terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Saudades, girassol

Vai fazer seis meses que a gente se "conhece".
Te enviei oito cartas (acho).
Pintei um quadro.
Disse que te amava.

Faz 15 dias que eu não consigo falar contigo.
Sinto sua falta.
Tô ouvindo cícero.
Aquela música que doi.

Desviei o meu caminho de ti.
Minha gaveta tá vazia.
O pouco que sobrou tá jogado no chão.
Quem vai me ajudar a arrumar?

Ninguém.

Não estou.
Não estou.
Não vou estar.
Você nunca vai querer me amar.
Você vai embora todos os dias.

Ele também.

Todo mundo vai.
Até eu.

Tô indo.

Raiva, ilha

Não é justo que eu esteja condenada a isso.
A palavras que não me fodem, não me espancam
E não me acariciam.
Não é certo que eu esteja presa aos cigarros
Que me desidratam
E ao álcool que me desintegra.
Maldito seja quem inventou o conceito
De mundo virtual.
Se as palavras podem por vezes me masturbar,
Não posso dizer o mesmo sobre a dor.
Palavras nunca me causam dor suficiente.
E isso às vezes permite que uma solidão irritante se instale.
Nas paredes, na pele, no útero.
Em todos os lugares.
Se o único macho que por pouco me interessa
Deseja me foder,
É o inferno que isso não seja possível.
Odeio tudo aqui.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Ironia

   É preciso, às vezes, camuflar o sentimento de superioridade. Forjar uma humildade e recitar a incompatibilidade como justificativa, sobrepondo a diversidade à escala.
   Mesmo nos dias em que me sinto Deus, é preciso mostrar a minha face pura, e deixar que o silêncio torne turva toda a verdade que existe em mim como ser humano único.
  E em dias em que eu tolere a carapuça da alma condenada, é preciso reforçar a farsa do distanciamento e equilíbrio interno. Maturidade, alguns chamam. Para proteger-me da miséria alheia e da voracidade com que nós, coabitantes, somos capazes de devorar uns aos outros.
   A certeza que paira é de que o fingimento tece todas as cadeias do ser humano. Como espécie, como contexto, como sobrevivente e também como altruísta. Talvez a verdade não passe de uma supervalorização estúpida. Ou a descrença em todos os assuntos seja marca de uma geração.
   De fato, eu preferia muito me sentir acompanhada a simplesmente compreender os absurdo do homem. Ou da mulher. Mas não é esse o caso.
   Sou farsante, incoerente, hipócrita, contraditória e imatura. Mas, por vezes me elogiam por estas qualidades. Predominantemente, sou sozinha. Especialmente agora. Porque não há nada que alcance a desconexão entre os meus caprichos. 

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Para ser preenchida

Fujo,
Fumo um cigarro escasso.
Não fumo para dormir,
Para acordar
Ou para digerir melhor o meu almoço.

Não.
Meus cigarros são feitos para grandes ocasiões.
Grandes,
Apenas dentro de mim.

Fumo para abandonar meu grande amor.
Fumo para enterrar a mim mesma,
Trancafiada em um octógono de madeira.
Fumo,
Para não mais temer o que eu não sou.

E pinto seis lápides,
Esperando brotar da terra algo que valha o sacrifício.
Fumo ao me preparar para deixar de lado
Tudo o que já me pertence.
O passado e o futuro insaciado.

Fumo enquanto o meu mundo desmorona,
Não vejo razão plausível para resgatá-lo.
Permaneço amassada
Em meio a oitenta quilos de cinzas.

Não é o cigarro,
Não é o maço,
Não são os acompanhantes, fugazes.
São escolhas,
É o ser todos os dias,
É pisar novamente no concreto e definir:
Existo.
E escrever sobre o assunto.

Um cigarro para acordar na manhã seguinte,
Pronta para ser humana,
Serena,
Vazia.
Imensuravelmente vazia.

Sobretudo, como

Minhas metáforas servem, em sua maior parte, para desobrigar o leitor ao sentimento. Para proteger-me também da necessidade alheia. E sobretudo, serve a incoerência para despistar o meu destinatário de si mesmo, bem como do eu eleito em dado instante para me representar. Desvio, pego retornos, ando em círculos e me esquivo da lógica. Para parecer que não sou e no fim não resguardar a responsabilidade por minhas palavras tolas e desnorteadas.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Não reciclável número 8

Falo, falo demais.
Sobre o monte de bobagens que permanece entre a verdade e o ar.
Encho nossas conversas com nadas, com tudos.
Com uma quantidade considerável de lixo.
Reclamo. Como se a vida não prestasse.
Como se eu não servisse de nada aqui, viva.
E insisto que sou uma maravilhosa puta,
Por debaixo dos panos cinzentos da insatisfação.
Minto. Minto pra você e pra todo mundo.
Até esquecer quem eu sou.
Odeio ele com todas as minhas forças, e finjo que não existe.
Escrevo.
Nada de valor. Nada que justifique uma leitura.
Mas escrevo.
E pinto. Pinto quadros que agora já não funcionam.
Deliro com minhas delícias do passado.
Estou perdida aqui.
Gosto de você por apenas uma noite.
O resto é inútil, é farsa.
Ninguém tem a me oferecer o que eu procuro.
A contração do estômago vazio se repete, e repete
Até que eu coma.
E odeio tudo que entra dentro de mim.
Até meus dedos.
Queria fazer algo muito errado, de verdade.
Não aguento mais crer nessa ilusão fajuta.
Não há ninguém para me socorrer,
Me cuidar,
Me acariciar.
Não há ninguém para me foder
Até eu gostar da vida através de um orgasmo.
Eu odeio a maneira como a lua determina em que parte do mês estamos.
E odeio o fato de os meus dedos estarem gelados sempre que eu preciso me abraçar.
Invejo aqueles que não pensam na solidão.
Invejo os que acreditam na cura.
Quero morrer.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Truth coming out


"I'd hate to love you again. You ruined it, and everything around me. I wished I could be cold, and so am I. I hate it. I wish I could be drunk, but I'm alone. My daddy said it isn't healthy to drink sadness. But I'm not sad, you know. I'm just angry, and I think my heart might be dead at this point. And that's it. That is life, proving that nothing can beat our expectations. I wish I could change who I am. So I wouldn't feel so empty. So I wouldn't miss so hard my faith in love. In any kind of it. I wish I could find something where I could put any hope."

Dry

Cigarros,
Bebidas,
Cocaína.
É disso que eu preciso,
Hoje,
Agora.
Trepar contigo na parede,
No chão,
Na mesa.
Chapados,
Sadomasoquistas,
Rindo feito dois lunáticos.

Eu preciso da noite
E da mentira escura.
Olha só como você me faz tão bem.
Você aparece quando eu quero matar eles todos
E eu quero te matar também.
E aí, de repente, nada.
Ou tudo.
Você me apoia na minha autodestruição,
Aceita a obsessão como algo bom
E de quebra ainda lembra que eu sou a sua puta
(da sua maneira).
É a melhor coisa que eu poderia ser.

Não quero ser sua namorada,
Nem me comprometer.
Não fico magoada,
Só odeio quando todos namoram e eu não.
Porque eu queria ser amada obsessivamente.
Eu queria muito.
E isso é patético,
Doentio.
Mas não se preocupe.
Você pode amar quem quiser,
Se aparecer chapado pra brincar que me foderia com força
(eu amo isso).

Eu não queria o amor, de fato.
Não hoje,
Não amanhã.
Eu só queria sexo, dor,
E substâncias químicas
Na minha veia.
Heroína.
Parece bom pra mim.

Eu pareço louca,
Mais que sempre.
E amanhã eu farei algo a respeito.
Para aproveitar.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Peito partido em dois

É assim que as coisas funcionam. Eu sou uma aí, e outra aqui. Aí eu sou uma criança tentando não ser muito caprichosa. Apesar de fingir ser uma adolescente. Aqui, eu simplesmente te odeio. Eu sou indiferente, fria. Me afasto de você, e de quase todo mundo. Aqui eu vivo de apatia e raiva. Oscilo entre essas duas coisas. Aí eu sou feliz. Aqui eu vivo um purgatório, e faço com que todos me odeiem. Porque me sinto quebrada. Aí eu esqueço tudo e finjo que é possível ficar bem. Eu sou aqui, uma pessoa insuportável. E não me sinto na obrigação de ser melhor. Aqui eu tô tentando querer morrer de novo. Tentei me prender nas telas, mas desde ontem tem algo errado comigo. Talvez tenha sido aquela discussão idiota. Eu sou rude e já já estarei me cortando de volta. Eu perdi meu equilíbrio divino e estou destruindo tudo de novo. Eu odeio tudo, tudo por aqui. E não quero voltar praí. Eu quero tentar viver acorrentada dentro de mim, e beber muito. Pra ver se eu consigo. Você sabe, lidar com o mundo.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Fevereiro

Da sua boca saem palavras estranhas.
Não conheço nada disso.
Não mais.
Do meu peito saem vozes em diferentes cores.
Não as conheço.
Nada mais.
Há uma canção francesa no fundo.
Uma noite amarela. E um calor já nem tão enorme.
Essa é a minha vida.
Vivo dentro de mim. Só.
Há quadros e canetas.
Há o espelho todos os dias para conversar comigo.
Tem que ser suficiente.
Há nicotina na bolsa, e álcool no armário.
Sou uma espécie de adulta que não deu certo.
Não como você.
Fala sério, você nem existe mais.
Ninguém existe além dos personagem que eu deformo.
Janeiro acabou.
Agora é a morte que eu preciso viver todos os dias.
Sem esperar nada do amanhã.
Nada mesmo. Ninguém.
A solidão perdeu o contorno e se tornou o ar.