sábado, 13 de fevereiro de 2016
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016
A dança da rotatória
Antes do começo de tudo
Os dias são intermináveis.
Antes do fim do mundo,
Depois do início de mim.
Sob a pele que me abrasa
E sobre o fogo que me afaga a face,
Na coberta que me expulsa, passe
Um pouco dessa fé que os outros falam.
Me encaram os ponteiros do relógio.
Desvio os olhos, não sei, não noto
Sua teimosa marcha rumo à morte
Ou a sua demora mal intencionada.
Me encolho um tanto sufocada.
Não tem nome o sofrimento que me atinge.
Não é permitido alento aos intocáveis.
Não é permitido amor ao que não finge.
Entre a água que ferve, fora da chaleira,
Um desconforto breve, porém durável.
O meu barco solitário é naufragável.
Eu permaneço acordada a noite inteira.
Antes do recomeço,
Do girar cansado das horas sobre o círculo,
Não faço mais nenhuma pirueta
E é ridículo
Como um pedaço de terra
Pode nos beijar ou nos morder.
Antes que saiba
Que virá o mesmo
Ou que o futuro vem pra me assombrar,
Fecho meus olhos
Para tudo que existe.
Entre cinquenta sonhos, dinamite
Nas coisas que não quero suportar.
Busco meus dedos decepados
Pelo pôr do sol.
A ditadura do silêncio não é minha,
Mas, sozinha
Eu venho me resgatar.
domingo, 31 de janeiro de 2016
Ebulição
Ela disse que eu estava chorando
Eu respondi que não
Era mentira
Eu estava chorando
Da minha maneira
Com um cigarro na boca
Cantando
Para o cachorro mais lindo que eu já vi
Não ia fazer sentido pra ela
Eu disse a ele que iria embora
E ele espirrou
Mas quando eu cantei, ele parou
E eu percebi mais uma vez
Como que cantar é amor em forma de som
Mas eu dizia adeus
Eu estou dizendo adeus
Até a próxima vida,
Daqui a um ano inteiro
Eu canto e queria estar em silêncio
Abraçada não com o cachorro ou com ela
Queria estar abraçada com ele,
Com a lua
Com a outra metade de mim
Sinto vontade de despejar
Uma ou duas lágrimas
Mas não posso
Sou triste e sou seca
Eu choro pela fumaça
Que sai do fundo de mim
Meio centímetro
Com o teu isqueiro
Enquanto você dormia
Eu queria estar na tua cama
Eu queria estar dentro de ti
Desde que cantamos
Aquela música sobre cocaína
Eu queria estar mais apertada
Só um pouco mais
Para espremer
Eu queria ficar aqui
Mas tudo daria errado
E eu nunca seria eu
Eu nunca seria eu
Perto de você
Impermanência e paralelismo
Preto, como só você consegue ser
Profundo em meu pulmão
Me sufocando a cada gargalhada
E quando mais chapada eu fico
Mais te amo
Isso nem faz sentido
Meu amigo, meu amor
Depois de tudo que passamos
Eu continuo voltando no tempo
Eu continuo me encolhendo
Virada pra parede
Eu ainda tenho sede
De te encontrar
Na ponta dos meus dedos, pretos
Mergulhados no teu esmalte
No teu caos
Na tua insubordinação e arrogância
E quando eu me desmancho em risos
Aquela tosse vem
Como se fosse um castigo dos céus
Ninguém te conhece
Como um dia eu te conheci
Eu fecho meus olhos e abro
Já passaram 10 horas
E eu estou pesada
Me arrasto pela casa
Consciente de que vou embora
Está na hora
De te dizer adeus
Mas em todo fim de eclipse
Todas as vezes em que nós morremos
Eu sei que é só uma questão de tempo
Até eu te tocar de novo
E doer até me questionar
Sobre quem sou
A lua nunca poderia alcançar o sol
De maneira alguma
Portanto, estão ambos
Perpetuamente imunes um ao outro
Não importa quantas vezes eu tenho vontade de chorar
Ou quantas vezes eu pinto minhas unhas de preto
Também não importa
A quantidade de drogas que eu ingeri
Eu estou aqui, agora
E está na hora de ir
Enquanto você dorme,
A única verdade que me resta é essa:
Eu sempre vou poder escrever sobre você
sábado, 30 de janeiro de 2016
Apoc.
Você perde algo de que gosta.
Algum evento meteorológico não esperado acontece.
Você tem um pressentimento ruim.
Pessoas brigam entre si.
Alguém morre.
Partes da sua casa são afetadas.
Às vezes algum bicho vem te avisar.
quarta-feira, 27 de janeiro de 2016
Sobre as drogas e tu
Eu quero ser fraca.
Não quero resistir a coisa alguma
Não quero ficar mal,
Quero estar sempre aqui no ar,
Quero me jogar e esperar a queda
Que chegue
Que chegue o chão
Eu quero ser fraca
Esperar os passos virem por cima
Me atravessarem
Para amaciar a carne
Quero me apaixonar
Pelo poste em curto circuito
Quero tudo gratuito
Para acelerar o tempo
Que chegue ao chão
E amacie as minhas costelas
Se o oxigênio não bastar
Tudo mais especial
Planejado
Deixo um recado aqui pra ti
Te amei sempre que te vi
E ao meu outro
São assassinos
Meninos
Que me moram já
Não fujo de nada
Não me aguento
Sou bem fraca
Para não te pensar
terça-feira, 26 de janeiro de 2016
A tentativa das coisas
Eu fugi de casa,
Mudei de estado,
Calei a boca.
Eu bebi,
Eu fumei,
Fiquei chapada,
Mastiguei um papelzinho
E ri debaixo da chuva.
Eu sobrevivi.
Eu saí no meio da noite
E quando estava no meio do mar,
Percebi que a água não passava dos meus tornozelos.
O fundo me chamava,
Como se eu devesse morrer ali,
Mas estava tudo lindo demais.
Eu falei com o céu,
A lua cheia brilhava
E eu disse a ela
Que eu escolhia viver.
Venho dizendo isso há mais de um ano.
I choose to live.
Eu apaguei as minhas contas,
Deixei um recado de despedida.
Como eu fiz com as minhas coisas
Intoxicadas de você.
Todos os dias eu descubro
Por que eu quero estar aqui.
Eu chorei com a minha mãe no telefone,
De felicidade.
Eu sorri por tantas horas
E saudei o sol de sete e meia,
Eu nadei para várias direções.
Conversei até de madrugada com estranhos,
Andei um bocado.
Eu tenho andado tanto.
Eu não quis ninguém,
Eu não quis meu próprio corpo.
De repente, adoeci.
Entre tantas outras coisas
Que poderia ter feito,
Eu pensei em você de novo.
Como sempre penso,
Quando escuto qualquer música,
Ainda doi.
Ainda que eu tenha deletado
Todas as músicas que me lembravam você.
"Ah, Dindi,
Se tu soubesse
Como machuca,
Não amaria mais ninguém"
No tanto que eu faço,
Que eu digo,
Reflito,
Me esforço,
Só quero estar bem.
Na profundeza de mim,
Você me assombra,
Feito fosse eu mesma
Me dizendo adeus.
domingo, 24 de janeiro de 2016
Tudo teu
Nos olhares que troquei
Nas bocas que vi
Nos ares que ouvi
No mar
Até na chuva que
Deus me trouxe,
No chão que era meu
E no céu que era teu
Em tudo que existia
Em mim
No fim de tudo
Pra recomeçar de novo
Em tudo que eu tinha
Em tudo que eu era
E até nos outros
Nas músicas que não tocamos
Em outra era
Em outra espera do futuro
Eu juro
Eu juro por tudo que comi
Pelo tanto que dormi
E pelo cheiro de tudo
Impregnado
Era você por toda parte
Por toda parte de mim