quinta-feira, 14 de junho de 2018

Súplica

Por favor, não amarre meus pés
Eu sei que não tenho andado,
Mas não quero tornar-me mobília
Sou carne e osso,
Não madeira ou aço
Por favor,
Me deixe viver.
Sei que não tenho usado
Mãos e dedos para moldar algo novo
Ou minhas palavras para ajudar alguém
Mas não me emudeça
Não tenho um bom motivo
Para te dar
Tudo que tenho é o medo
De deixar de existir
Por favor, me deixe viver.

Eu tenho pedido
Que cesse a minha dor
Mas eu sei que não há luta ou guerra
A ser vencida
A dor é dona de mim,
E todo o meu esforço
Tem sido na tentativa de me silenciar.

Não quero curar-me de minha tristeza
É tudo que sei e tudo que sou
Sei que me afogo e quero aceitá-lo
Âncora, navio fantasma
Eu desisti de me pronunciar.

Sei que não tenho cumprido
Nenhum de meus compromissos
E não tenho pretendido mudar
Não mereço piedade ou conforto,
Não mereço um lugar no mundo
Que não este poço, mas
Me deixe existir dentro dele,
Por favor,
Não me deixe morrer.

segunda-feira, 11 de junho de 2018

Árvore

Sento-me entre as raízes
Forte segue a madeira
Sugando da terra um motivo
Para viver
Despetalada aos poucos
Sob o indecifrável ritmo de ser
Ela me acolhe
Pois não tem escolha
Não fala ou reage
Não se comunica
Então me toma em seus braços
Que machucados me ardem
E em minhas costas debruçadas
Eu me afundo faminta
No solo não cabem meus dedos frágeis
Meu topo não alcança o sol
Quando murmuro algo ao vento
Na espera de ser algo além de um vegetal
Ele me silencia
E tal qual o tronco que me apaga
Eu desisto
Não há espera que cure
O anoitecer.

Toque.

Tomei tuas dores de cabeça
Como fosse curá-lo
Em milagre santo
Ou esforço
Escrevi teu nome
Impronunciável
E me amaldiçoei
Pelo amor que um dia senti
Sentei-me frente ao espelho
Tentando algo
Mas ao passo em que
Não me reconhecia
Eu não era ninguém
E as letras do teu nome
Eram indecifráveis

Te escrevi um quadro
Da minha infinda dor
Insistindo na única vida
Que conheço
Sei que não me cabe sentido
Ou alegria
Aos passos gastos
Quando te soletro
Uma canção morre.

Não é um desejo pravo
Ou mórbida aflição
É que talvez de minha honestidade
Se encurve a linha da verdade
E dos sucessos que conheço
Isto se torne queda.

Se eu tivesse sido outra
Que não coxa
Que não fúnebre e aturdida
Eu não teria um dia
Te rasgado por dentro
Eu não teria nunca te conhecido.

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Os pássaros e os pingos

Céu que ladra cinzento
Reluzindo meu medo
Não cala os sopranos intérpretes
Que não sei de beleza ou deboche
Visitam-me categoricamente
A desejar bom dia
Com suas penas ágeis
Cortam-me o espírito
E como um verso
Que finde um poema triste
Eu finco meus pés ao chão
Desejando-lhes
Mais um dia de vida

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Nutrição

Alguns dias são lentos
Morrem como nascem
Sem raiar ou pôr-se o sol
Sem horas contáveis
Ou eventos em qualquer escala
São apenas minutos
Um após o outro
Seguindo-se, qual trilhas de formigas
Buscando alimento em mim

Alguns dias
Desnutrem-se
Pois em mim não há nada

Sou um oco
Um vazio
Uma falta de vida
Ou fim.

terça-feira, 22 de maio de 2018

É

A poesia é para a alma
O que é a vida
Dor que alimenta
Contradiz e quebra
Faz pó de nós
A poesia, como todo o resto
Não faz sentido algum.

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Fetish

Você combinou comigo.
Nos encontraríamos às três da tarde, em frente ao portão da garagem do meu prédio.
Eu moro perto da garagem, subsolo, eu te expliquei, mas minha janela dá pra rua.
Às duas e meia eu levanto da cama, lenta e um pouco desmotivada,
É difícil lidar com interações sociais,
Mas eu tenho um bom motivo.
Atrasada, eu resolvo ir tomar um banho.
Tento ser veloz, enquanto meus pensamentos se atropelam.
Será que me sentirei mal?
Será que quero me sentir mal?
Penso se vale a pena me depilar por aquela ocasião,
Se devo seguir os mandamentos feministas,
Se quero gastar o pouco de energia que tenho,
Tentando alcançar um padrão.
A sensação fica melhor quando tá tudo lisinho.
E essa é minha melhor justificativa.
Termino meu banho.
Me enxugo mal, e enquanto pingo pela cozinha, olho o relógio no fogão:
Estranho, ainda faltam dez minutos para as três.
Em exatos nove minutos me visto e me organizo,
Vou até a garagem te esperar.
Repenso e resolvo abrir o portão.
Você está sentado no degrau,
Ao que tudo indica, me esperando faz um tempo.
Me pergunto se você me mandou mensagem,
Se tentou me avisar de alguma forma,
Mas não digo nada.
Sorrio nervosa,
Você sorri de volta.
Quero dizer algo, mas não consigo.
Ainda do lado de fora, nos cumprimentamos com uma espécie de abraço torto,
E então entramos.

Você me observa,
Fecho o portão da garagem,
E você parece estar preparado para este momento,
Porque assim que escuto o clique da tranca,
E me viro na sua direção,
Sinto os seus dedos ásperos tomando meu pescoço
E me prensando contra a superfície acinzentada.
Não sei como reagir,
Tento tossir, mas não consigo,
Você não deixa.
Sinto meu rosto ficando quente e vermelho
E o sangue jorrando pelo meu corpo,
Como se eu estivesse em grande perigo.
Adrenalina.

Escuto passos ecoando no meio do prédio
Tento fugir de você,
Mas estou fraca.
Você coloca a outra mão entre as minhas pernas
E eu deixo.
Você aperta,
Como se eu fosse um objeto,
Como se tivéssemos qualquer tipo de intimidade.
Acho que temos.
Tento gemer, mas tudo que sai de mim é um sussurro.
Não consigo respirar.

O som dos passos de aproxima,
Fica mais rápido
E, antes que eu perceba,
Você me soltou e está encostado na parede distraidamente.
Eu observo tonta uma senhora de salto vir na minha direção
E meio desorientada, percebo que estou no caminho dela.
Levo um tempo para desviar e dar passagem,
Será que ela percebeu alguma coisa?
Ela não parece muito atenta.
Eu respiro como se tivesse acabado de correr uma maratona.
Clique.
Ela saiu pelo portão da garagem.
Eu começo a rir.







domingo, 13 de maio de 2018

Trip vs Isolamento

Eu sou um arbusto
Um amontoado de folhas secas e gravetos
Não quero mais jogar esses jogos contigo
Não sei o que fazer
Não acho que eu vá curar-me
Preferia morar na neblina e nicotina
Dormir ao relento
Com as aranhas e os dogs
Vivo latejando uma dor nas minhas têmporas
O único paleativo que faz sentido
É isolar-me destas pessoas todas
Para manter meu silêncio em 16 linhas

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Habitat

Quarto, roupas e cama
Cheirando a cuidados básicos negligenciados
Depressão
Desjuízo
Vida resolvida
Por dentro o fim
Na rua
Só resoluções
Criando alicerces frágeis
Assistindo a lenta decomposição
de meus quadros
Seguindo aquela pessoa
que não deveria
Por que nunca houve outra
E é essa ofensa
que me rende punição
Por conta dos olhos revirados
E uma falta de ar abstinente
Faço de minha água um corrosivo
E engolindo eu busco
A purificação
É preciso que me dilacere
Célula, partícula
E se pudesse desfaria o átomo
Por que não há maneira
De limpar-me
Eu sou o erro
Eu sou o veneno, vírus
Pessoa má.

terça-feira, 8 de maio de 2018

Antagonia

Os paralelepípedos cheiravam a chuva
O faz de conta era apenas um cano estourado
Viria a tornar-se chuva na manhã seguinte
Dia iluminado
E os bem-te-vis cantariam
Eu não saberia dizer
Se de lamento ou comemoração

Ser quem eu era
Descobrir-me gostando
Do que gostava
E que tinha tanto me tolido
Encolhido sob o tapete
Para não precisar ser

Em um dia chuvoso
Não sentir o gosto de cigarro
Na garganta
Como um desejo crítico
E sim como memória breve
Desgostosa
Do beira-mar de fim de tarde
No dia anterior

Perceber
Que não fazia sentido
Escolher um par de sapatos
Para deteriorarem-se sob meus pés
Ou eleger um nome
E alguma combinação de tecidos
Para me proteger

O cheiro que sentia
No breu da correnteza
E a brisa inacolhedora
Que precedia o pôr do sol
Eram alegorias
Que em seus sorrisos largos
Se debruçavam
Sobre meu ínfimo
E insustentável existir.