerra,
Se eu estivesse vivendo dentro da minha casa, eu estaria morando no meu país. 

O sol nasce e se põe todos os dias e faz 3 anos que eu mal consigo vê-lo.
Meu quarto tem uma janela, embora eu sempre diga que não,
Mas eu nunca a abro.
Nunca abro as cortinas, e mal tenho estado de olhos abertos quando há luz no céu.
Que tanto o faça.

Os dias nascem e cessam em mim.
E isso basta.