terça-feira, 14 de dezembro de 2021

Tempo de Vida Útil

Todos os dias eu acordo
Às sete e meia da manhã
Às sete e quinze
Às sete e quarenta e cinco
Às sete e vinte e sete
Eu tenho sonhos estranhos
Sonhos comigo mesma
Com amigos que nunca tive
Com pessoas que nunca vi
Lugares em que nunca estive
Ou pessoas conhecidas
Com as quais nunca fiz questão de sonhar
Sinto que avancei no tempo
Temo envelhecer
Pois minha vida está passando
E perdi 4 anos em segundos sem sentir
Eu estava deslocada no tempo
Ainda não havia passado para mim
E de repente, 
Assim,
Passou
Tudo de uma vez.
E percebi que agora eu já sou outra
Com outras desvontades
Com outros desgostos
Com outras decepções
Com outras concepções
E outros ideais

Não quero dormir à noite
Temo que não haja tempo
Que eu envelheça antes de achar o caminho
De volta pro meu caminho
Ontem dormi de exausta
Tenho sentido muita fome
Pois passo tempo demais acordada
Acho que é por isso,
Não sei dizer
Pode ser o medo
Às vezes também fujo de comer
Não sei explicar essa parte
;
Temo que ao acordar amanhã,
Às sete e meia da manhã
Já tenha passado muitos anos,
Anos demais,
E que eu não possa mais fazer nada
Para me ajudar
;
Ou quando chega a manhã,
Temo que acorde muy tarde
Tarde da tarde
No fim do dia
Com o sol se pondo
E minha vida findando
Sem ter vivido nada,
Sem ter tido um pingo de alegria.

Acordo em sobressalto
Olhos pesados
Hipervigilante
Estômago aflito
Como passasse semanas vazio
Vá fazer algo
Sobreviva
Tento provar pra mim que está tudo bem
Que tudo bem descansar mais um pouco
Que eu preciso desses minutos de sono
Mas de nada adianta
Às oito e vinte 
Inevitavelmente
Estou acordada,
Gastando minha bateria

segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

Territorial

I'm like an animal
spraying my urea scent 
over the nest
to mark my space
to recognize
They say I'm supposed to
search for a
grounding stimulation
But any sort of perfume
takes me to fantasy land
And Wonder is a mazespace I can't afford

So I smell my skin;
my sweat drops,
the critical vinegar 
seasoning my armpits;
I smell my hair,
a wild mess, forgotten for days
wishout a wash or brush,
beggin for care, but still 
quite happy to just be 
(and just be alive);
and yet,

All of this,
what,
You may imagine
as a terrible experience;
My misery of being,
The crudity of humanity, that
ends up being animality;

Proves me:
, like no other thing,
no one,
and no other movement
neither activity could,
That I am alive

I Live
And I can only feel
Because I feel myself
The reality is only real
Because I am real
Because I feel myself
Today is only today
Because I am real
And then I feel today
And then 
I am alive again
And I can live again

sexta-feira, 5 de novembro de 2021

Um escorpião nunca ficou calmo na vida

De repente
A rachadura na parede do meu quarto
Pareceu ter aumentado
Não sei se era algo relacionado
Ou se 
Eu só estava sensível demais
Para estar ali naquele ambiente
Naquele dia
Presente
Ali, viva
Pronta pro dia seguinte
Que de fato já tinha começado

Esses aniversariantes
Final de outubro
Início de novembro
Escorpião nunca foi um bicho simpático
Nunca quis conhecer um de perto
Mas vi uma aparição uma vez
Quando era muito pequena
Morri de medo
Prefiro morrer debaixo de um elefante.

Não gosto do que é traiçoeiro
Manipulador
Do que anda nas sombras
E vive pra sobreviver
Sempre na defensiva
Eu quero descansar.

Há certos tipos de bichos
Que precisam sentir a sua energia calma
Porque se eles sentirem a sua insegurança
Eles vão te atacar
Porque no fundo eles sabem que 
Você está sempre pronto pra atacá-los
A qualquer momento
Esses bichos
Precisam que você do lado deles
Só exista
Em paz
Mostre que as coisas vão continuar como estão
Que você mantém a sua palavra
Que é estável nas suas ações
Eu sou esse bicho.

quinta-feira, 4 de novembro de 2021

Olhos miúdos diurnos

Agora em vez de você eu tenho uma bagunça
E nessa bagunça moram traças
As traças vão devorando meus farelinhos de vida
Os últimos
Os que você me deu, e deixou pra trás
Que tirou de você pra me dar
Quando eu nunca fiz por merecer
Sem você
Eu não sei lavar potes
Eu não sei dormir à noite
Eu não sei brincar, ou conversar (não mais)
Eu não sei continuar vivendo
Querendo viver
Olhando além da janela
Enxergar um mundo através dela

terça-feira, 2 de novembro de 2021

Velório de Papel & 𝕃𝕖𝕕

Você não ouviu? 
As livrarias tão fechando.
E a gente aqui,
Escrevendo livros.
Consegue pensar num tipo mais revolucionário?
Você consegue imaginar alguém mais alienado?
No meio disso tudo,
A gente aqui,
Escrevendo livros.

Bom,
Vamos seguindo.
Vivendo,
Tentando.
Que não de espírito
Sobrevive o corpo.

sábado, 30 de outubro de 2021

Geleia magnética

Me digo um plástico, elástico
Um emborrachado alienígena
Mas racho, um cimento velho, asfalto
Me espatifo em mil pedaços,
Argila, barro, blocos deslocados,
Costurados, pendurados,
Por minhas articulações de pano

Quero fazer uma casa na água
Virar de vez um peixe
Ir morar debaixo
A gravidade doeria menos
Meus pulmões não serviriam de nada
E nadar certamente cairia bem 
Como um exercício

Porém tenho pensado,
Se não desmorono
ou deságuo
Poderia fazer um som nos meus cacos?
Será que se eu criasse alguma melodia,
Faria sentido,
Como as poesias que escuto
até que me explodam os tímpanos
Ou
Eu só faço sentido assim em silêncio 
e invisível;
Uma geleia de nada?

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

It's the little things

Os dias eram como desertos
Os lábios rachados
A gordura ia forrando um manto
Que ao secar esfarelava
Minha tempestade de areia
Uma que me afogava
E não me permitia dormir
Contava contos antigos
Sobre ter sido sereia
Na terra das águas
Mas mal me restavam pernas
Quem diria esta cauda
Que a muito havia esfarinhado
E desaparecido no ar

Habitava um buraco no meio de mim
Que me sugava as entranhas
Em minha cabeça havia essa figura
Feita somente de sal
Aguda e fria, como pimenta
Sei que não fará sentido
Mas esta era ela
Me parasitando branca
Reluzindo, lâmpada fluorescente
Enquanto os dentes afiados
no centro de meu estômago
Tentavam me devorar

Frequentemente eu me sentia
Como se fora desabar
O mundo era um carrossel que não parava
Uma roda gigante da qual eu não podia descer
E eu tinha medo de altura
(dessa vez era eu que tinha)

Vez ou outra pulava um inseto estranho
Um gafanhoto gigante
Ou neon
Uma traça-rainha-dourada
Eu olhava os humanos de longe
Com o estranhamento de nunca ter conhecido a espécie

Eu sentia como se o mundo nunca mais fosse parar de girar

O sol estava a pico
Meio dia e meia
O céu se fechou

Despencou uma tempestade
(de água)
Cheirava a alecrim

quarta-feira, 27 de outubro de 2021

Moletom Vermelho

Não sei nem como começar a descrever
As agulhadas e choques
na pequena eu
A primeira náusea
Que talvez tenha sido aí
que comecei a tentar me limpar
Os meus primeiros tracejados
Intruções de molde
Os testes sobre testes 
de resistência
As experiências
As balas, velas, cubos, objetos
Era uma tela cinética
Sinestésica,
Têxtil,
Virgem,
Inoperada.

Queria voltar no tempo
Não curtir o cheiro de sujo
Como chocolate
Nunca ter cortado aquela fita
Vermelha
Laço de inauguração
Embrulho de presente para ser rasgado
E atirado no lixo
O meu casaco

Se eu fosse nomeá-lo
Restos de etiqueta,
Recortes:
Picote aqui,
Alvejante.
Queria alvejar-me.

Escrevam na minha lápide assim:

******

segunda-feira, 25 de outubro de 2021

Três anos de pôr-do-sol

Os dias nascem,
e cessam.
Poderia ser mais um texto
sobre a banalidade dos dias
Mas não é
Este não é.

Sinto falta do farfalhar 
das folhas ao vento 
do fim da tarde
Do burburinho 
das mentes aflitas
das pessoas 
Na estação Central 
de transporte "público";

Sinto falta das pernas doloridas,
costas arqueadas,
corpo dependurado,
A coluna uma toalha molhada,
torcida e atirada, 
antes de posta no varal;
A cabeça uma âncora,
precipitando-se;
E os olhos como cortinas pesadas,
a forçar o fim 
de uma noite de espetáculo.

Sinto falta de
no queimar de meu pavio
bem no fim, antes que apagasse
encontrar um resquício de pólvora:
Ver algo brilhar na escuridão
do meu fim diário
De existir diariamente
De saber que este morrer
Esta luz e este brilho,
Trariam o profundo escuro da noite
Que me traria outro dia
E eu estaria de volta
E eu teria sempre algo novo
que incendiar. 

As nuvens caminham,
os pássaros colocam seus ovos
nos ninhos,
as mariposas copulam sobre as frutas e fazem filhos,
a terra sofre erosão e a mata queima. 
Partidos políticos mudam,
pessoas nem tanto, 
tenho um dejavu escrevendo um texto;
Se minha casa fosse meu país, 
eu estaria vivendo na guerra,
Se eu estivesse vivendo dentro da minha casa, eu estaria morando no meu país. 

O sol nasce e se põe todos os dias e faz 3 anos que eu mal consigo vê-lo.
Meu quarto tem uma janela, embora eu sempre diga que não,
Mas eu nunca a abro.
Nunca abro as cortinas, e mal tenho estado de olhos abertos quando há luz no céu.
Que tanto o faça.

Os dias nascem e cessam em mim.
E isso basta.