domingo, 28 de julho de 2019

Aborto

Você tem tentado me matar
Eu não sei qual foi o meu crime
Mas dia após dia
Sentença atrás de sentença
Você chega um pouco mais perto de conseguir.

Por você eu destruí minha pele
Marquei meu código de barras
1,99
Mercadoria de plástico
Eu aumentei meu peso
Larguei meus dentes de lado
Estou envenenando meus órgãos
Para nunca ser bonita ou viva
Como você gostaria de ser

Eu tranquei os meus fios de cabelo
Para que minha personalidade
Não os alcançasse
Para que não fosse confiante
Por mais nem um segundo
Porque te machucava
Eu ter a coragem
Que você nunca teve

Você, que desistiu de todos os teus sonhos
Ao longo de toda uma vida
Que me escolheu ter
Num plano perecível de casamento
Numa vida que eu, como você
Não escolhi perder

Um dia você me disse
Que eu te culparia pelo que fizesse
Eu prometi que não
E hoje sei que nem é preciso
Você se culpa desde antes de eu nascer
Mas quebro minha promessa
Porque tenho mágoa
Rancor e raiva
De como é tudo sempre sobre o teu ponto de vista
Sempre fingindo que é tudo sobre mim
Quando no fundo é sempre sobre você.

Faz tempo que não tenho que me calar
Ter tantas feridas abertas ao mesmo tempo
E ter que suportar, como gente grande
Com silêncio de vítima, maturidade
Faz tempo que não sinto tanta falta de ar
Quase morrem meus textos
Porque quase não tenho mais cabeça pra pensar

Mas contra tudo que me previram
Meus vinte e dois anos, meus vinte,
Meus dezoito e quinze,
Contra a condenação e maldição
A que você me lançou no meio de agosto,
E contra o desgosto que sinto
Por ter uma mãe e estar viva,
Eu ainda escrevo
Eu ainda penso
Eu ainda estou aqui

Não por você.

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