Abro as minhas pernas
Para quem quiser primeiro
Os goles gelados descem
Tornando meus órgãos
Um lindo casaco aveludado
Coberta de infância
Onde se goza rindo a violência
Os gritos e os pneus derrapados
As unhas fincadas nos fios
As entranhas de cimento
Carimbadas rosa na testa
Bebo de seus lábios
Meu pseudo cônjuge
Meu hóspede distante
A voz de alguém que conheço
Escorrendo de minha menina
Um clone delicioso
Uma cama dizendo meu nome
E me acolhendo nos braços
Tomando-me os joelhos quentes
E os olhos pesados
Me desmancho no enrolar da sua língua
Quero estar contigo
Uma única companhia
À deriva comigo
No olho do furacão
sábado, 25 de maio de 2019
25 de maio
segunda-feira, 20 de maio de 2019
segunda-feira, 13 de maio de 2019
Tu, depois você
Eu procuro nossos dois livros
E seu blog, para ler novos poemas
Procuro versos teus, reclamações
Soltas pelo meu caminho
Procuro a tua voz
No meio da tarde
Você sabe que meus dias viram noites
E estou em plena madrugada
Acordo insone às três da tarde
E quando estou prestes a chorar
Penso em você
E quando estou prestes a morrer
Busco você
Pelos meus textos, pelo meu corpo
Do que ele ainda lembra,
Os cabelos negros molhados,
Pesando nos meus olhos
Aquele abraço infinitamente quente,
Gigantesco,
Como abraçar um ser sobrenatural,
Os pés qual grossas pilastras,
Me fazendo sentir pequena,
Ausente,
Teu peso exausto sobre mim.
Eu te disse que ainda te amava,
Que tu era uma outra metade, gêmeo
Uma reprodução deturpada
De tudo que conheço sobre mim
Eu te disse que preferia morrer
A ouvir teus lábios
Mas mentia, pois preferia morrer
A qualquer coisa,
Exceto a ouvir teus lábios
Dizendo que me ama também.
E tu me disse, como sempre espero
E tu riu de meus comentários bobos,
Falhos, coxos, vis,
Você riu de minha insanidade
Como eu tivesse carisma
Como realmente enxergasse algo
Por detrás de meus ossos esfarelados;
Mais uma vez eu te disse coisas
De que me arrependi.
E foi sublime ouvir os teus sorrisos
Teu suor no rosto, a tinta respingada,
E te busco cega, pra tentar resgatar
Aqueles enormes 5 minutos.
Eu não escrevo mais textos,
Sigo calada,
Tento buscar nos teus
Algo que me comunique
Que me manifeste
Que prove a minha existência fúnebre
Se te amo e te sou, em certa parte,
Não há matrimônio ou prole,
Não há futuro,
Eu só preciso sobreviver.
quinta-feira, 25 de abril de 2019
Tutano
Eu sou
Sempre serei
Este vazio violentado
Esta falta de amor
Congênita
E a insaciável
Ânsia
De existir
Ou deixar de.
O que me foi tirado,
Qual lacre rompido
De ingenuidade, infância;
O que me foi negado,
E pago
Com suor e notas
Contaminadas,
Jamais pode ser
Preenchido.
Minha fome,
Minha miséria intrínseca
São algo mais que um fardo:
Degeneração pungente.
O retrato de minha morte,
Meu epílogo.
No oco espaço
Que preenche meus ossos,
Ecoa um lamento agudo,
Vitimado.
O primeiro fôlego
De quando me pari.
domingo, 14 de abril de 2019
Rachel
Fecho meus olhos e lábios
Para escrever este texto
Escondo meus muito poucos
Fios brancos
Roubo um vestido solto
Mastigado
Calço meu chinelo e alça
E choro
Minhas lágrimas de silêncio
Uma frequência fina
Que reluz
Dentro de meu crânio denso
Perfurado
Um ser recém-chegado no mundo
Redescobrindo-se
Completamente só
Afásico
sexta-feira, 22 de março de 2019
Gato Preto
Eu me arrepio num salto
Ela não percebe
Meus pensamentos depravados
Estão em todas as paredes
Escorrem verdes e lúcidos
Gritam, qual chamadas de prostíbulos
Em tom neon psicotóxico
E se não tenho as mãos ocupadas
Afogando-me na mediocridade humana
Quase que me deixo escorregar
Topar a quina do dedo
No quebra-molas
Deixar passar
Que sigo sempre alcoolizada
Enquanto manejo o volante
Que está muito mais cravada em mim
Essa ideia introjetada
Essa essência crua e vil
A identidade que todos me negaram
E da qual se mantiveram escondidos
Que sou eu
O exato extrato
Da substância que me querem que ceda
E que se faça o soro
Para me curar.
Enigma
Must be fed
But it feeds with poison
And I wish to live
There's a whole bible
Of nude, crude truths
I must not tell you
I scout you from above
I scan you, and confirm
You're not tough enough
And I'm too sick to teach
I'm a very difficult dillema
An unsovable one.
Neither of them can live
For my appetite is wide and lasting
And each one carries a piece
Of the same wish
To finally finish the others
Then, conqueer my soul.
quarta-feira, 20 de março de 2019
Noite
intoxicados e transtornados,
invadidos por algum monstro bêbado que puxei pra perto;
As mãos me violando as roupas íntimas,
o hematoma nascendo nos seios
e as unhas sujas, mal cortadas
tentando me partir em duas por dentro da calcinha
amarelada de urina
do banheiro sem papel ou sabonete
com cheiro de vodca vomitada;
Meus cabelos lacerados,
ímpeto destrutivo:
nunca vou me torná-la;
Maquiagem borrada, suada, falha,
batom desbotado dos copos, marcados, latas,
bordas vermelhas, pisoteadas no chão, lameado;
Ponto circular corroído na saia emprestada,
do décimo cigarro da noite,
isqueiro dentro do maço, maço na mão,
pulmões comprometidos;
Pés estraçalhados,
dedos moídos,
garganta seca, voz danificada,
sentada na escada,
num canto qualquer, sentindo uma brecha,
uma brisa, um pedaço de lua,
uma tristeza profunda,
um desespero surreal.
Peter
Tudo nessa vida se faz correndo
Abandonar os sonhos
Derrubar os prédios
Abonar as (dí)vidas
Esfriar o sangue do preto sem nome
Rasgar o portão da moleira
Chutar a última cadeira
Costurar a gêmea perdida
Arrebentá-la novamente
Fugir do lar
Do leite do peito materno
Raspar o útero
Foder mais uma em coma
Imitá-la
Procurar uma artéria
Descascar a ferrugem
Do brinquedo em defeito
Vestir-se, despir-se
Matar o propósito
Engolir o suor
Dos acorrentados
Demolir os pés
Arrastar-se nos cacos
Pedir socorro e ser ignorado
Pulsar o sangue no órgão
Interromper-se
Natimorto
Na mesa de cirurgia
quinta-feira, 14 de março de 2019
Pavio
Sei que estou morrendo.
Sinto se esvaírem minhas forças
e a realidade fugindo de mim.
Me esqueço de quem sou,
Penso que talvez nunca tenha sido.
Decido pedir ajuda,
Prometendo a mim mesma
que essa vai ser a última vez.
Espero que não seja.
Assim, eu sei
que ainda estarei aqui.
Não sei o que me mantém,
Se é o medo da morte
ou a culpa
dos que deixarei.
Se são os assuntos pendentes
ou o amor que sinto
e ainda não terminou de queimar.
Sei que estou queimando,
Sei que estou morrendo.
Decidi acender a vela de meu velório,
já faz nove anos.
Ainda estou aqui.