domingo, 28 de dezembro de 2014

Hoje, amor

Se eu digo que te amo hoje, perceba, eu não tenho nenhuma pretensão de amar-te amanhã.
Espero, sim, permanecer no teu passado, como estou hoje no teu presente. Se digo que te amo.
Mas se quiseres atear fogo a toda carta escrita e todo amor despejado, esteja livre para tal feito.
Meu amor não tem a arrogância de almejar a eternidade nem de planejar futuros. Não me imagino ao teu lado.
Desejo, hoje, acompanhar-te, se necessário for. Se doerem teus pés, quanto tu dobrares a esquina. Se te faltarem versos que resgatem tua alma do corpo.
Não é preciso aceitar-me, ou idolatrar meus cantos.
Apenas dê-me uma corda que sirva para te puxar do mar.
Apenas me ouça se eu sussurrar que te amo, hoje.

sábado, 27 de dezembro de 2014

24 x 6

Eu e você,
Somos como o Natal e o Ano Novo.
Sempre separados pelo mesmo tempo e pelo mesmo espaço.
Sempre nos mesmos lugares, e sempre associados.
Unidos e afastados pelos infinitos seis dias,
Tão vazios quanto se pode ser em tal localização cronológica.
As duas importâncias do fim do ano.
Eu sou o passado e você o futuro.
E o presente que nos une é o mesmo que nos desentende.
Eu sou a tradição e você a mudança.
Sempre corro pra te alcançar,
E abraço os meus valores adotados,
Que os antepassados sóbrios me deixaram de herança.
Eu sou o conformismo e você a indignação.
Estamos sempre tão perto, porém tão distantes.
Sempre desbotados por essa semana quieta de pura solidão.
Há 144 horas vazias entre eu e você.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Solidão amena

Há certos tipos de casas que dialogam comigo. Como se eu pertencesse mais a elas do que à minha própria casa, que já não é minha devido ao excesso de tempo em que permaneço nela.
A cada ano eu pertenço menos a cada uma delas, e em breve não pertencerei mais a lugar algum, senão a essa solidão interminável.
E isso vale para todos os corpos em que me abriguei, todas as paisagens, todos os bancos, toda as sombras, e todos os sons que já me foram lar.
Passo a passo eu vou me desfazendo em cada canto de pássaro, e de cômodo, até que não pertença aos meus próprios joelhos, aos meus próprios quadris, e aos meus próprios pulmões.
Daqui a pouco eu vou embora de vez. Sem casa, sem companhia, sem identidade.

Ladrão descoordenado

Arrancaram todas
As cordas do meu piano
Branco.

E agora,
Toda vez que alguém me toca
Permanece
Um silêncio incurável.

E se me apertam
A tecla preferida,
Aquela com um arranhão no canto,
Não sai dó
Nem lá
Nem sol.

Agora, todo o som
Escandaloso
E desgraçado
Que eu fazia
Quando alguém descompassado
Me curtia
Soa como um baque surdo.

Uma melodia estapafúrdia,
Sem dança,
Sem gente
E sem batida.

Restou apenas
Um punhado de
Brancas e
Pretas
Que cedem
A qualquer dedo,
Sem nenhuma manifestação.

Toda música que eu tinha
Foi-se com o ladrão,
Que me levou três cordas
E me arrebentou o resto
Só por vandalismo.

Se alguém o vir,
Deixe que vá.
Mas ao menos me arrume
Um barbante,
Pra pôr no lugar.

E arrumar o
Ré, o
Mi, e o
Fá.

Porque o Si do canto,
Ninguém toca mais,
E todos acham que ela
Não vai funcionar.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Reencontro nº4

Me explica
Por que eu sempre choro quando leio aquela carta
E quando vejo aquela sua foto,
E por que eu não aguento mais reler aquele texto.
As camomilas.
Empalideceram todas até ficarem azuis.

Espero que ainda dê tempo de eu ser a sua musa.
Você se lembra?

Quando eu comecei a te amar, ainda era cedo.
Desde então, o tempo deixou de perpetuar-se.
O tempo tornou-se você.

Todo novembro a estação muda.
Todo janeiro somos eu e você, de novo.
E se nos desencontramos ao meio de todo ano,
Somos ainda duas metades da mesma coisa.

Em toda humanidade,
Ou animalidade, que seja.
Em toda incoerência nossa,
Que entra em sintonia sem nos alertar.

Ainda glorifico a sua insubordinação emoldurada.
Ainda compreendo toda inocência que te assombra.
Percebo que, ambos percorremos em mesma escala
A trilha maldita da vida.

Eu ainda te amo
E ainda nos entendemos
Mesmo que a verdade já não seja dita.

Apavoro a ideia da sua partida.
Te busco desesperada,
E você permanece aqui.
Muda o tom de voz,
A cor do cabelo,
E a maneira como se move ao andar.

Se disfarça pra me confundir,
Mas te reconheço no reflexo do espelho.
E se é fundamental me desesperar todas as vezes,
Eu irei.
Porque te amo todos os dias,
Irredutivelmente,
Desde que me apaixonei pela primeira vez.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Migalhas

A minha decência é medíocre,
Assim como toda iniciativa que parte de mim.
Não me peça grandes feitos, conquistas, reconhecimento.
Não aspiro a magnificência.
Se desejo a esquina, vou à esquina e é isso.
Sem guerra, sem festa, sem lenda.
Meu espírito é medíocre.
E se alguma singularidade brota em mim,
Culpo a escrita.
Não mais que uma enorme farsa,
Ela alimenta a minha miserável ânsia de me alimentar.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

como eu me apaixono

Aparece um homem com uma arma. 
E ele me diz "você tem cinco minutos para fugir".
Eu prontamente dou um um passo à frente e digo "atire".
Ele me responde, sério "você ainda tem quatro minutos". 

E eu espero.
E quando o minuto número cinco chega, ele atira. 

Eu agradeço e ainda comento "que bom".