terça-feira, 18 de maio de 2021

Chá de Boldo

Meus olhos não pregam

Como as mãos de cristo

Não sei se tento enxergar algum milagre

Ou só aceito como Buda ou algum sábio

De que outra maneira-?

Meus enormes negros, fundos

Olhos de coruja

A nova voz no meu sonar

Mais alguém em quem confiar...

E meus cílios como cola para postiços,

Colados nas pálpebras,

Arregalada

Laranja Mecânica

Me digo 

Que não desligue

Não desligue

Não, você não pode desligar agora

Mas ao deitar e implorar tudo está em pleno neon

Sigo acesa

E o caos e o caos e eu penso

O que fazer com este caos

Então me sento frágil

Forte

As duas simultâneas, juntas

Acordadas,

Sigo a descascar o caos

Como uma cebola que ardesse os olhos 

Mas dessa vez, mastigo as partes

Engulo

Uma após a outra

Após a outra

E após

Até que não me seja mais possível descamar

Em tamanha náusea, no passado

Alguém me daria um chá

Um chá de boldo, pra enjoar

E colocar tudo de ruim pra fora

Engulo o chá.

domingo, 9 de maio de 2021

Marie Kondô

Para Segurança é preciso limpeza e organização.


Então, te dou uma pá, dez sacos de lixo, uma vassoura piaçava muito usada, uma agenda e uma caneta funcionando.

Esqueço a garrafa cheia de álcool 70 na mesa e um ou três paninhos descartáveis, e talvez uns papeis para limpar a sujeira que a vida acumulou.

A gente volta pra buscar.

Um ventilador, uma máscara. Um celular tocando música. 

O celular interfere e você sabe.

Não vem ninguém te socorrer, pare de esperar na porta.


Visitas são perigosas. Você não quer isso.


Precisamos limpar essa vida inteira. Temos muito trabalho a fazer.

Como achar o caminho de saída no meio dessa bagunça?

Nosso quarto não tem janelas.

Nossas coisas estão desempacotadas.

Você lembra como costumava ser. Segue as antigas regras.

Mas como?

Joga todo esse lixo fora.

Eu não sei fazer isso, eu não sei.

Eu me sinto tão sem nada que esse lixo é tudo que eu tenho.

Quase ter coisas é quase ter pessoas, é fingir que eu tenho alguém. 

Objetos pra mim são os pedaços das pessoas. Como jogar pessoas no lixo?

Como?

Eu sinto falta dele.

Ele curou tudo.

E foi embora.

Agora eu só tenho o desespero.

O desespero puro, o desespero.

Eu vou morrer aqui

Eu vou morrer aqui

Eu vou morrer aqui

Eu não suporto mais

Eu não suporto mais

Eu não suporto o pavor e como estou aterrorizada

O desespero

O panico

Eu vou morrer aqui

Ele vai me matar

Vai me quebrar toda

Me colocar no hospital

Ele vai me matar de tanto bater

E talvez eu mereça

Talvez eu mereça

E tudo que eu faça me leve a apanhar até morrer

Eu não tenho como sair

Não importa o quanto eu limpe

Eu estou suja demais

Eu sou suja demais

Minha vida é suja demais

Desintegrada demais

Muito apocalíptica

Para ser organizada

Eu to condenada

sexta-feira, 23 de abril de 2021

Corvos

Um olho gigante me observa no escuro

Arregalado, me engolindo

Colado na minha retina 

e 

ofuscando a habilidade de se fecharem as pálpebras

Aquilo me vigia

Eu sou um mar de culpa e crimes, 

Um maremoto, 

A maresia

Eu preciso quebrar no fim da onda

Na beira, na areia

Na borda

Eu preciso quebrar.

No escuro da noite eles comem

E no silêncio da carne desmaiada

Do surdo e do mudo

Da perda de todos os sentidos

E do infinito nada do não-átomo da antimatéria 

Pulsa e pulsa e pulsa como uma maratona que pairasse entre morte e vida

E tento ter olhos para ver

Pele para sentir

Alma para existir

Tento abrir os olhos 

Mas sou um não-átomo do átomo

Do que formou o mundo e o equilíbrio da forma

Não enxergo um átimo, 

Não o percebo

Se não o reflexo dos olhos grandes elétricos 

e a fome das bestas

O tempo e o mundo, se existem, em outro plano

Eu e eles aqui e escolho o ciclo.



sábado, 10 de abril de 2021

Segredos

Tremo sob os degraus de uma possível sobriedade

Como um sanduíche de pão velho com molho de ontem à noite

É de manhã

Me invadem

Não sei de meus pensamentos

Agora estou a mil

Ando pela sala

Pelos cantos

Não sei para onde vou ou o que estou ouvindo

Estou acelerada e distante

Não estou aqui

Me invadem

Não sei das circunstâncias

Não sei se quero saber 

Queria o nada

O nada

O meu nada

Onde meus pensamentos eram a tinta

E eu era o branco

Eles me sujam

Eu tremo e

Sinto desgosto

Quero tremer em silêncio

domingo, 4 de abril de 2021

Cobras

Odeio

quando

você

finge tenta

ser 

minha

amiga

.


Assassinaram a liberdade dos meus pensamentos

Sou uma rocha em pontas despencando em giros

Quinas e saltos ao longo de um morro sem fim

Me ralo e deformo, imagem volátil, circular de mim 

Eu quero um minuto de silêncio

De paz, de alegria, de 

Não precisar ser tanto

Um descanso

Um não precisar fazer

Você sabe o quê

Você entra e me enche de veneno

E eu não sei como

Não faz sentido

Você deveria ser berço

Mas eu só vejo cobra 

Eu me cubro, um escudo improvisado

Mas não tenho para onde fugir 

Do seu abraço


Não ilha, Atlântis

 Me debruço sob o mármore da janela

Fucinho na brisa gelada, pelada

Como um cão de apartamento buscando ansioso a fuga

Uma criança enrolada em sua toalha pequena 

E o lago na sala

Eu sou uma sereia à luz do luar

Buscando o mar

Com meus cabelos molhados

E me escorre o ouro pelos dedos

É tudo tão efêmero

O ar é tão seco, para ser tão fresco

Me racha

Me humanizo

Granizo,

No lugar de chuva ou oceano

E minha cauda, minha capa

Me escondo

Do quê?

De quem?

Por que a criança chora?

E se ela bebe um copo d'água, por que

A fuga continua?

Tomo ar milhares e milhares de vezes

Incessantemente 

Afundo, âncora

Chumbo

Cidade submersa

Oceano puro

sexta-feira, 19 de março de 2021

Pinduca, consanguíneos e o coral

O dia nasce, 

eles gritam

Eu penso que é você

Na minha janela

Gritando pra mim


Você foi embora,

mas ficou aqui

E ficou tanto que não me deixaram 

trazer outro para te substituir


Pelo menos assim eu poderia dizer

Que você voltou pra mim

Renasceu das cinzas

Reencarnou

Que era você de novo, no outro

Que você veio atrás de mim para me proteger


O dia nasce, eles gritam

Eu tento descobrir 

se é você voltando pra mim

Ou se ainda estou esperando você partir



sábado, 13 de março de 2021

Inconsequência

Às vezes, fazer as coisas como se não houvesse amanhã

É ter fé

Nas soluções e no que virá

Às vezes,

Fazer as coisas como se não houvesse amanhã

É tentar fazer

Com que não aconteça o que você acredita que está prestes a acontecer

É ter fé que o fim nas suas ações de alguma forma findará o fim das ações que a sua fé crê que findarão.

Às vezes, fazer as coisas como se não houvesse amanhã

É não ter amanhã

E fé

Apenas na falta do amanhã.

sexta-feira, 12 de março de 2021

Corpo

Lavo meu cabelo com álcool 70

Minha unha vira ao contrário enquanto eu tento me limpar

Passos rápidos, pelada pela cozinha

Torcendo para ninguém me notar, mas

Sigo nessa competição sem nexo

E tenho pedido atenção, como fosse fazer diferença

E decidi me omitir, pois não quero que me notem nua pela cozinha

Digo,

Ao contrário, suja, 

O cheiro que me sobe dos poros e 

A casca que raspo para manter-me achável,

Tolerável, tragável, 

Ma nu se á vel

Me tranco num quarto escuro da mente

Um quarto calmo

Um quarto de morte

Durmo infinitamente

Mas levanto às vezes, pra alimentar o corpo.


quinta-feira, 11 de março de 2021

Quase

Deixei um texto pela metade

Minha vida pela metade

Meus dias sem lavá-los

E as horas, os quadros, os restos jogados no chão

Por todo o chão

Por todo lado

Metade do quarto

Metade de mim

Me sinto um coral

Arrebentado

Pelos rebotes do mar

Macerada, embotada 

Pela força divina das águas

E da seca das nascentes

Da morte de todas

De ambas as minhas metades

E minha cauda

E meu pó

Fechei meus olhos

Porque era março

Um mês qualquer pra se morrer em vão

E eu estava assim por dentro

Partida, ferida

Triste

Deprimida.