segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Anonimato

Quem era você, menina?
Que se derretia
Por poemas escritos
E ditos 
Da boca pra fora
O quão vazia era,
Quão desesperada?
Do que precisava?
Pra se colocar nesses lugares
Como eu te salvaria,
Se um dia te encontrasse,

O que posso te dar, se ainda vive?

O quão ingênua e sábia,
Quão entregue a nada
Que não te notavam
E não notariam,
Onde você estava?
Por trás de todo o circo
Que aprendeu a armar?

Como se chamava?
Tinha casa?
Tinha rosto, gosto, cauda?
Eu lembro do eco distante
Do som da voz dos outros,
Da vibração aflitiva
De tentarem contato, e frustrados
Não constatarem, que,
Como você, 
Falavam com o abismo;

Você segurava um espelho;
Usava tintas,
Usava trajes,
Fazia gestos,
Que desconcentrassem,
Um espetáculo gratuito,
Voz de sereia, 
Fritando no asfalto;

Eu morro de medo de descobrir a verdade;

Eu tento te buscar
Nos meus sonhos;
Nos cheiros que sinto,
Nos petiscos e fotos antigas,
Eu tento te buscar debaixo d'água,
No escuro da noite,
E nas bolhas do sol;

Quem era você, afinal?

Você sequer sabia?
Que tinha nome,
Que tinha casa,
Que tinha gosto e cheiro,
Que tinha cores,
E que quando as cortinas se abriam
A plateia era imensa
Ávida por tuas luzes de prata;

Você ainda se lembra,
Que nasceu um dia,
Antes de sentir o mundo todo
Na ponta dos dedos?
Você se lembra de aprender a andar,
De balbuciar, 
De não ser alguém,
Antes de escolher não ser ninguém?

Queria poder um dia
Te reconhecer,
Ouvir teus passos inquietos,
Sentir teu olhar sedento,
A chama consumindo tua pele,
Mas você sumiu no vento
E no meu vazio eu penso
Que talvez
Você nunca tenha existido.

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