quarta-feira, 19 de março de 2014

As cinzas de uma fênix

 A insensatez era meu lema. E não morrer era a lei primordial a mim imposta. Eu deveria fazer de meus dias uma enorme festa, forjada sobre meu suor e sangue (dessa vez dentro das veias). A partir do momento em que eu me resgatara do inferno, eles me forçavam a engolir aquelas dádivas malditas. E eu tinha que reconstruir como obrigação. Eu devia evoluir, e agradecer a tudo aquilo, ao universo, e nunca aspirar a nada além. Eu deveria apodrecer por dentro e sorrir admitindo a morte, que semelhante a todo o resto, era o lado bom de se viver. A recompensa, ou a redenção. Eu lutava por minha vida como se a apreciasse, mas vomitava em todo prato em que comia. Amaldiçoava o mundo, e os meus próprios gostos e anseios. Desejava, como temia, a senhora encapuzada, meramente ilustrativa. Buscava uma existência analgésica, como buscava a overdose. Eu havia me perdido no momento em que me salvara da autodestruição. Era agora um espírito vagante. Refugiando-me na existência alheia, abandonando toda a minha carne em busca de uma única crença. Uma nova fé. Algo que me conformasse e me engolisse, algo que me trouxesse de volta à realidade. A verdade que o mundo não mais possuía a me oferecer. Buscava a vida que eu sentira mais na morte. Buscava sobreviver também no céu, e não só no chão. Buscava o infinito.

domingo, 16 de março de 2014

Eva no infinito

   Sentou-se no mármore frio da janela e viu a rua vazia enegrecer gradativamente. Nenhuma alma viva poderia vê-la, e assim ela se sentia muito mais intensa. Havia uma certa liberdade em meio à solidão.
   Resolveu por algum impulso procurar um texto dele. E lendo o último da lista, ela lembrou de como se apaixonava por aquela alma triste e fascinante. Algumas lágrimas foram se formando e se atirando por seu rosto enquanto tudo parecia demasiadamente justo. Justo, longe de justiça. Justo como apertado, sufocante.
   Continou ali lendo sua alma, e por acaso se encontrou perdida entre os versos, que não por acaso eram tão semelhantes aos seus. As duas almas eram gêmeas separadas pelo nascimento. E a saudade pegou fogo, como se a inundasse de álcool por dentro. Uma noite tão comum, de lua cheia e cintilante. E ela sentia falta de estar ali com ele.
   Mentalizou uma conversa que pudesse ter com ele ao telefone.
   "Eu te amo", ela diria.
   E ele responderia "eu também".
   "Sinto a sua falta", confessaria, "eu queria estar aí com você".
   Ele seria doce.
   "Nós dois, não vamos morrer jamais".
   E ela não conseguia parar de chorar. Queria poder tocá-lo mais uma vez. Ouvir sua voz. Reparar nos infinitos detalhes do seu movimento corporal. Amá-lo infinitamente.
   Eva sentia uma imensa falta do paraíso. E nada nem ninguém habitava a sua rua.

segunda-feira, 10 de março de 2014

O bater de asas de uma borboleta


As asas da borboleta

O coração despetalado
Por uma borboleta de cor forte

A mente apavorada
Os pensamentos sobre a morte
E uma turbulência apaixonada

O mundo cão, latindo
Ela rosna de volta
E depois rola na grama

A inocência de quem ama
Sem saber como se solta
A alma prateada

Como os detalhes na asa
Da borboleta medrosa
Acuada
Escondida
Amedrontada

Um corpo muito pesado
Para se manter no ar
Nunca voa,
A menina

Chora sem poder se libertar
E desatina

As mãos atrapalhadas
Quase inertes
De quem ama
Sem nunca querer machucar

Uma criança adormecida
Na paz alucinante
Descobrindo ser
Quem pura e honestamente
Verdadeiramente
Não é

domingo, 9 de março de 2014

Quero um cigarro,
Dois cigarros,
Três maços.
Quero você.

terça-feira, 4 de março de 2014

A chuva assoprando as árvores e eu suspirando apaixonada.

Beco sem saída

   Tentei outras bocas, mas nenhuma tinha o gosto da sua alma, que eu sugava embriagada e caprichosamente. Frustrante foi notar que ao ler tão sabiamente o meu olhar, você não pôde compreender minhas poesias. Que admito, muito a contragosto, ultrapassaram meus limites.
   Tentei de toda forma me refugiar dos gritos secos que me surgem ao te encontrar. Tentei me abster de suas carícias, de suas palavras, da sua voz. Mas se por acaso eu fosse à lua, lá você estaria, pronto para me atormentar com meu amor.
   Tentei me entregar, tentei me destruir, tentei me libertar. Mas você insiste nesse meio termo. Você é o muro de concreto, o fim cinza do crepúsculo. Você é o meu dilema interminável.
   Meu suplício é te adorar, te odiar e abominar.
   Você é um câncer plantado em mim.
   Me resta vegetar, porque não tenho mais certeza de nada quando se trata de você.

   Partir ou ficar, fugir ou perseguir. Minha dúvida maldita.
   Me desespero.
   Me canso.
   Estou exausta de você.

segunda-feira, 3 de março de 2014

Mas desde que você foi minha paixão falsa pós-janeiro ninguém mais me satisfaz.

Noite funda

A água me olha morta, e me informa que engoliu minha alma. Eu já sabia. Ela me chama. Quer me afogar. Minha garganta seca. Meus olhos vazios procuram inquietos alguma existência fútil no azul. Uma metralhadora se instala no meu crânio. Os tímpanos se anestesiam. Na noite não há borboletas negras pra me resgatar. As vozes noturnas me devoram e apavoram. Estilhaço, definho, desintegro. Evaporo ou viro pó. Desapareço.

No coração os cortes, nas mentes a guerra, na alma pó.