domingo, 25 de maio de 2014

Eu aceito

Ignoro-te.
E tu morres em mim
Enquanto eu morro em ti.
E os nós desatam-se.

Despeço-me.
Dos teus abraços.
De tuas palavras.
Despeço-me da tua sombra.

Aceito-te em ausência não informada.
Prossigo.

Recupero a minha fala.
E a minha vida.

Mato-te.

Resgato-me.
Do escuro.
Do abandono.
E de ti.

Vou-me.
Já fui.

E compreendi.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Luzes

Fui tão fundo no meu emocional que me surgiu essa coisa. Como se o sexo fosse me salvar, limpar a minha alma. Tomei ao menos uma decisão correta e me nasceram respostas nas sinapses. Minha libido está esparramada num colchão de água, rindo feito uma louca de felicidade. É algo que eu não entendo, realmente. Eu me sinto honesta. Eu me sinto eu. E isso é verdadeiramente incomum. É tempo de me organizar, realinhar esse caos que se instalou dentro de mim. Creio que foi tudo sua culpa, mas tudo bem, eu vou superar. Eu vou superar você, e também esse meu desespero por ser aceita. Eu já fui aceita. Só preciso voltar a lidar comigo. Como eu fazia quando estava contigo. Eu existo, amor. Eu existo sem você. É bom saber. Está tudo bem.

terça-feira, 20 de maio de 2014

Desgraçado eu to morrendo

Te vejo e meus pulmões se tornam brasas. Você consegue ser pior que os meus cigarros. Você e ela... Como se fossem um. Vocês têm muito em comum. Não é à toa que... Bom. É como se eu morresse. Como se eu morresse toda vez que eu tenho que me livrar de você. É como se eu morresse todo dia. É como se eu morresse sempre eu te vejo. É como se eu morresse sempre que ela existe. O problema é que eu morro só por dentro. Eu não morro por fora, eu não posso. Ah, eu me sinto tão sozinha, querido. Eu queria que vocês morressem por mim. Isso não é justo! Eu não queria ser má. Eu não queria ser assim. Mas o mundo me devora. Vocês me corroem. Você me doi muito, amor. E eu te odeio. Eu te odeio a cada oxigênio que não entra. Eu te odeio em cada lágrima que cai. Eu te odeio em cada sorriso recíproco, e em mais tudo que sai desse lixo que você chama de amizade. Eu te odeio sempre. Eu te odeio toda hora. Eu te odeio dobrando a esquina, eu te odeio quando acordo, eu te odeio até quando como chocolate. Eu te odeio quando chove. E te odeio quando faz sol. Eu só não te odeio quando fumo meu cigarro, mas não quero me matar por sua causa. Não assim. Não quero morrer por ninguém. Quero morrer por mim. Não quero querer morrer. Demônio. Criatura maldita. Carrasco. Sádico estúpido. Morre morre morre morro morre morre. Te odeio te odeio te odeio te odeio te odeio. Você não vê o quanto eu tô sofrendo? Até os mosquitos tão me devorando. Socorro.

Saí de casa com um romance morto no bolso. Ironia da vida. No meu caminho havia um buquê de de flores de plástico.

Breve resumo sobre um maremoto

Ela chegou pra mim como se fosse um maremoto preso em dois lacinhos frágeis de titânio.
Ela era um desses fenômenos estranhos que ninguém nunca entende realmente.
Ela brigaria com você sem nenhum motivo aparente, e depois te entregaria sorrisos de uma menininha de três anos, e você perderia a razão.
Ela tinha essa coisa, que fazia os adultos gostarem dela em maioria, mesmo fazendo tudo errado, mesmo não querendo nada com ninguém.
E viria saltitando, tropeçando em quem estivesse no caminho, pra cair ali num canto, e ficar por ali mesmo.
E jogaria a fumaça de seus pulmões pretos só na cara de quem ama, só pra pessoa ficar com o seu cheiro.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Carpete

Vou fugir.
Me mandar pra tua casa,
Machucar a tua asa,
Mas te fazer rir depois.

Brincar de dominatrix mirim
Me instalar naquele quarto
E pegar aquele edredom pra mim.

Prometo que eu não ocupo espaço
Me arrumo no seu carpete
E fico bem morando por ali.

E a noite te arranho só um pouquinho
Como se fosse carinho
Como se eu fosse um gatinho
Amolando as minhas unhas em você.

Eu juro que não vou fazer barulho,
Só se você deixar
Sou uma criatura boazinha
E pelo menos contigo
Eu sei ficar no meu lugar.

Me deixa, por favor,
Eu já tô indo
Que aqui tá muito chato
Que aqui tá muito triste
Eu sei que eu vivo mais feliz se for por aí.

sábado, 17 de maio de 2014

O que vai e o que fica

Me tiraram o amor
Me tiraram minhas fodas
Me tiraram meu cigarro
Me tiraram minha dor
Me tiraram minha paz
Me tiraram minhas noites de sono

Me deixaram esse cansaço maldito
E esse ódio que paira bem no centro de mim
Me deixaram essa respiração falha
E me deixaram essa vontade de morrer

Me trancaram num quarto povoado
De coisas e de gentes que me explodem

Me deixaram uma garrafa de álcool
E umas chances de fazer tudo pior
Me deixaram uma culpa desgraçada
De tudo que faço para o meu melhor

Me deixaram uns berros
Me deixaram aos berros secos
Me deixaram sem saber pra onde ir
Me deixaram essa vontade de chorar

Mas tomaram todas as minhas lágrimas
Me tomaram meu sangue
Me tomaram meu tesão
Me tomaram até as minhas esperanças
Me engoliram a bondade
A doçura
A nobreza

Sou puta adoecida
Um cão sacrificado
Um pó que insistem em assoprar pra todo lado
Eles insistem,
Mas eu não sou ninguém
Não sou ninguém
Não sou ninguém
Não sou ninguém

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Eu faço contigo

Te chuto
Te bato
Te arranho
Te mordo
Maltrato
Te grito
Te xingo
Te aperto
Te expulso
Te afasto
Te odeio
Castigo
Te arrasto
Te nego
Te canso
Desprezo
Me zango
Te estrago
Te piso
Não ligo
Eu digo
Me corto
Machuco
Te rasgo
Te largo
E te apanho
Te tomo
Te assusto
Te choro
Tu chora
E aí me ignora
Mas não vai embora
Te falo pra ir
Se manda daqui!
Te mando pra ela
Pra tua donzela
E tu vai e volta
Feito um iô-iô
Te trato de verme
Te ponho minha culpa
A chamo de puta
Me chamo também
Me mostro também
Me jogo pra outro
Te olho
Me enojo
Que ódio
Você sempre volta
Você ri pra mim
Te coiso
Me canso
Me mato
Eu tento
Não dá
Aguento
Me irrito
Atrito
Minha pele na sua
Já tô quase nua
Na minha cabeça
Antes que eu me esqueça
Que eu me enlouqueça
Me fujo
Me sujo
De toda a frieza
Pra não ter fraqueza
De ter a franqueza
De querer você
Te empurro
Pra longe
Sem fazer mais nada
Me tombo calada
Não quero mais ser

Poesia do ódio

Te odeio quando estou doente
Te odeio quando faz calor
Te odeio quando faz frio
Te odeio no meu corredor

Te odeio na minha cama
Te odeio e a toda a gente
Te odeio quando te tenho
Te odeio irrevogavelmente

Te odeio da minha pele
Te odeio ainda na minha vida
Te odeio debaixo das minhas unhas
Te odeio com as mãos na minha barriga

Te odeio quando encho minha bexiga
Te odeio até não poder mais
Te odeio em todo colo que me nega
Te odeio porque isso não se faz

Te odeio quando acordo de manhã
Te odeio quando estou pra me deitar
Te odeio quando  você chega assim
Te odeio quando vou te visitar

Te odeio porque eu te conheci
Te odeio porque te mandei embora
Te odeio pelo tudo que eu já sei
Te odeio por não te saber agora

Te odeio toda vez que eu escrevo
Te odeio menos quando assisto frevo
Te odeio pouco quando não existe
Te odeio quando não sou pouco triste

Te odeio simples como quem não teme
Te odeio como aquela que não geme
Te odeio em teus olhos desejosos
Te odeio quando o útero não treme.

Falta norte

O cachorro foi-se embora porque preferia outra. Aliás, cachorro não. Um gato. Que gato ele era mesmo. E não era só eu que achava. E gatos sempre me esnobam. É a vida. O que é que eu ia fazer? Ele foi lá ficar com a garota. Que garota chata. Nunca fui com a cara mesmo. E nem tô falando isso por inveja, eu não ia com a cara mesmo. Uma antipatia natural. Ele foi-se lá com ela. Foi desmoronando meus castelinhos frágeis de esperança. Foi-se outro.
Uns dois onde eu já tinha depositado um pouco mais também se foram. Um deles de uma maneira terrível. Ora, mas que ódio. Foi com uma vaca sádica. Mulheres, sempre me dando problemas, não é mesmo?
E a última? Aquela pobre coitada. Só me surge com problema. Como se eu já não tivesse os meus. Já não me basta ter raiva da felicidade alheia, eu ainda me sinto culpada sempre que alguém não está feliz. Uma otária, certamente. Ou no mínimo uma tola. Tolíssima. Uma tonta incoerente.
Como se tivesse algo mais a ser feito. Mas meus pretextos são insanos. Eu só tenho esperanças quando estou só, quando transito nua pelas ruas atropeladas. Só tenho alguma paz com o meu cigarro nos lábios. Com os ouvidos trancados, com a minha veia aberta e minhas lágrimas nos olhos. Não dá pra acreditar nos seres humanos, não é mesmo? Não quando eles deixam de ser imagens para se tornar reais.
Se eu fugir eu vou acabar no mesmo lugar, dentro de mim. Se eu correr, e for atrás de alguma coisa, de alguém-coisa, eu vou acabar só. Vou voltar pro meu caminho. E todos os desvios acabam num retorno pro meu beco sem saída. Não há trepada que me salve dessa morte. Não há rebeldia que me arranque essa sorte. Não há mente sã no mundo capaz de me reorientar.
Aos estudos acabo infeliz. Aos amigos acabo tonta. Acabo acorrentada. Às sombras acabo fodida e arrebentada. Aos cigarros acabo melhor que em todos os outros estados, mas quem é que me salvaria daquela maldita dor de cabeça? Falta norte, falta norte. Se eu soubesse o que é o novo talvez pudesse me livrar de mim.