sábado, 18 de outubro de 2025

Devolver ao Remetente

Não escrevo para ser ouvida,
Não mais.
Escrevo para
Fazer-me companhia;
A única que eu poderia
Vir a ter, eu concluí.

Não tenho amigos,
Não sei se um dia os tive;
Passo meus dias contando
Regressivamente,
Despedindo-me 
Do que ainda não foi. 

A dor passeia pelo meu corpo
Fazendo estrago,
Como um visitante indesejado,
Como uma criança sem supervisão;
Vasos, copos, pratos,
O controle remoto e a prataria,
Meus tesouros, minha paciência,
Minha energia;
Tudo em vão.

Um dia eu tentei aceitar visitas,
Eu era uma anfitriã (quase) perfeita,
Gastava o que não tinha,
Ouvia sem tímpanos, 
Sustentava o peso do tempo
Em meus dois pés,
Por tanto quanto fosse preciso.

Um dia eu acreditei
Que um dia teria
Algo oposto ao vazio que sinto
Todos os dias
Desde que acordo, 
Até nunca mais.

Quando a casca do ovo se quebrou
E nasceu de mim uma verdade;
Um preto no branco 
Escancarado
Frente aos meus olhos;
O soco que levei,
E que me deitei ao chão para sentir
Com propriedade;
Eu descobri que
Seria assim,
E desde então
Escrevo todas as cartas
Apenas para mim.

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

Prenúncio

Ele me bate
Como se eu fosse um tambor;
Uma mão tenta me apagar,
A outra cava mais fundo;
Eu me percebo a esmo;

O mar me leva e me joga na areia;
Eu sinto falta do cheiro de sal
E do gosto de ferro;
O teto ameaça demolição;
A ferrugem corroi tudo;

Eu bebo água como um peixe,
Mas não respiro melhor;
Não sei se é falta ou excesso,
Mas não passo no teste;
E o disco arranha,
Fazendo saltar a agulha;

O deslizamento é brutal;
As vidas são contadas;
Quem sobrevive
Num mundo em desmoronamento?

Uma bala para salivar,
Outra garrafa de um litro e meio;
O fígado estaciona em fila dupla;
Apetite deixa a desejar;

No compasso desse fim profético,
As marés oscilam, 
Sem conhecer a lua;
E dentro do breu de meus olhos,
Eu tento com toda a força 
Escutar o silêncio.

terça-feira, 7 de outubro de 2025

Passé Composé

Não é um poema, é um medo,
É um disfarce muito atento,
Que odeio e que não lembro,
Um segredo e quem eu desejava ser;

Não é um poema, é um trauma,
Quando estive em mãos erradas,
Quando nem me procurava,
E nem me sabia ver;

Não é um pedido, é uma carta
Para mim e para ela,
Que bem antes da aquarela,
Me mostrou o que eu viria a esquecer;

Não é um poema, é um dardo,
Um diário e um retrato,
Como um mapa perfurado,
Que não sei onde já fui;

Não é um desejo, é história,
Que me escapa da memória,
Que escrevi pelos meus braços
Que o sol me apagou;

Não é um poema, nunca foi,
Nunca seria,
Escrevi o que sentia, 
Porque não tinha ninguém pra escutar;

E afinal, 
Mesmo não sendo um poema,
Eu leio e te amo inteira,
Cabo a rabo, ponto e traço,
E te conheço aos poucos,
Um livro infinito, meu favorito,
O mais bonito, 
E o único capaz de me compreender.

segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Anonimato

Quem era você, menina?
Que se derretia
Por poemas escritos
E ditos 
Da boca pra fora
O quão vazia era,
Quão desesperada?
Do que precisava?
Pra se colocar nesses lugares
Como eu te salvaria,
Se um dia te encontrasse,

O que posso te dar, se ainda vive?

O quão ingênua e sábia,
Quão entregue a nada
Que não te notavam
E não notariam,
Onde você estava?
Por trás de todo o circo
Que aprendeu a armar?

Como se chamava?
Tinha casa?
Tinha rosto, gosto, cauda?
Eu lembro do eco distante
Do som da voz dos outros,
Da vibração aflitiva
De tentarem contato, e frustrados
Não constatarem, que,
Como você, 
Falavam com o abismo;

Você segurava um espelho;
Usava tintas,
Usava trajes,
Fazia gestos,
Que desconcentrassem,
Um espetáculo gratuito,
Voz de sereia, 
Fritando no asfalto;

Eu morro de medo de descobrir a verdade;

Eu tento te buscar
Nos meus sonhos;
Nos cheiros que sinto,
Nos petiscos e fotos antigas,
Eu tento te buscar debaixo d'água,
No escuro da noite,
E nas bolhas do sol;

Quem era você, afinal?

Você sequer sabia?
Que tinha nome,
Que tinha casa,
Que tinha gosto e cheiro,
Que tinha cores,
E que quando as cortinas se abriam
A plateia era imensa
Ávida por tuas luzes de prata;

Você ainda se lembra,
Que nasceu um dia,
Antes de sentir o mundo todo
Na ponta dos dedos?
Você se lembra de aprender a andar,
De balbuciar, 
De não ser alguém,
Antes de escolher não ser ninguém?

Queria poder um dia
Te reconhecer,
Ouvir teus passos inquietos,
Sentir teu olhar sedento,
A chama consumindo tua pele,
Mas você sumiu no vento
E no meu vazio eu penso
Que talvez
Você nunca tenha existido.

segunda-feira, 22 de setembro de 2025

As luvas e o leque

Eu perdoo teus pecados,
Os fantasmas do meu lado,
E o glitter que você me deixou
Pra respirar.

Perdoo as bombas-relógio,
O passado na gaveta,
Os sacos sem etiqueta,
A sujeira e os papeis
Que você deixou pras traças;
As desgraças, a perda óssea
E o tempo que você me gastou,
Que não valeu a pena no fim,
Mas eu te perdoo mesmo assim.

Eu te amei, e a mais ninguém
De tal maneira,
Fiz teus caprichos, cumpri ordens
Uma vontade de "deus",
Obedeci aos outros e 
A comandos insanos,
Para te satisfazer,
E você não esteve satisfeita,
Mas eu te amei mesmo assim.
E tava bom pra mim.

Eu perdoo os quilos acumulados
De objetos amontoados no canto,
Foram tantas promessas e no entanto;
Eu acabei me deslocando de você.
Foi sem querer;
Eu estava tentando salvar a sua vida,
Me parecia a única saída,
E agora você se foi.
Eu acho que se foi.

De todos os crimes que 
Cometemos juntas,
Se causei a sua morte,
Eu espero que não,
Seria o único que me condenaria;
"Mariana, 
o que você faz aí parada?",
Você ainda vive?
Te escrevo esta carta,
Mais uma,
Na esperança que você volte pra mim,
Mesmo que eu esteja melhor assim.

Resistência

Meus fios loiros refletem
Um passado distante
Alienígena, anônimo;
Eu tento conectá-los;
Descobri que somos baterias;
Certamente queimei a resistência.

Eu tento te pintar,
Pra dar cor e nome;
Tento emoldurar
E por na minha bolsa;
Eu quero dizer que te amo,
Quero que você se lembre de mim;
O eco fraco da tua memória
Me perturba.

Eu não sei como escrever versos,
Como transmitir o que doi
E a beleza
De pensar sobre você,
Sem te conhecer;
O vazio que tento alimentar
Com diversos pratos
Que tenho anotado, mas nada pretende
Te trazer de volta,
Te trazer pra mim.

Eu listo todos os seus feitos
Seus defeitos,
Suas mortes,
Suas artes,
Listo teus conhecidos, tuas histórias;
O que você consumia 
E o que criava em resposta,
E me parece tão lindo
O teu existir;
Tudo que você tentava esconder
E tudo do que tentava fugir;
Eu tenho inveja.
É como poder assistir 
Um filme pela primeira vez.

O primeiro amor, o primeiro beijo,
O primeiro orgasmo,
A primeira colher de brigadeiro,
O primeiro banho de mar.
Eu tento descobrir
Qual era a temperatura do teu sol
E a densidade da chuva
Sob a qual andava de bicicleta;
Seus pesadelos,
Seus buracos,
E seus recheios.

À noite,
Eu te chamo baixinho
Antes de fechar meus olhos,
Acho que você sabia algum segredo
Que guardou de mim.
E na época não parecia,
Mas agora soa muito importante;
Caso de vida ou morte,
Se é que isso ainda faz sentido,
Se é que eu sei a diferença.

Eu desisti
De me despedir,
Por favor, volta.
Eu te trato melhor, 
Eu te dou presentes,
Eu te salvo da beira do abismo,
É diferente agora,
Agora eu te amo. 
Você me ensinou isso.
Muito obrigada.
Mas, quando você foi embora
A saudade doeu demais.
E tudo bem doer, mas
Eu preferia você aqui.

sábado, 13 de setembro de 2025

Cópias Térmicas

Quero dizer-lhes que não me procurem
Não por desejá-los, ou que o faça
Não por não me desejarem,
Mas por fazerem-no
Estou tão farta de fazer-me desejável
Tão esgotada
Espero mentiras,
Decepções,
Contratos que perderam o prazo,
Traças em meus envelopes;
Não posso dizer
Que meus pulmões estão 
Mais solitários que nunca
Porque estiveram piores
E a dor não doer, não é mais
O que eu respiro quando a lua some.

Estou cansada dos meus resquícios
Estagnando-se memórias
Nas caixas de quem nunca soube meu nome,
De quem nunca ouviu a minha voz;
Eu quero mais que isso,
Eu quero companhia,
Eu quero um colo,
Eu quero o cheiro do meio
Do peito,
De algum batendo
Ao me ouvir cantar,
A me fazer sorrir.

Não quero um holofote,
Reconhecimentos,
Sucesso. 
Quero grama molhada
E um pet que não me rejeite;
Quero sentir conforto,
Segurança,
O amor escasso 
De qualquer fonte;
Eu passo fome,
Eu sufoco, desidrato,
Me desmancho nos rejuntes
E não tenho por onde fugir;
Não mais.

Ela me pergunta
O que eu olho em frente
O que eu desenho, crio
O que sai do meu parto
Quando eu examino,
E eu tento respondê-la
Que sempre foi a mesma coisa
A uma coisa
A única,
Que eu sempre quis.

Eu quero avisá-los
Que cada contato
Me corroi aos poucos,
Que esse desejar me arruína,
Que um buraco negro 
Me come por dentro
E não preciso alimentá-lo ainda mais.

Quero ter a quem dizer
Que não tenho o que dizer
Que não tenho ninguém
E que não me tenho também;
Estou sempre só.
Mas também não gosto de receber visitas.

terça-feira, 2 de setembro de 2025