sexta-feira, 6 de junho de 2014

2,38

Há coisas sobre mim que não sou capaz de explicar.
Um momento do dia em que a minha única e absoluta preocupação do dia é me mover corretamente,
Bom, é muito incomum.
Duas doses semanais de paz de espírito
E uma maravilhosa dor nas coxas
Me parece razoável.

Independer fisicamente de alguém é apaziguante, eu diria.

Há sentimentos muito bons em pelo menos 2,38% da semana.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Cores

Vagando.
Devorando uma alma congelada entre minhas mãos.
Branca.
Algumas algas plantadas sobre a minha cabeça.
Turquesa.
O sol me irritando a existência mensal.
Amarelo.
E uma música. Algo sobre corações partidos e amores passageiros.
Um rosa embaçado.
A transparência da brisa, certamente mais discreta que eu.
O sentimento todo é estranho.
Uma calma entorpecida.
Leve, porém cheia.
Uma vida que não é tão importante quanto os passos no concreto cinza.
É como se eu não existisse.
E estivesse em paz.

Meu amor, eu tenho medo

Amor, tem uns ratos passeando por aqui. Não se preocupe, eles vão virar pó quando encontrarem o muro. E esse pó servirá de purpurina para as minhas palavras enfeitadas.
Amor, você não pode nunca me deixar. Não consigo imaginar uma vida sem você. E não é pelos ratos.
Querido, você está em tudo que eu tenho feito há quatro anos, desde que eu te conheci. Você está nas músicas que eu escuto, e nas que eu escrevo. Você está nas palavras que eu escolho usar quando não consigo ver o sol.
Ah, minha estrela, você está nos cigarros que eu fumei, e também na minha decisão de largá-los. Imagine por um instante o tanto que em mim é apenas você. E perceba o que sobraria de mim sem você.
Meu amado, nunca, nunca, nunca me deixe. Por favor. Eu te amo com minhas intenções mais puras. Eu te amo mais que qualquer outra coisa, e qualquer outro alguém no mundo.
Não deixe que isso morra. Tudo que eu sou morreria também.

sábado, 31 de maio de 2014

Crush

Manda e desmanda em alguém que tu não conhece.
Salienta a minha alma e inquieta a minha mente.
Dá a ela uma esperança que ela não merece.
Me desfaço pelo vento como se não fosse gente.

Chibata, acorrenta, e deixa ao acaso.
Tudo que vejo é um enorme descaso.
A faz de idiota, e encanta com medos
Não é verdadeiro nenhum dos segredos.

Te minto
Me finges
Dançamos
Caímos

Caio eu,
Aos pés
De um estranho
Nem mesmo me acanho
Nem mesmo me apanho de volta

Não vou cair morta
Só caio dopada
Só deito feliz

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Perdas

Mais um cigarro perdido.
Onde se encontra amor?
Mais uma dose de veneno.
Sem açúcar, por favor.

Nem meus fios de cabelo
Estão podendo me aguentar
Te recuso esta dança
Já não quero me matar.

Anda logo, novidade
Vem me tirar desse breu
Estou fugindo de todos
Me mande algo só meu

Já não sei o que mais eu posso perder

- Você se preocupa demais com as coisas. Puta que pariu, menina, como você vive?
- Eu não vivo. Nem tenho essas pretensões.

Pedi ajuda a uma magia de papel e até o tarô chinês me disse que eu sou um fracasso quando se trata de você.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Poeira

  Hoje seus olhos já não me foram convidativos, nem mesmo perturbadores. 
  Senti um suave desgosto pela sua existência, mas nada desabou em lugar algum. Meu ponto final pendulou no céu, e estava entregue. Como um coração que saísse pulsando pela guela acima, por cerca de um minuto e meio.
  Não me atrevi a tocar-te, ou mesmo deixar escorrer de mim qualquer resquício de afeto. Restou apenas uma simpatia elegante de letra maiúscula iniciadora de capítulos. E é assim que deve ser.
  Você deve estar na página seguinte como mero enfeite ilustrativo, como a sombra da árvore número três na floresta incrivelmente interessante em que alguém fez o favor de se perder - para que assim houvesse algo a ser escrito. Não tronco, nem flor. Nem vento, nem borboleta. Apenas uma folha de inverno, caída entre outras mil. Vírgulas do meu passado, e no seu caso apenas um ponto necessário no lugar das reticências.
  Um contexto a ser modificado. Um instante ultrapassado no ritmo disforme em que eu sinto a vida.
Hoje você durou apenas alguns segundos. E não tardando muito para esta memória se derreta incolor nas minhas veias, escrevo mais um adeus às tuas coisas.

  Expiro-te do meu pulmão, e segue uma tosse. Só há fumaça onde você está. Minha mente há de superar essa poluição.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Duas trocas de olhares

    Os dois trocamos olhares. Nós poderíamos naquele instante explodir o mundo através de nossas mentes inquietas. E tomando conhecimento disso, eu desabei. Desabei como os casarões cariocas da época colonial, cujas belas fachadas imponentes escondem a desestrutura de seus alicerces comprometidos. A cumplicidade instalada na posição daquela perna magra, que permitia uma conversa silenciosa, era capaz de morte. Uns poucos segundos de uma irreal existência mútua, e estaríamos os dois em retorno absortos na burocracia da vida. Ele estaria, ao menos. Seria mais honesto de minha parte descrever apenas a ele como um ser capaz de tal concentração. Era como se o apocalipse não o alcançasse e nem mesmo abalasse a sua sombra. O sorriso repleto de uma ironia irreverente, e porém disfarçada, era só mais um sinal de que não estávamos nem de longe em sintonia. Perdêramos-na havia tempo. E como se fosse o único bem que tivéssemos perdido, naquele momento este parecia de uma importância insuperável. A autencidade daquele gesto se ausentava de tal maneira que me doía. Me doía no pouco que restava de concreto em minha definição. Rachava-me as bordas e corroía-me os meios. Ter seus olhos em encontro aos meus era um suplício inimaginável às testemunhas daquele diálogo invisível.
    Fui-me cambalhoteando meus próprios passos, como se buscasse o ar que ele me arrancara sem a menor misericórdia. Implorei por demônios que me atordoariam os pulmões e busquei alguma redenção no colo de outra alma perturbada. Afinal, naquela tarde tudo me parecia feito de açúcar. E mesmo que a chuva se negasse a desabar impiedosa em meu caminho, podia-se ver o tudo que estava prestes a diluir e me abandonar. No fundo era apenas triste ter que aceitar o que já não existia no mundo que eu havia modelado.