quinta-feira, 27 de março de 2025

Polpa Vermelha

Eu já caí do abismo
Já me destrocei
Meus membros agonizam
Distantes uns dos outros
Fendidos por agulhas rochosas
Navalhas da terra
Me separando de mim
Minha cabeça
Uma melancia espatifada
A polpa vermelha
Da minha massa cinzenta
Desfiada como um pedaço de frango
Um quebra-cabeça impossível
De solucionar

Eu já caí
Tropecei no ar
Inventei um degrau invisível
Pra justificar 
Por que não me afastei 
Do precipício
E desengonçada que sou
Fui capengando até despencar

Eu já fui
Já morri
Já conheci a gravidade
Como uma melhor amiga
Como uma alma gêmea
Já senti o clímax da morte
Já senti o pânico
O cortisol
E o alívio
Já senti o nada
Me tomar no escuro
E então
Deixei de ser

Eu já caí
Já não me lembro a sensação 
Do concreto
Da pele rasgando
Dos meus órgãos
Explodindo
Pirotécnicos
Já não me lembro o som
De um coração batendo
Ou de ossos se estraçalhando

Já não me lembro
Qual a cor do céu
Ou o que é a temperatura
A textura do ar
O som sumindo
Zunindo
Extinguindo-se de mim

Todavia,
No silêncio breu
Do tempo e espaço
De alguma forma
Eu continuo aqui.

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