sexta-feira, 5 de novembro de 2021

Um escorpião nunca ficou calmo na vida

De repente
A rachadura na parede do meu quarto
Pareceu ter aumentado
Não sei se era algo relacionado
Ou se 
Eu só estava sensível demais
Para estar ali naquele ambiente
Naquele dia
Presente
Ali, viva
Pronta pro dia seguinte
Que de fato já tinha começado

Esses aniversariantes
Final de outubro
Início de novembro
Escorpião nunca foi um bicho simpático
Nunca quis conhecer um de perto
Mas vi uma aparição uma vez
Quando era muito pequena
Morri de medo
Prefiro morrer debaixo de um elefante.

Não gosto do que é traiçoeiro
Manipulador
Do que anda nas sombras
E vive pra sobreviver
Sempre na defensiva
Eu quero descansar.

Há certos tipos de bichos
Que precisam sentir a sua energia calma
Porque se eles sentirem a sua insegurança
Eles vão te atacar
Porque no fundo eles sabem que 
Você está sempre pronto pra atacá-los
A qualquer momento
Esses bichos
Precisam que você do lado deles
Só exista
Em paz
Mostre que as coisas vão continuar como estão
Que você mantém a sua palavra
Que é estável nas suas ações
Eu sou esse bicho.

quinta-feira, 4 de novembro de 2021

Olhos miúdos diurnos

Agora em vez de você eu tenho uma bagunça
E nessa bagunça moram traças
As traças vão devorando meus farelinhos de vida
Os últimos
Os que você me deu, e deixou pra trás
Que tirou de você pra me dar
Quando eu nunca fiz por merecer
Sem você
Eu não sei lavar potes
Eu não sei dormir à noite
Eu não sei brincar, ou conversar (não mais)
Eu não sei continuar vivendo
Querendo viver
Olhando além da janela
Enxergar um mundo através dela

terça-feira, 2 de novembro de 2021

Velório de Papel & 𝕃𝕖𝕕

Você não ouviu? 
As livrarias tão fechando.
E a gente aqui,
Escrevendo livros.
Consegue pensar num tipo mais revolucionário?
Você consegue imaginar alguém mais alienado?
No meio disso tudo,
A gente aqui,
Escrevendo livros.

Bom,
Vamos seguindo.
Vivendo,
Tentando.
Que não de espírito
Sobrevive o corpo.

sábado, 30 de outubro de 2021

Geleia magnética

Me digo um plástico, elástico
Um emborrachado alienígena
Mas racho, um cimento velho, asfalto
Me espatifo em mil pedaços,
Argila, barro, blocos deslocados,
Costurados, pendurados,
Por minhas articulações de pano

Quero fazer uma casa na água
Virar de vez um peixe
Ir morar debaixo
A gravidade doeria menos
Meus pulmões não serviriam de nada
E nadar certamente cairia bem 
Como um exercício

Porém tenho pensado,
Se não desmorono
ou deságuo
Poderia fazer um som nos meus cacos?
Será que se eu criasse alguma melodia,
Faria sentido,
Como as poesias que escuto
até que me explodam os tímpanos
Ou
Eu só faço sentido assim em silêncio 
e invisível;
Uma geleia de nada?

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

It's the little things

Os dias eram como desertos
Os lábios rachados
A gordura ia forrando um manto
Que ao secar esfarelava
Minha tempestade de areia
Uma que me afogava
E não me permitia dormir
Contava contos antigos
Sobre ter sido sereia
Na terra das águas
Mas mal me restavam pernas
Quem diria esta cauda
Que a muito havia esfarinhado
E desaparecido no ar

Habitava um buraco no meio de mim
Que me sugava as entranhas
Em minha cabeça havia essa figura
Feita somente de sal
Aguda e fria, como pimenta
Sei que não fará sentido
Mas esta era ela
Me parasitando branca
Reluzindo, lâmpada fluorescente
Enquanto os dentes afiados
no centro de meu estômago
Tentavam me devorar

Frequentemente eu me sentia
Como se fora desabar
O mundo era um carrossel que não parava
Uma roda gigante da qual eu não podia descer
E eu tinha medo de altura
(dessa vez era eu que tinha)

Vez ou outra pulava um inseto estranho
Um gafanhoto gigante
Ou neon
Uma traça-rainha-dourada
Eu olhava os humanos de longe
Com o estranhamento de nunca ter conhecido a espécie

Eu sentia como se o mundo nunca mais fosse parar de girar

O sol estava a pico
Meio dia e meia
O céu se fechou

Despencou uma tempestade
(de água)
Cheirava a alecrim

quarta-feira, 27 de outubro de 2021

Moletom Vermelho

Não sei nem como começar a descrever
As agulhadas e choques
na pequena eu
A primeira náusea
Que talvez tenha sido aí
que comecei a tentar me limpar
Os meus primeiros tracejados
Intruções de molde
Os testes sobre testes 
de resistência
As experiências
As balas, velas, cubos, objetos
Era uma tela cinética
Sinestésica,
Têxtil,
Virgem,
Inoperada.

Queria voltar no tempo
Não curtir o cheiro de sujo
Como chocolate
Nunca ter cortado aquela fita
Vermelha
Laço de inauguração
Embrulho de presente para ser rasgado
E atirado no lixo
O meu casaco

Se eu fosse nomeá-lo
Restos de etiqueta,
Recortes:
Picote aqui,
Alvejante.
Queria alvejar-me.

Escrevam na minha lápide assim:

******

segunda-feira, 25 de outubro de 2021

Três anos de pôr-do-sol

Os dias nascem,
e cessam.
Poderia ser mais um texto
sobre a banalidade dos dias
Mas não é
Este não é.

Sinto falta do farfalhar 
das folhas ao vento 
do fim da tarde
Do burburinho 
das mentes aflitas
das pessoas 
Na estação Central 
de transporte "público";

Sinto falta das pernas doloridas,
costas arqueadas,
corpo dependurado,
A coluna uma toalha molhada,
torcida e atirada, 
antes de posta no varal;
A cabeça uma âncora,
precipitando-se;
E os olhos como cortinas pesadas,
a forçar o fim 
de uma noite de espetáculo.

Sinto falta de
no queimar de meu pavio
bem no fim, antes que apagasse
encontrar um resquício de pólvora:
Ver algo brilhar na escuridão
do meu fim diário
De existir diariamente
De saber que este morrer
Esta luz e este brilho,
Trariam o profundo escuro da noite
Que me traria outro dia
E eu estaria de volta
E eu teria sempre algo novo
que incendiar. 

As nuvens caminham,
os pássaros colocam seus ovos
nos ninhos,
as mariposas copulam sobre as frutas e fazem filhos,
a terra sofre erosão e a mata queima. 
Partidos políticos mudam,
pessoas nem tanto, 
tenho um dejavu escrevendo um texto;
Se minha casa fosse meu país, 
eu estaria vivendo na guerra,
Se eu estivesse vivendo dentro da minha casa, eu estaria morando no meu país. 

O sol nasce e se põe todos os dias e faz 3 anos que eu mal consigo vê-lo.
Meu quarto tem uma janela, embora eu sempre diga que não,
Mas eu nunca a abro.
Nunca abro as cortinas, e mal tenho estado de olhos abertos quando há luz no céu.
Que tanto o faça.

Os dias nascem e cessam em mim.
E isso basta.

domingo, 24 de outubro de 2021

Joints

He puts me in a cage
And I know
That I shouldn't stay
But 
Damn
It feels so cozy
Damn
And it fits so well
Think: it should feel like hell
But,
Now I live in there
Moved in by free will

And then I realize
I welded by myself
I begged to come in
Yelled at him to lock me in
And threatened him into hurt
So I'd get him scared
And he would rage me out
And I'd get messed up
And blame on him back

Say he locked me in
A cage
And
Wouldn't let me out
But
I didn't wanna' out
I wanted inside him
Slipping between his guts
Scratching it with my plans

Not sure if
The cage was to protect him
From my appetite
Or if that was he
Who was in the cage all along

sábado, 23 de outubro de 2021

Texto Sem Título

Faço em mim
uma salada doce
que arde fria
Porque sou um banquete vermelho
Servido sem prato
Sobre a toalha limpa
sem talheres
Mas com guardanapo
de trapo
azul celeste;
(àspero)

Poderia depois 
de fabricar aroma
e desvendar mistério
pela metade
(sobre escape de confeito
                           irreversível)
Deixar que findasse um branco
Um simples
Um glacê flavorizado
Raspas de limão
Receita da tia

Mas em todo branco
Há um
Há vários
Em todo silêncio
Em tudo que ninguém nunca pensou
Que um dia poderia ser dito
E ninguém disse
Em todos que nunca puderam ser nada
Se não um sopro
Uma gota
Um tropeço na batida do peito
Antes de
Nada mudar;

isso

E eu não sei dar nome a isso
E isso não tem hora
Apenas é
O tempo todo é
E é
E é
E é.