quarta-feira, 7 de junho de 2017

Transpasse

Já sinto falta
Das minhas noites de sono
Já sinto sua falta
Como não sentisse sua falta
Já muito antes de partir
Já sinto falta de sorrir
E de sentir o gosto do brigadeiro

Sinto falta de acordar, estremecer
E esperar alguma coisa do dia
Sinto falta da ausência de culpa
Sinto falta de estar em companhia

Já sinto falta
De ser ordinária,
Medíocre, como os outros
Sinto falta de quando não doía
Minha coluna
De quando eu ainda tinha esperança
E lutava pela paz no coração de todos
Sinto falta
De querer suportar
Estar aqui

Já sinto falta
De não precisar chorar
E não ter que resistir
Aos impulsos categóricos
De me automutilar
Sinto falta de carregar
Algum conforto
Dentro de meu próprio corpo
Menos deteriorado
Sinto falta do silêncio
Que eu não tinha ainda notificado

Não sinto falta da solidão
Porque tenho estado, e persisto
Em perpétuo e contundente
Isolamento
Desde que existo

segunda-feira, 5 de junho de 2017

A man and a dog, two cats and a bat.

I offered him a cigarette.
He said
"I only smoke weed"
That's it.
No poeme, no text,
Nothing else.

domingo, 4 de junho de 2017

Trato

Eu sou a menina
Que se deita sobre você
Por uma noite
E no raiar do dia
Te escreve um texto
E fuma um cigarro.
Não fumo durante o ato,
Não fumo durante o papo.
A solidão se mostra
Entre o fim do ato
E o primeiro trago.
É aí que te escrevo um texto
Sobre você.

A derrota

Como eu poderia
Não mais te amar,
Se sou de outro,
Se só faço te esperar?
Como poderia,
Se quando fecho meus olhos
De areia negra,
De sereia quente,
Só penso em você?
Como eu poderia
Não ser sua,
Se quando me agoniza
Eu quero que você também sinta
Se quando me transborda
Eu quero transbordar
Dentro de você?
Como eu poderia
Te dizer adeus
Se você é o único
Que existe no mundo
Que eu derrotei?

Eu sou sua
E ainda te amo
E me doi todos os dias
Como todas as outras dores
Que eu engulo e sigo em frente
Eu te amo e esqueço
De tudo que fomos
Do que vivemos
Do teu rosto e do teu corpo
Da tua voz
Eu te amo
E nós
Poderíamos ter sido tudo
Podemos ser
Poderíamos
Mas eu te amo
Então isto tem de
Também
Fracassar

sábado, 3 de junho de 2017

Estante

Sou um livro aberto
E doi.
Porque sabem quando sou louca,
Porque sabem quanto sou triste,
Porque sabem quando me doi.
Sou um livro aberto.
Quando grito, grito,
Quando calo, calo,
E quando agonizo...
Esbarro nos outros todos.
Sou aberta, sou exposta.
Quando doi, falo que doi,
Quando me revolta,
Eu soco as paredes,
E me soco, e ao que estiver na frente.
Dá pra ver o meu sofrer de camarote.
Incomodo.
Sou um livro aberto.
Quando gargalho, a gargalhada vai longe
Machuca a alma dos infelizes,
Desconcentra os atentos,
Interfere.
Sou expansiva.
Tudo em mim é fermento,
E o bolo cresce.
Eu sou um livro aberto e doi.
Porque compulsivamente falo
E falo mais,
E como,
E luto incessantemente para ser.
Quero meu lugar, meu espaço, meu nome,
Quero existir.
E me abro livro,
Me abro a mente,
Me abro as pernas,
Abro tudo mais.
Sou um livro aberto.
Explicitamente aberto.
Mas quando não tem ninguém
Que consiga entender meu idioma...
Eu silencio
E declaro, determinadamente:
Vou virar poeira na estante,
Não volto atrás.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Defensive

I nurse you.
Like a little baby,
I protect you.
I defend you,
Like a lioness mother,
Like an outraged beast.
I deny it.
I refuse to belong to this place
And to this figure of being.
But, for a moment
I find myself in the middle of a fight
And feel proud about it.
You are mine.
I am strong.
I am a mess to the rest of this world.
But, I know you.
And at this I am good.
I can easily defend
Someone's right to feel things,
To exist,
To be human.
And it's also complicated
'Cause I'd easily defend
My own right to give an end
To my life.
But with this I'm fine.
For a second I don't hate myself
For being there for you.
And it feels light.
You'll find your way.
I'm here, anyhow.
I'll always be, I guess.

terça-feira, 30 de maio de 2017

Quero ele

Te quero fraco,
Taciturno, deplorável
No meu colo,
Miserável,
No meu peito
Sufocando ao soluçar
Sem caminho
E sem ninguém
Para chamar de lar

Te quero fraco
Com rezas infantis
E rimas rasas
Insatisfeito
E com reclamações ingratas
Te quero com olhos fundos
E afogados
Te quero meu

Te quero um breu
Perdido para nunca mais voltar
Te quero preparado pra pular
E se eu pedir, você pula?
Se eu implorar
Você me rouba dele no altar?

Te quero fraco
Completamente entregue
Aos meus caprichos
Te quero adestrável
Como os bichos
Te quero encarcerado no convés

Te quero fraco
Os versos dos homens fortes
Não me cabem
Os gestos dos outros homens
Só me ardem
Te quero derramado nos meus pés

sábado, 27 de maio de 2017

Go away

Queria escrever um texto
Esse silêncio me rasga
Eu tenho sido quieta e decente
Mas preferia ser indecente contigo
Sei que estou cedendo
Sei que em pedaços de mim sou sua
Mas não serei sua
E não vou morar em você para todo sempre
Tenho escolhido não ser
E não escrever meus textos
Porque eles são todos pra você
E eu estou cansada
Das nossas infinitas provocações
Mas sinto falta de quando você me amava
Faz tempo que você me amava
Agora você me chama em vão
Eu digo que sinto sua falta, e sinto
Porque sou sincera como você não sabe ser
E cada resposta tua me doi só mais um pouco
Essa solidão eterna de ninguém mais saber
Como eu me sinto
Você não compreende nada do que eu sou
Você me isola uma porção de terra
No meio das lágrimas
Você me ilha
Eu sinto falta de quando éramos chão
Você continua buscando o que buscava antes
Aflição
Talvez inspiração
Eu sei que me doi faz tempo demais
A tua ausência
A tua companhia ausente
A tua presença solitária
Eu queria que você não existisse
Doi, doi viver
Sabendo que você tá por aí.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Te escrevi um texto

Não tenho sido
Quem você um dia conheceu
Não tenho sido a menina
Que corta os pulsos,
Seu depósito de lágrimas
Não tenho sido a menina que escuta
Madrugada adentro, o dia inteiro
Ainda faço piadas
Lembro um pouco, vagamente
De quem você costumava ser
Sou outra
Não sei mais como era
Quem você chegou a conhecer
Não tenho absorvido
Gírias absurdas
Mas vez ou outra escolho
Algo sem graça pra repetir
Não tenho pensado em ti
E nos diversos problemas que tivemos
Mas hoje pensei
E não sei por quê
Talvez eu só não possa te dizer
Não tenho sido
Quem você esperaria de mim
Mudei
Dormi e acordei vezes demais
Viva, sobrevivendo a tudo que tem sido
Digerindo todas as semanas
Amando compulsoriamente
Outros mortais
Não tenho sido o anjo decomposto
Que te dava abrigo
Tenho sido fogo, vivo e ardendo
Tenho sido madrugadas epiléticas
Tenho sido o pânico na sala de estar
Tenho sido tudo, menos algo
Que poderia te confortar
Mas hoje lembrei teu nome
Queria te enviar uma mensagem qualquer
Como você está?
Não tenho sido constante ou frequente
Não tenho sido gentil
Ou coerente
Mas você gostaria de falar com a consequência
Do que fomos nós
(e mais um pouco)?
Não tenho sido quem te conheceu
E não me recordo bem
Teu jeito de falar
Mas me conta
Quem você tem sido?
Como você está?

terça-feira, 16 de maio de 2017

Protection spell

Walls, walls
That never down
Make me safe again right now
Take this right back to it's home
And get me some peace alone