terça-feira, 6 de outubro de 2015

A-corda

Bom dia
Sinto fome
Não, não quero
Tenho sono
Ah, me deixa
Anda logo
Deixa eu me
Lembrar do sonho
Vai, levanta
Ai, meus olhos
Tão vermelhos
E eu tô gorda
Teu cabelo
Tá arrumado?
Tô com sede
Não tem água
Pega Matte
Ah, que vida
E a prova...
Tudo bem
Vai dar certo
Boa sorte
Ainda dá tempo
Um cachorrinho
Como assim?
Eu sonhei
Um poodle branco
E biscoitos
Mundo estranho
Mundo chato
Carro, trem
E lá vamos
Mas e ele
Cadê ele?
Não importa
Pega a folha
Pega a fruta
Anda, vamos
Tchau,
Bom dia
Lê um pouco
Mas eu não
Já foi embora
Agora vou sozinha
Não queria
Abrir os olhos
Levantar da cama
Ir sozinha
E o cabelo
Caindo na cara?
A blusa preferida
A medalhinha
Tentativa
De colorir o dia
Mas tá chato
Não chove,
Não molha
Não queria
Que fizesse sol
Mas esse frio doi
Eu tô cansada
Quero meu cachorro
De volta
Tenho que
Ir
O trem
Com destino a
Futuro
Vai sair
Da plataforma
Qual
Atenção
Portas se
Fechando
Logo eu chego lá
Logo eu volto
Pra ficar
Deprimida
Em paz
Que tal hoje?
Não sei
Vai ler
Vou
Sai daqui
Saio
Não responde

Já to indo
Fui
Bom dia
De novo?
Agora fui
Fim

O Narguilé

  Quem
                Sou
                             Eu?

Uma estranha dedilha
Meu coração chora
Cry baby heart
Não sei quem sou
Não sem você aqui
Que medo enorme que tenho
De existir
De não existir
De ser triste
De ficar só

Projeto futuros
Saio com amigos
Por que nada disso faz sentido?
Falo teu nome
Releio
Digo que te amo
Por que nada aqui parece real?
Faz um ano
Eu sabia que eu ia morrer
E agora?
Se quero viver, por quê?
Como me chamo?
Qual é meu verdadeiro nome?
Onde moro?
Como faço pra ser feliz?

Penso em te ver
Me animo
Falo contigo
Te peço uma ajuda
Que talvez você possa me dar
Talvez nunca
Me perco aqui dentro
Não sei onde termina a fantasia

Só quero sentir teus dedos
Teus abraços, teus lábios
Só quero ser amada
Quero que você me precise
Que me queira
Quero que me carregue
Pra perto de ti

Sinto tanto medo
Da falta das coisas
Da tua
Do fim dos absurdos
Do fim que nunca
É o fim da vida
Às vezes tenho vontade
Você sabe

Nada disso faz sentido

Eu fujo para além do arco-íris
Para depois das colinas
Eu digo que te amo
Que sou boazinha
Que estou fazendo tudo certo
Que vai ficar tudo bem

Em outro momento fico triste
Homeless Alice, so scared
So insecure
Peter ain't no home
Peter has no salvation
For you, Alice
You're all alone
He is so far
He's just a new friend
A special soul
But he'll never be
Mom's chest
Mom will never have
This chest you need
There's no home
You need to stop
I need to stop

Eu preciso parar
De procurar o caminho de casa
Se eu não mentir
Nunca vou chegar a lugar algum
Eu preciso de amor eu preciso
E de amizades
Eu preciso beber
De vez em quando
Eu preciso me esfregar
Em alguma coisa
Em alguém
Eu preciso comer,
Mas não quero

Eu quero existir
Quero ser bonita
Quero atingir o ápice
E lá permanecer
Eu quero sentir
A perfeição de uma vida
Completa
Eu quero ser amada
Eu quero te tocar, Peter
Eu sou obsessiva

E quando você não vem
Quando você não vem
Alguém me mostra versos
De quem eu era
De quem eu não quero mais ser
Eu não quero morrer
Eu não quero abrir meus pulsos
Eu só quero sentir teu cheiro
Mas aí eu choro
E já não sei de nada

Eu não me encontro em lugar algum
Detesto ficar só
Vou fingir que você está aqui
Mas tenho medo
De ficar louca
Tenho medo de morrer
Depois que eu te encontrar

sábado, 3 de outubro de 2015

Tequila

Antes de tudo, o medo. Não. Antes do medo, a vontade. A alegria da realização de alguma ideia. No geral, e libido comandando tudo. Id, id. A satisfação, onde mora? Mora no outro, quase certo. Minha felicidade só existe na interação. Então, temos o medo. Todo o desabamento que pode ocorrer enquanto levitamos. Eu sinto o pânico nas minhas veias e é aí que eu percebo que estou exatamente onde eu desejava. A tirolesa, meu esporte preferido. Te alcanço em breve, me solto da corda, mergulho em ti. E por um periodo limitado, me afogo. Me afogar é fundamental. Enquanto não engulo água, não há verso. Não há graça em nada que pratico. O grito, a boca aberta e o impacto são ítens de suma importância no processo todo. Então eu caio, afundo, bebo água. E lá do meu âmago surge o impulso que me leva à superfície. Subo em desespero, procurando a luz, o ar, a vida. E essa superfície é quando eu tomo consciência de que amo. E quando amo alguém, amo tudo à minha volta. Se há um horizonte até onde meus olhos enxergam, depois dele ainda é possível encontrar amor. E aqui estamos, na superfície. Há oxigênio, consciência, sensação e satisfação. A felicidade mora nesse estágio. Onde o descrevo em vista de lembrar-me sempre como alcançá-lo. E quando todo o movimento breve, porém intenso e agonizante, termina, é quando entra a tequila das tequilas. Meu corpo conhece o lugar onde se encontra, meu mundo aceita o outro facilmente. Meu peito quando acelera, e se transborda de prazer, é capaz de perceber a paz acima de todas as coisas. Tequila é meu ingrediente sagrado para momentos únicos de perfuração. Mas uma boa perfuração. Uma profundidade em si, uma noção verdadeira de todas as verdades. Uma verossimilhança infinita entre o que é inventado e o que é material. Quando os céus são capazes de conversar com o meu espírito e meu corpo é capaz de relaxar-se sobre todas as coisas.

Quando amo. Quando conheço. Quando desejo. Quando realizo.
Quendo quero. Quando recebo. Quando preencho. Quando sou.
Quando está tudo certo. Quando está tudo absurdo e calmo.
Quando me resgato da minha própria diversão insana.
Tequila é meu bem de todos os bens.
Apenas para estas ocasiões.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Organização Padrão

Não era eu.
Vivia outra vida
Em outro mundo
Em outro tempo
Em outra ocasião.
Tinha outro nome,
Alguma outra vontade.
Possuía outra identidade
E essa não era forjada.
Existia em outro lugar.
Eu não acordava.
Eu não conseguia.
E aí, vida maldita.
Se houvesse um ladrão de sorrisos
Logo o fariam suspeito:
Interrogação, quarentena.
Até meus olhos estavam tristes.
Havia muitas coisas erradas,
Eu sabia.
Eu precisava estar naquele estado.
Não tinha avisado srta. Ana
Das visitas.
Dormia.
Um pedaço de papel impresso
Me aguardava.
Eu quase fiquei doente.

I was never Tinker, after all.
I had been Alice all this time.
And I'd try so hard to be
A good girl.
In the end,
I didn't know what to do.
How to act, who to be.
I didn't know what to say.
My mistake.
Silence.
The first quiet morning in weeks.
Lonelyness didn't bother me.

Sabia da liberdade que tinha.
Sabia como fazer aquilo.
Tinha consciência de que
A imagem se formava
De dentro para fora
E às vezes invertida, contra-lateral.
Eu decidia todos os dias
Meu futuro.
E ele era incerto.

Ele era incerto.
He was never fate.
He was a human.

Não me recordava
Do sonho.
Eu enxergava
Importâncias demais
Em tudo.
Eu era estúpida.

Mas o desatar diário
De minhas próprias mãos
Permitia o perdão exato
De tudo que eu sentia.
Eu poderia ser triste,
Eu poderia ser feliz.
O meu eu liberto
Me aceitava em todas as formas.
Eu sabia que naquele momento
Havia apenas eu e eu.

Sem sinais,
Sem Universo,
Sem a realização
De todas as coisas,
Sem catástrofes.

How to guide a stranger?

Aquelas palavras
Continuavam vindo.
Eu falava coisas que não queria.
E tudo, tudo
Era insano e insosso.
E eu estava bem com isso.
Porque aquele lugar eu conhecia.

   

Acorda, menina. Vai dormir.

Recito uma melodia gótica
E que toda a tristeza faça parte
E que a solidão tenha nome
E poder sobre a humanidade
Todo o sentido
Que mora em todas as coisas
Se descolore facilmente
É preciso doer para viver
E tudo isso faz parte
De quem somos
Nós, humanos
Pessoas, nós
Essa raça estranha
Que estudamos na faculdade
Quem sou?
Não importa
Quem se importaria
Com quem eu sou
Além de mim mesma?
Somos seres egocêntricos
Tudo gira em torno de nós
E somos egoístas
Tanto na felicidade
Quanto na tristeza
É isso que somos
Apenas mudamos
A nossa crença
No que vai acontecer
A cada um de nós
É preciso estar só
É preciso estar mal
É preciso ser real
Admitir as verdades que arranham a pele
Não adianta pintar tudo de rosa
Ainda há o preto que permeia o espírito
Sempre haverá
A distopia, o ranking,
O ir e vir dos trens ou automóveis
Sempre haverá as relações
O amor, o ódio, a frustração
Sempre haverá algum tipo de espera
Em cima de tudo
A verdade
Ah, a verdade sobre todas as coisas
Às vezes é preciso estar só
E às vezes é preciso novas companhias
Não fumo
Não fumo
Não fumo o meu cigarro
Não me maltrato
Mas é fato que vou me encher de álcool
Alguma coisa eu preciso fazer
Não sou santa
Não sou puta
Não sou ninguém
Não sou Alice
Cansei de dizer que vai ficar tudo bem
Cansei de dizer que vou ser pessoa melhor
Cansei de dizer que amo
Cansei de ser criança, de ser insana
Cansei do algodão doce e do chocolate
Cansei de querer o que está fora do meu alcance
Cansei até daquelas margaridas que citei outro dia
Eu vou-me embora desse potinho de doces
Vou calar-me
Até que minha estupidez volte a raiar com o dia

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Sobre a serenidade

Não sei onde estás,
Mas sei quem tu és.
Sei que o sou
E sei que me amas.

Sei que o amo,
Que existo,
Que existimos
E que tua presença em mim é perene,
E que a ausência do contato entre o eu e tu
Quase não faz sentido,
Porque sei que estás e que estou,
E independentemente de onde,
Estamos.
Existimos.

Somos:
Eu e tu,
Nós.

Inarredável, intrepidez

"Acho que não vamos nos falar hoje. Tudo bem."
Tudo bem? E quanto à minha saudade?
E quanto à minha ansiedade,
O que eu faço?
Tudo bem.
Não tem motivo pra estresse.
Não tem motivo pra agonia.
Eu sou absolutamente sã.
Não sou?
Meus dias,
Perfeitamente capazes de regozijo,
Mesmo sem a tua companhia.
Mas nunca sem teu espectro,
Tua inaparição reconfortante,
Nunca realmente sem tu.
Não que eu não possa ser feliz
Sem tua imagem decorando
O meu lobo occiptal,
Eu apenas já não sei desvencilhar-me.
Como abortar a beleza de si?
Não há razão.
É belo,
É fato
E da tua beleza não abro mão.
Se tua ausência me incomoda,
Pratico o silêncio dito.
Escrevo, datilografo, rascunho.
Meu punho direito estremece
Com o excesso de trabalho que lhe dou.
Respiro.
E todo o mundo que me cerca
Independe da tua presença.
E mesmo assim, estás presente
Em todos os objetos e seres
Do mundo que me cerca.
Tudo é tu, apesar de não o ser,
Apesar de não estar.
E se eu sorrir para a tua ausência,
Como se ela exemplificasse
A plenitude da tua permanência,
Todo o resto que agoniza se esvai.
Existe um mantra abstrato
Que se refere a quem eu preciso ser
E o que precisa ser feito,
E que funciona melhor sem títulos.
Porque agora o sei.
Sei como devo agir
E onde devo focar a minha reflexão.
O não-tu também é tu
E esta consciência me alivia.
Sei que parte do que compõe
Todo o ar que existe entre o cá e o aí
Materializa ou imaterializa
O fio ininterrupto e inexorável
Entre eu e tu.
Logo, há sempre companhia.
Logo, não há problema algum.
Logo, todo o silêncio conforta,
Todo sono é agradável,
E todo amanhã carrega consigo
A potencialidade do encontro de nós
Com nós mesmos.
Eu em mim, tu em ti.
E em parte, se esquece a dissociação
Entre os dois seres.
Sublime se faz a noção da eternidade.

Universo

Faz diferença?
Se chamo de Deus ou Universo
Se são forças superiores
Ou guias espirituais
Se são um punhado de energia
Se dependem
Se é o destino ou
Se parte de dentro de mim
Se amanheço cansada
E agradeço
Se sei que ele me ama
E o amo de volta
Se quando tenho raiva
Digo gostar da vida
E quando gosto da vida
Digo estar apaixonada por todas as coisas
Se sou feliz, mesmo quando chateada
Se tenho consciência
Do mal que me morde à noite
Se tenho consciência
Da manhã que precisa ser vivida
Se realmente tento
Ser melhor pessoa para o mundo
Se luto pelo que amo
Que mal há no nome que dou
Para quem me trouxe fé e esperança?
Que mal há se tento ser grata e justa?
No fim das contas
Há sempre dois caminhos a seguir
E faz muito tempo
Que eu escolhi meu lado
O resto é só confusão temporária
O universo sabe
Ou seja lá quem for o universo
Para onde eu desejo ir
E para onde vou 

Rescued Skin

Hoje minha nudez se exibe para as paredes da casa
Não como se não o fizesse antes
Não como se o pudor hoje fosse menor
Mas é reconfortante a liberdade
De saber que meu corpo não fere ninguém
Não me recordo ser boa
Em conferir a todo o tempo
Em esconder a minha pele
Desconfio que eu queria mais era ser descoberta
Ser liberta, ser incômoda, ser notada
Hoje, enquanto como minha maçã
Gostando na verdade mais da casca do que da fruta
Eu agito meu braço esquerdo, todo rabiscado
E não me importo
Está tudo curado
E eu me perdoo se não estiver
Sei que não sou anjo
Que ironia
Sei que não sou madura o suficiente
Sei que mal aprendi a ser gente
E quero sair cuidando dos outros
Na verdade, nem quero
Mas é bom
Eu continuo dizendo que preciso
Que é meu dever
Porque nunca me senti tão egoísta
Egoísmo a dois, é possível?
Agora percebo a direção de ascendência
Em breve saberei novamente
O porquê de eu estar aqui
Eu disse ao universo:
Preciso dele para estar aqui,
Para cumprir o meu papel
E era verdade
E eu nunca me senti tão agradecida
Bem, talvez uma vez
O universo me diz:
Vai lá, continua
Você tá indo bem
O universo me traz
Uma espécie de amor ilimitado
Incondicional
E espera que eu o multiplique aos outros
Talvez eu tenha nascido para isso
Para multiplicar
Talvez meu espírito seja sempre infantil
E talvez isso seja realmente bom
Sabe, talvez eu seja Peter
Eu, também, Peter
Além de Alice, Isabel
Além de Liberty
É por isso que ele é perfeito
Apesar de todas as diferenças,
Nós nos somos
Hoje, enquanto eu caminho pela rua
Trilhando o meu percurso de vida
Eu não me odeio
Eu não amaldiçoo nada
Eu não fumo cigarros ou me machuco
Eu sou humana
Não sou sagrada
Mas há uma razão
Para saber que não vou mais me matar
Nunca mais
E alguém lá do outro lado enxerga isso
Eles me salvaram, todos eles