sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Baby

Quando eu desato meus cílios
E descaso meus lábios
Para te ouvir me ver
Baixar maré
Solto meus remos, 
Temo
Maremoto, seca
Rio com piranhas
Jacaré, arraias
Águas-vivas
Escorpião do mar
Ou do deserto
Carneiro contrariado
Sou um cordeirinho
Perto do tubarão-tigre
O pensamento de ter o mero direito
Ou chance
De ter um lar
Não confio no Deus que o fez
Que me fez
Porque se te fez, qual dos dois?
No preto ou no branco, ou
se — ainda pior — no cinza?
Porque o mínimo dos riscos
De pisar nessa estrada
De alta velocidade
Em horário de pico
É colocar em teus braços
A cria macia que me pari
Com tanto apreço e desespero
E se ao piscar os olhos
Ela te escapa os dedos
Te soa escorregadia
Pesada demais, mesmo que por
milésimos de segundo
Me sobram cacos
E levei tudo que sou
para cultivá-la
É um projeto
literalmente
de toda a vida.

Nenhum comentário:

Postar um comentário