terça-feira, 30 de julho de 2013

Namore uma garota que lê
















Namore uma garota que gasta seu dinheiro em livros, em vez de roupas. Ela também tem problemas com o espaço do armário, mas é só porque tem livros demais. Namore uma garota que tem uma lista de livros que quer ler e que possui seu cartão de biblioteca desde os doze anos.
Encontre uma garota que lê. Você sabe que ela lê porque ela sempre vai ter um livro não lido na bolsa. Ela é aquela que olha amorosamente para as prateleiras da livraria, a única que surta (ainda que em silêncio) quando encontra o livro que quer. Você está vendo uma garota estranha cheirar as páginas de um livro antigo em um sebo? Essa é a leitora. Nunca resiste a cheirar as páginas, especialmente quando ficaram amarelas.
Ela é a garota que lê enquanto espera em um Café na rua. Se você espiar sua xícara, verá que a espuma do leite ainda flutua por sobre a bebida, porque ela está absorta. Perdida em um mundo criador pelo autor. Sente-se. Se quiser ela pode vê-lo de relance, porque a maior parte das garotas que leem não gostam de ser interrompidas. Pergunte se ela está gostando do livro.
Compre para ela outra xícara de café.
Diga o que realmente pensa sobre o Murakami. Descubra se ela foi além do primeiro capítulo da Irmandade. Entenda que, se ela diz que compreendeu o Ulisses de James Joyce, é só para parecer inteligente. Pergunte se ela gosta ou gostaria de ser a Alice.
É fácil namorar uma garota que lê. Ofereça livros no aniversário dela, no Natal e em comemorações de namoro. Ofereça o dom das palavras na poesia, na música. Ofereça Neruda, Sexton Pound, cummings. Deixe que ela saiba que você entende que as palavras são amor. Entenda que ela sabe a diferença entre os livros e a realidade mas, juro por Deus, ela vai tentar fazer com que a vida se pareça um pouco como seu livro favorito. E se ela conseguir não será por sua causa.
É que ela tem que arriscar, de alguma forma.
Minta. Se ela compreender sintaxe, vai perceber a sua necessidade de mentir. Por trás das palavras existem outras coisas: motivação, valor, nuance, diálogo. E isto nunca será o fim do mundo.
Trate de desiludi-la. Porque uma garota que lê sabe que o fracasso leva sempre ao clímax. Essas garotas sabem que todas as coisas chegam ao fim. E que sempre se pode escrever uma continuação. E que você pode começar outra vez e de novo, e continuar a ser o herói. E que na vida é preciso haver um vilão ou dois.
Por que ter medo de tudo o que você não é? As garotas que leem sabem que as pessoas, tal como as personagens, evoluem. Exceto as da série Crepúsculo.
Se você encontrar uma garota que leia, é melhor mantê-la por perto. Quando encontrá-la acordada às duas da manhã, chorando e apertando um livro contra o peito, prepare uma xícara de chá e abrace-a. Você pode perdê-la por um par de horas, mas ela sempre vai voltar para você. E falará como se as personagens do livro fossem reais – até porque, durante algum tempo, são mesmo.
Você tem de se declarar a ela em um balão de ar quente. Ou durante um show de rock. Ou, casualmente, na próxima vez que ela estiver doente. Ou pelo Skype.
Você vai sorrir tanto que acabará por se perguntar por que é que o seu coração ainda não explodiu e espalhou sangue por todo o peito. Vocês escreverão a história das suas vidas, terão crianças com nomes estranhos e gostos mais estranhos ainda. Ela vai apresentar os seus filhos ao Gato do Chapéu [Cat in the Hat] e a Aslam, talvez no mesmo dia. Vão atravessar juntos os invernos de suas velhices, e ela recitará Keats, num sussurro, enquanto você sacode a neve das botas.
Namore uma garota que lê porque você merece. Merece uma garota que pode te dar a vida mais colorida que você puder imaginar. Se você só puder oferecer-lhe monotonia, horas requentadas e propostas meia-boca, então estará melhor sozinho. Mas se quiser o mundo, e outros mundos além, namore uma garota que lê.
Ou, melhor ainda, namore uma garota que escreve.
Texto original: Date a girl who reads – Rosemary Urquico
Tradução e adaptação – Gabriela Ventura

Texto encontrado no site  www.livrosepessoas.com
 original do site quinasecantos.com         

   "Saudade é amar um passado que ainda não passou, É recusar um presente que nos machuca, É não ver o futuro que nos convida".

- Pablo Neruda                           

"O que você me falaria se eu dissesse que acabei de ser estuprada?"

segunda-feira, 29 de julho de 2013

A Miguel (3- só uma nota)

   Ainda te amo, e ainda te tenho dentro de mim. Acho que você é imortal, e mais que ela. Porque você é a felicidade. Acredito em você um pouco mais que em mim mesma, mas acho que ainda há talento aqui dentro de mim. Eu te amo tanto...   Gratidão. Gratidão à vida, e gratidão a ti. Um brinde seco a nós. E é só água.

De sua amada, 
sempre dona, sempre sua.

Être Nymphomane


Ne Me Quitte Pas - Maria Gadú




Linda, linda...

Papillon Noir

   Acho que as pessoas tristes são também as mais felizes. Talvez seja uma espécie de lição que a gente aprende na vida. Tentar não reclamar das coisas feias da vida, para que a morte não nos venha consumir. Pensar assim às vezes só me faz sentir bonita. Tanto triste quanto alegre, nua ou largada no chão. Às vezes eu me esqueço do outro lado do espelho. Insatisfeita com o dentro e paciente para admirar. Tudo que é incomum é belo, e desconheço o sentido de "vulgar". Por que seria um problema apenas ser? Me perco dentro de mim, como em um caldeirão sem fundo, cheio de um líquido encorpado e fervente. Como se algo vivo estivesse lá, mas sou só eu me afogando. Nada humano, nada são. E ainda sim, às vezes evaporo, solta de qualquer mentira e de qualquer verdade. Às vezes estou tão feliz que esqueço de pensar. E por isso às vezes me dizem que eu dramatizo demais. Eu sou uma criança, e um demônio (como ela). Sou a mais triste e a mais ingênua, e no final também sou a puta que alguns querem comer. Minha maldade faz parte do feitiço que vai te ensinar a me destruir. Acho que não sei quem sou. Talvez arte para alguém que não me viu. Ou é somente o que eu preciso ser (e em meus sonhos, sou). Em algum mundo eu sou feliz. Talvez do lado claro do espelho. E o sorriso desse olhar tão carregado de um brilho tão meu, que me encanta. Porque aprendi a chorar quando sangrei. E de vez em quando eu volto ao lago negro, e me lembro de como é respirar debaixo d'água. Mas sei ser feliz como ninguém. Leve como uma borboleta negra. Porque só os maus sabem voar.

Eu - Florbela Espanca

Eu 


Eu sou a  que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Eu sou a irmã do sonho, e desta sorte
Sou a crucificada... a dolorida... 

Sombra de névoa ténue e esvaecida,
E que o destino, amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...

Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou! 

                                                                               -  Florbela Espanca                                                 
"Eu sempre me fascinei com o matemático indiano Srinivasa Ramanujan. Ele dizia que para resolver seus intricados teoremas era movido apenas pela beleza das equações.
Na poesia também é assim. É uma espécie de exercício do não-dizer, mas que nos dilata de beleza quando acabamos de ler um poema."
-        Hilda Hilst                                    

sexta-feira, 26 de julho de 2013

O texto 3

   E agora, o que eu faço? Ela me perguntou. Eu não sabia o que dizer. Quem sabe o óbvio? Perguntei o que tinha acontecido.    Acho que não sei mais escrever. O que eu vou ser agora? Eu não sou nada sem os textos, e também eu não sou nada sem você. Você tá assim tão longe... Eu tô aqui. E talvez eu não estivesse mesmo. Mas o que é que eu ia dizer?
   Apesar disso, era difícil acreditar que ela pudesse simplesmente desaprender a escrever. As palavras continuam ali, sabe? Só precisam ser reorganizadas diferente. E ela ainda sabia fazer isso. Pelo menos era nisso que eu acreditava.
   Então disse que ela ainda sabia escrever. Era só continuar tentando.
   Não vai dar certo, eu sei. E você sabe. Não vai. Eu não sei mais. Eu nunca servi pra nada.
   Ela realmente não acreditou, mas voltou a escrever. E continuou me amando como sempre amou. Me disse que eu seria a sua inspiração e escreveu um texto que não a satisfez. Escreveu três. Infeliz consigo, e feliz com minha companhia. Ela suspirou e foi dormir.

  Escrito originalmente no blog MentesSingulares por mim.