Tenho olhos de quem tem chorado
Um cabelo desgrenhado
Umas roupas largadas no chão
E tudo mais
Tenho versos espalhados
Para pessoas do passado
E um milhão de vezes escrito
"Eu não aguento mais"
Tenho um corpo
Que parece
Não ser inerte
Como os outros não são
E uma mente
Que a quase ninguém importa
Parece ter se perdido
Na confusão
Tenho uma vida
Que me deram
Como tudo têm me dado todos
Sem merecimento, sem lar,
Sem aconchego
O que nunca foi pedido me deram
E eu tenho (sem apego)
Tenho muito mais que muitos têm
Mas se a posse nada é
Perto de acordar todos os dias
E ser
Eu não tenho nada
Senão a minha vontade
De morrer
quarta-feira, 3 de maio de 2017
Posse
sábado, 24 de dezembro de 2016
sexta-feira, 8 de julho de 2016
Desordem
Assim achava,
Palavras
Precisavam ser respeitadas
Honradas
Tratadas com perfeição
Não sabia
Palavras eram o caos
Da nossa estadia
Sobre o mal que nos aflige
A palavra estava
E sobre a dor a nos redimir
Havia poesia
E entre os ossos
Da antropofagia
Só de uma forma assim
Tão desconcertante
Nos explicaria
Não era sobre reis ou regras
Ou sobre a economia
Não era sobre fé
Ou sobre os politicamente ilhados
A expressão
De todos os nossos pecados
Vinha do mesmo lugar
De onde se comprovava
A felicidade
Se é que ela existia
A palavra não era mérito
De nenhuma sabedoria
Porque de fato
Não sabíamos
De coisa alguma
Era um pesar eterno
E um flutuar soberbo
Era sobretudo
A falta de harmonia
Entre as almas
Que aqui circulam,
Sem nenhuma orientação
Era
O que éramos nós
Uma aflição
De todos os dias
Não fazer ideia
Do que nos segue
Do que nos aguarda
Do que na verdade somos
A palavra
Era
O nosso não ser
E a vida
Que nos era tirada
Antes do anoitecer
quarta-feira, 29 de junho de 2016
Silêncio em 16 linhas
Cala-te.
Não reclama da moça
Sentada na barra do teu vestido.
Não levanta,
Não tenta,
Não sai.
Permanece
E cala-te.
Não fala da tua
Solidão.
Não fala das tuas dores
Nas costas,
Nos seios,
Na alma.
Cala-te.
Não escreve.
terça-feira, 9 de junho de 2015
Urubu
Havia solidão nas suas coxas gordas
E miséria em seus olhos tediosamente castanho-escuros.
As costas mal arqueadas faziam parecer seus seios
Dois pêndulos, carregando em si todo o desgosto
Pelos dias que a precediam, e também pelos que viriam a surgir.
Não tinha passos leves nem ar taciturno.
Parecia ser essencialmente a incoerência,
Vestida sistematicamente em sua camiseta preta e calça jeans,
Carregando no mesmo bolso as mesmas coisas
E no peito as mesmas mágoas fazia anos.
Não era possível prever o que a empurrava ladeira acima,
Debaixo de sol quente ou chuva fina.
Não fazia sentido aquele ser, quando não estivesse em sua cama.
Era ela, ali, humana como qualquer outra,
Infeliz como qualquer paralelepípedo daquela rua
- já fazia setenta e oito meses, talvez mais, que os conhecia.
E o que haveria de incomum ali naquela pessoa,
Senão a própria tendência do homem a permanecer de pé?
Mesmo curvando os ombros e aceitando a perda, todos o fariam.
E os que não fizessem, seriam certamente mal julgados.
E em seguida, esquecidos. Como a todo resto. Como a todos nós.
quinta-feira, 19 de março de 2015
Gas Station
Me visitam as putas
E as bexigas de famílias em viagem
Caminhoneiros atrás de sua santa dose
E os casais que abandonaram sua garagem
Os corpos vão e vem,
Olham feio para a minha imundice
E para o meu abandono
Beira de estrada, por mim todos eles passam
Mas ficar, aqui só ficam os miseráveis
Não há nada de nobre num posto de gasolina,
Senão o sanduíche de linguiça
E a gordura escorre na minha mesa
E o cheiro do combustível inebria os meus visitantes
Todos partem de um lugar para outro
Eu permaneço aqui, só mudo a cor da faixada.
Tu me visitas com um poema e partes
Antes que retorne, meu tanque chora,
Prestes a explodir todo o recinto
Tu vens de novo,
Só chegas no fim da noite
Pra se abastecer em mim
E ir embora
sexta-feira, 19 de dezembro de 2014
Migalhas
A minha decência é medíocre,
Assim como toda iniciativa que parte de mim.
Não me peça grandes feitos, conquistas, reconhecimento.
Não aspiro a magnificência.
Se desejo a esquina, vou à esquina e é isso.
Sem guerra, sem festa, sem lenda.
Meu espírito é medíocre.
E se alguma singularidade brota em mim,
Culpo a escrita.
Não mais que uma enorme farsa,
Ela alimenta a minha miserável ânsia de me alimentar.
sexta-feira, 11 de julho de 2014
Venta-me
Você é vento.
Que me assopra forte
Eu, árvore.
Em todo meu tamanho vou quebrando em galhos.
Perco minhas folhas.
Sementes.
Tudo.
E você, vento.
Não posso tocá-lo.
Mas você me toca quando quer.
E me atravessa sempre.
Sempre forte.
Impetuoso, irredutível.
E pertencente, como se me mergulhasse.
Em ar, em terra.
Como se entrasse em minha alma.
E por lá deixasse os restos.
Os seus pedaços invisíveis prenderam em mim.
E você nem percebeu.
Foi vento, voou.
E eu continuei aqui.
Presa.
Dura.
Árvore.
Viva.