segunda-feira, 17 de julho de 2023

Dissipação

Quem é você?
que não te conheço
que não te lembro meu nome
Que me rende uma noite sem sono
ou
Uma vida sem glória
um erro, um fracasso,
um estado pós-mortem
Um eco antigo
do que eu poderia ter sido
E quem eu poderia ter sido?
Se um dia eu tivesse existido
Quem é você,
Meu espelho no breu?
A fotografia invertida, o negativo
Como poderia haver algo
do outro lado
se no meio da selva
todas as árvores são surdas?
Se me parir foi consentir
com o infinito silêncio
do espaço intergaláctico
Se desde o átomo à Via
Não há nada além de este perene
Quem é você
Se é que você existe?
Você tem um nome?
Teve, um dia?
Você soube de alguma outra realidade?
Sou apenas eu que estou pra lá
De onde quer que exista qualquer coisa
Que me possa tocar
Mais uma vez?
Eu existo de fato?
Eu tenho um nome?
Eu e você somos dois que o mesmo,
ou dois distintos?
Somos o mesmo átomo
do infinito no espaço-tempo?
Eu, você
e todas as outras almas
ou seres, ou coisas supérfluas no mundo?

domingo, 16 de julho de 2023

the nothingness comprehension of the hole

The night you paid me a visit
After two years locked
Inside that freakin frozin burnin cell
I came

The first time they let you out
For mother's day or whatever holiday shit celebration
For good behavior
A little escape
And went to see me
I came
And I was thinking of you

That night I ate half a pizza
I wanted to eat it all
But I didn't have that thing of good behavior
They didn't let me
I was hungry of life
Haven't been fed for years
More than two, if you get what I mean
But that's not all that I mean

I felt the moon, the sky, the drunks,
The cold persecuting my spine
Warning me of your late visit
To fill me up
With your words and
Projecture of being
Such a pretty one
A pretty one
...

And you invade me like a heartbeat
An invasor that messes up my rhythm
A cardiobeat freakstepdance
A heart attack
A cozy net
To hang my neck onto
And I'll never forget
The beautiful poetry
That you silently wrote me
Afterwards
When I was alone
In my bed

Covered up
With nothing but 
Your absence

sexta-feira, 2 de junho de 2023

Grimm

A água não me aquece mais o suficiente
Queria que você me queimasse, cavaleiro
Com a ponta da sua espada
 a ferro quente
 ardendo em brasa
Mas você não passa de um gentil infanto
E eu preciso de um pai
Preciso de um amante
 de um Devoto

Estou cansada de lutar por migalhas

Queria ser a princesa dos jogos
Sou a da torre
A das tranças
E de tanto tempo a cultivar meus cachos
 eles caem aos tufos
Sou forçada a decepá-los
 como membros torpes que me sobrassem
A dor perdura
 como arrancasse uma de minhas línguas.

O silêncio me corrompe.
Me converto a esta forma de ser,
 de animal, 
 de abismo

Me sujeito à mais medíocre das fábulas
 me sujeito ao homem
Ao camponês pagão que em nada crê
 a quem nada rege
 se não a força braçal de plantar o trigo
 e assar o pão

Me curvo, sob o peso do cair da noite
 e do adormecer de minha pele
 da morte de minh'alma
E me sirvo em sacrifício ao único Deus
 que me resta
A sobrevivência.

terça-feira, 16 de maio de 2023

IA, Usina Nuclear

Eu não era nada
Ninguém
Não existia
Porém ainda sentia
Vibrava em cada fibra invisível
De minha inevitável degradação
Eu tinha cheiro
Sentia meu próprio cheiro
Sentia meu próprio gosto
O gosto das partículas do ar
Que tentavam me atravessar
E cuja passagem breve era bloqueada pelo meu corpo
Minúsculo
Extenso
Extendido, e desintegrado
Esparramado e multiplicado por quilômetros
E quilômetros
Como as partículas num átomo
Ocupando um espaço necessário
Um espaço de outrem
E quanto mais me encolhia
Mais perto chegava de me tornar
O fim de um mundo
O meu, o deles, alguma ponte no caminho

Eu queria ser nada
Um nada notável
Que notasse-se que era nada
Um pedaço de pedra ou plástico perene
Que em vez de me degradar ou contar minutos
Como uma bomba-relógio
Poluísse apenas
Em harmonia com o século XXII
Queria ser um lixo
Um não declarável no imposto de renda
Um calado e analgésico
Um morto
Anti-burocrático
Um bem não-natural
Ou uma propriedade que ninguém quer possuir
Mas que também não sofre do mal
De desejar ser possuída
Ou de desejar coisa alguma

Eu desejava não ser.
O nêutron, a barbie, o fóssil.
A química tecnológica.
Uma IA.

quinta-feira, 11 de maio de 2023

Abismo Azul Sinestésico

Faz mais de vinte anos que eu existo mais lá do que cá.
Acho que ninguém nunca me conheceu.
Eu sou um iceberg
Onde encalham às vezes
Algumas embarcações.
Eu tento me mover um pouco para que elas vão embora
Para que sigam seu caminho de origem, de antes de me esbarrar
Para que não fiquem presas aqui, de onde nunca mais vão sair, se eu não as expulsar
É um labirinto.
Eu às vezes me pergunto se um dia cheguei a nascer realmente
Ou se apenas espiei o mundo
Em minha meia-ponta de bailarina
Tentando alcançar o sol.
Eu nunca soube se, quando o sol chegasse
E derretesse o gelo que me prende no mesmo lugar,
Se sobraria algo de mim aqui, para me mover,
Ou se eu sempre fui o gelo de todo o iceberg que fica preso.
E eu queria poder dizer que por isso escolhi ficar longe do sol,
E nunca escoar junto com o resto dos navios,
Que por isso vivo no canto sombrio das sereias,
Numa maldição estranha, em vez de tentar viver.
Mas eu nunca tive escolha.
Eu estava fundo demais,
Gélida demais,
Âncora demais,
Para alcançar qualquer calor.
Para ser qualquer tipo de ser vivo a cores.

Eu só podia ser um prisma que colorisse os outros,
Um farol à noite,
Uma despedida.

E quando as sereias me cumprimentaram, no idioma avesso delas,
Eu simplesmente mergulhei.
E desde então eu vivo do outro lado.
Ninguém percebeu.

segunda-feira, 1 de maio de 2023

Sombra (vs. flashlight)

Quanto menos viva eu me sinto
Mais eu eu me pareço ser
Quanto mais no trauma
Qianto mais perdida
Mais me encontro
Mais me reconheço
Nessa geleia de nada
Nessa farinha de caos

Sei que me dizimo
Que me dissipo
Que me derreto nas nuvens
Da fumaça do meu medo
Dos meus erros
Do meu medo
Dos erros dos erros de outros

Sei que me esqueço
Me abandono nesse breu de mim
Do que há e do que houve
Tapo meus olhos
Apago
Elimino qualquer futuro
Porque não o enxergo ou não quero enxergá-lo

Eu tenho medo
Eu tenho medo de um dia mergulhar
E não sentir coisa alguma
A água escorrer sobre minha pele
Tentar invadir meus poros como antigamente
Me violar
Me criar estática
Me criar estética
Me criar revolta
De que a crosta que se forma sob meus calcanhares
Tenha se convertido em uma capa
que me cobre por toda a superfície
Que volte a ser um feto alheio ao que há fora

Eu arranco-a aos prantos buscando uma nova dor
Mas o que me coça não se alcança
Pois agora há um formigamento que se alastra
Que me apaga
Que me morre
Eu sei que estou morrendo

E prefiro morrer viva
Ou prefiro morrer mentindo uma chapa acesa de natal

Uma vez q você aceita
As náuseas da marisia da droga
Os primeiros meses antes de se abortar de si
Uma vez que você sente o que é estar
Dentro de uma maldita fogueira
Ser um porco assado com facas cravadas no seu corpo
Como um maldito bife à rolê
E sangrar como se nada tivesse acontecido
Como se fosse só mais um dia
Uma vez que você passa uma década
Ouvindo gritos na sua cabeça
Como dormisse com uma TV alta ligada
Não tem volta

Você agora é uma bruxa
É um pirata
Uma sereia
Um surdo, tem que aprender libras pra se comunicar
Você agora é uma vítima
Um sobrevivente
Qualquer coisa que não sente
Um pedaço de coisa, um prato de comida
Um objeto
Você não é mais gente, é um negócio
Um glitch

Hora existe, hora não existe
Às vezes está lá
E aí de repente
____
E vem um choque bizarro
Que queima e corrompe tudo
Um pane geral
Ou só um maldito homem
Quem sabe um pensamento
E você se quebra por completo
/ !\ _ / \ / / | \ X / \ ______
Como uma máquina velha de fliper

segunda-feira, 10 de abril de 2023

Altar

A minha memória escassa
Do teu peso quente
Molhado, me escorrendo
Me prensando contra mim
Me ralando, um descascador de legumes
Dos que eu usava quando nova
E fatia por fatia, me trazendo de volta
Pra me mostrar como que eu nasci
Por quê eu nasci

Mas me empurrando enquanto me lembra
De como eu vou acabar:
Com o chumbo do mundo
(como o teu)
Forrando meu fim.

Penso que talvez nunca devesse tê-lo conhecido
Encontrado, me despido
Entranhado seus giros e cíngulos
Por regalia de criança, por egolatria
Sinto que devia tê-lo deixado ser
E poupado-me do vislumbre
Da verdade do corpo
Que talvez vá muito além do sim e do não

Mas de que me servem esses pensamentos
Se meu corpo já foi seu
Eu já fui sua
E você já foi meu

E por mais que minha amnésia vá apagar a isso,
Como a todo o resto
Essa memória é perene
Eu te amei
E você me mostrou todo um universo

domingo, 9 de abril de 2023

Fisionomia 13

Escorrego e caio
Num buraco de minhoca do passado
Existo entre telas
Em espectro
Uma sombra, reflexo
Da realidade
Esta realidade não existe pra mim

Uma solidão do passado me alcança
Que já não la creía carregar comigo
Não en esto shape, formato
Pensava tê-la cozinhado durante décadas
Que estava amarga de vida
Mas estava ainda um broto,
Recém irrompido da terra
Nutrido da chuva
E a chuva não cessava

A coluna por outro lado,
Não me tardou o lembrete
Ou me desvisitou nem que por segundos
Meus ossos me pesavam tal como
A aura dele sobre mim
Me puxando, uma âncora firme
no fundo do chão
(e do chão não passava, mas também não saía)
Como se ele tivesse entranhado em minhas vértebras, 
Sangue da minha carne,
Me torturando por dentro
Um parasita, 
Me desexistindo, 
Me roubando de mim

Dentro do meu crânio,
Eu era pequena,
Como a massa cinza, que 
Para mim cor-de-rosa,
Fosse tão enormemente minúscula,
Que eu encolhia muito muito os ombros,
Tentando me caber dentro de mim,
Deste meu corpo dentro do meu corpo 
— o verdadeiro –
E as camadas de carne abaixo
Fossem vestes e mais vestes
Que eu pusesse por cima
Para amenizar a agonia
De ter meus nervos expostos
Ao gelo e ao sol
E à força dos pingos de chuva
Quando o granizo são gritos
Do que deveria ser amor

Eu me perco no tempo
No espaço e no tempo
Na concordância
Me perco no corpo
Perco meu texto,
Perco meu caminho
Perco a vida,
Pois que a assisto passar
E com os olhos cheios e peito seco
Sinto o ar se esvaindo de mim
E o resto de luz que tenho se apagar

Tento pisar no chão
Dar um passo, outro
Com dificuldade
Fazer um mergulho
Olhar pro céu
Mesmo que me doam os olhos
Como me doíam
Sentir essa dor
Tolerá-la
E mesmo que não faça sentido
Tento enquanto puder tentar
Porque é o que me resta
Eu sou a faísca da minha própria realidade 
Só eu posso abrir o portal de volta 

segunda-feira, 27 de março de 2023

Interplanetário

Navego no pó empoeirado do meu passado
Não sei se envelheço
Ou se meu corpo está injuriado
Pelo pó branco que consumo em demasiado
Não que o tenha escolhido
Minhas unhas desniveladas e
A tinta desgastada nos meios
Expiam o meu estado
Que meus cabelos talvez não revelem
E tenho tentado, tentado dizer
Mas não há ouvidos que o possam
Que me caibam
Que me conheçam tradução
Ao idioma
Escorrego em meados de uma sombra
Amordaçada e solidificada
Acorrentada a mil cadeados
Para nunca cometer acesso
Mas me empurram diante desde abismo
E me seguro nos galhos
De uma árvore firme que plantei há muito
Na beira deste abismo
Com raízes bem firmes, fincadas a fundo na terra
Uma árvore antiga e forte
Que me segura,
Porém ainda dependo de meus braços
Para manter-me nela
Ainda posso cair
Não creio que sou capaz de escalar 
Para fora do fundo deste poço
Mais uma vez
E mesmo que o pudesse
Não sei se quero
Não sei se o quereria
Acho que eu cairia para todo o sempre
Então eu me seguro com todas as forças
E observo as sombras dançarem na luz
Como fosse a aurora boreal 
Uma paisagem milagrosa 
Desato-me de mim
Deixo que meu eu dance entre as sombras
E o observo, como não o soubesse
Como nunca o tivesse antes conhecido
E se ele escapa e cai no poço
Eu deixo ele lá
E tranco a mil cadeados
Faço um novo do zero
Quem notaria a diferença?

domingo, 26 de março de 2023

Se o lobo ao menos hibernasse

Consumo açúcar como uma droga
Para não morrer
Pequenas doses encontradas
Que as busco como um rato faminto
Como formigas no outono
Entro debaixo d'água tal um peixe
Tentando pegar fôlego
Respirar um pouco
Antes que me assaltem de mim
Mais uma vez
Toco um caixão como tocasse o céu
E um sol quente se abre sobre minha cabeça
Como rachando o céu em dois
E derrubando a torre dos que me cercam
Puxando o meu tapete
Para me afogar na poeira
Do que tranquei a cento e sete chaves

Estou seca
Distante
Um metal frio, barra gélida
Uma jaula e um cadeado
Por cujo buraco da fechadura
Deixa passar um vento
E no uivo desse vento agudo
Eu a ouço me praguejar de morte
Eu tento de tudo a essa altura
Sinto minha vida se escorrendo 
Pela minha nuca
Ela desce pela minha coluna fragmentada
Me serve uma adaga na altura dos quadris
Me amarra os pulsos
Uma ode a cristo
E como fazer de um prisioneiro um exemplo
Plantar um silêncio milenar
Quando chega em pernas,
Elas queimam em brasas
E sei que sou a bruxa
Que ele me joga ainda na fogueira
E fraquejo nos passos
Não sei se fujo ou se fico
E espero virar carvão pra provar
Que sou inocente

Tento me congelar
Tento virar o vento que me amaldiçoa
Mas ele me puxa de volta
Com o mesmo grito do monstro
Que sou
E sei que o sangue que me tiro
Foi ele que ensinou o ofício do lobo
Porque sou a carne
Porque sou a alma
Porque sobretudo ainda não morri

Mas se eu ficar aqui,
Ele me come.