sábado, 18 de outubro de 2025

Devolver ao Remetente

Não escrevo para ser ouvida,
Não mais.
Escrevo para
Fazer-me companhia;
A única que eu poderia
Vir a ter, eu concluí.

Não tenho amigos,
Não sei se um dia os tive;
Passo meus dias contando
Regressivamente,
Despedindo-me 
Do que ainda não foi. 

A dor passeia pelo meu corpo
Fazendo estrago,
Como um visitante indesejado,
Como uma criança sem supervisão;
Vasos, copos, pratos,
O controle remoto e a prataria,
Meus tesouros, minha paciência,
Minha energia;
Tudo em vão.

Um dia eu tentei aceitar visitas,
Eu era uma anfitriã (quase) perfeita,
Gastava o que não tinha,
Ouvia sem tímpanos, 
Sustentava o peso do tempo
Em meus dois pés,
Por tanto quanto fosse preciso.

Um dia eu acreditei
Que um dia teria
Algo oposto ao vazio que sinto
Todos os dias
Desde que acordo, 
Até nunca mais.

Quando a casca do ovo se quebrou
E nasceu de mim uma verdade;
Um preto no branco 
Escancarado
Frente aos meus olhos;
O soco que levei,
E que me deitei ao chão para sentir
Com propriedade;
Eu descobri que
Seria assim,
E desde então
Escrevo todas as cartas
Apenas para mim.

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