segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Dedais

Eu ponho meu dedo em um anel,
Depois, dentro de mim.
Escapo de toda rota,
E entre todas as derrotas,
Você é a única que doi assim.

De todos os nomes que praguejei,
De todas as miragens que reproduzi,
De todas imagens que imaginei,
Você foi a verdade mais hipnótica que já menti.

Em meus pés descalços
E enxaquecas nauseantes,
Em meus olhos escuros
E em pensamentos distantes,
Você arrasta tudo que tenho
E pesa tudo que sou.

Você me acaba,
Perigoso como a maior fé
De todos os tempos.

Eu ainda te escrevo na testa alheia,
Se não liberdade, prisão.
E se dádiva punitiva, amor,
Se amor que nunca cura, paixão.

Se já não te posso dirigir a palavra,
Se já não te posso desejar sem certa culpa,
Me sinto perdida no mar de cá.
Me sinto navegar para lugar algum.

Mais desnorteada do que de costume,
Tonta, solitária, cansada, vazia.
Se busco diariamente a alegria,
É uma enorme frustração a tua não-presença cá comigo.

O perigo está
Na minha esperança e fé,
E até que encontre uma solução
Para este dilema-tu,
Eu fico aqui,

A afundar e navegar no chão,
A secar-me nos amores breves,
A te acenar com os dedos infiéis.

Dedos em que ponho aneis,
Dedos que me ponho,
Dedos que se exaurem,

Dedos meus,
Dedos de Deus,
Dedos de dizer adeus
Aos teus.

domingo, 27 de dezembro de 2015

Quase lá

Não sou uma garota  triste.
Ah, não. Eu apenas gosto.
Gosto da tristeza,
Gosto de expressá-la,
Gosto da liberdade de transmitir
E receber a tristeza alheia.

Sou uma garota que odeia domingos.
Não por serem tristes e desanimados.
Domingos são vazios e ocupados.
Em um domingo não cabe a tristeza como ela é.

Sinto falta daqueles 5 segundos de intensidade
E de toda uma vida que eu teria com Peter.
Sinto falta da minha imensa vontade
De alguma coisa.
Eu sou uma garota estranha.

Eu crio lagartas para abandoná-las
Na hora de partir.
Eu crio amigos para esquecê-los
Nos momentos cruciais.
Eu me apaixono para alimentar o ódio
Da decepção.

Eu sou uma menina absurda.
Eu uso meu corpo para certo arrependimento,
Eu uso minha voz para banalizar as coisas.
Eu uso meu sentimento para esgotar-me.
É isso que sou, uma sede de esgotamento.

Quando eu bebo minha tequila,
Quando eu como compulsivamente,
Quando eu danço e gargalho,
A vida é quase suficiente.

Mas quando eu te beijo,
Quando você me sufoca entre seus braços,
Quando me olha nos olhos
E eu sinto o maior pavor de todos os tempos,
É aí que existo.

Existo quando sinto algo
Que não posso suportar.

sábado, 26 de dezembro de 2015

Safe and Warm

Às vezes, tenho a impressão
De que todas as conexões que faço
Com pessoas diversas
São mais momentos que de fato encontros.
Não posso repeti-los,
Tocá-los, ou sequer lembrar-me bem
Dos sentimentos que vivo.
Uma eterna espera por alimento,
Morta-viva, sub-humana.

Eu estou exausta e me arrasto pela casa.
Nauseada com meus feitos, me estiro na cama.
E entre todas as pessoas, mesmo Peter,
Eu não deveria sentir falta dele. Nunca.

Coleciono razões,
Como se me fossem necessárias.
Sinto uma saudade imensa
De um abraço molhado de 90 segundos.

Se o meu natal valeu a pena só por isso,
Quem será que eu sou?
O que faço aqui, afinal?

Notifiquei, confessei
Que é por isso que vivo.
Sou boa em dizer coisas,
Mas não em me por na vitrine.
Doi ficar exposta
Aos que não me sabem cuidar.

Um pano quente
Pra cobrir o inverno da alma
E fazer derreter um pouco
Essa nevasca.
Um breve tempo
Pra esquecer de todo o resto
E lembrar que ainda dá tempo
De ser amada.

Deve ser por aí, não sei.
Esperança, esperança e lágrimas.

Uma noite mal dormida, ansiedade,
Um pouco de remorso e leve aflição.

Não importa, vou continuar tentando,
Chorando todos os dias, fiel a mim,
Me arrastando o asfalto do olhar alheio.
Tentando um pouco mais disso,
Um pouco mais daquelas cobertas
Forradas no chão descuidadamente.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Epílogo

Eu não vou te dar:
As minhas noites de sono,
As minhas tintas lacradas,
Os meus terríveis enganos
E as minhas portas fechadas.

Eu não vou te dar:
Os meus suspiros baldios,
A minha fé derradeira,
Minha eira e minha beira
E os meus tormentos vadios.

Eu não vou te dar:
As minhas folhas em branco,
A virgindade da minha pele,
As minhas unhas que ferem
E o meu coração franco.

Pego de volta:
O meu tempo perdido,
As minhas canções de ninar,
O meu amor aturdido
E o infinito pesar.

Eu não vou te dar:
Absolutamente nada,
Nem paciência,
Nem empatia,
Nem um resquício de compreensão.

Pensei
Em te dar
Um verso
De poesia
Adestrada,
Mas não resta simpatia,
Mas não te resta mais nada.
Eu, agora,
Saturada,
Só lembro de dizer não.

Pra você,
Toda a minha negação.

Ausência de conflitos,
De beijos aflitos,
De ânimo, de castidade, de luto.
E no meu ressentimento absoluto,
Eu te entrego tudo que me resta,
Sem festa, sem vaidade, sem jeito,
Te entrego tudo que é teu por direito,
Do velório à cova,
Da morte à prostituição.
Depois que todos os outros
Me puderem gastar até os ossos,
Te entrego os meus restos
Para te degustar a decomposição.

O amor não deve respeitar hierarquias.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Antes que eu não tenha mais nada para te dizer

[te amo]
Vou te falar baixinho
Aqui, bem rápido, escondido
Sobre os sonhos que tenho sonhado
Sobre como penso em você antes de dormir
Sobre a minha tristeza que volta

Eu vou confessar, aos poucos
Que ainda guardo algo de bom em mim
Que penso que vamos ficar juntos
Mesmo depois de tudo que você fez

E aí, vou desandar a falar de tudo
Vou falar dos meus ciúmes,
Do medo de você não me amar
Porque a ama demais,
Vou falar do meu nervosismo,
Da minha vontade de ser alguém,
Do meu medo de ficar sozinha
(e de certos insetos ou incertos)
E vou falar também
De todas as coisas que já digo sempre
Que sinto saudades, que sinto raiva,
Que tenho essa ânsia de passar fome,
Que como tudo na casa,
Que queria te dar um beijo,
E depois que me masturbo
Não quero ninguém nunca mais
Vou falar até de como eu fiquei religiosa
Depois de tantas conversas que tivemos
Vou falar dos sinais e dos feitiços, de astrologia
E de como eu me lembro de você e do teu signo
Toda vez que aparece um personagem meio assim
Eu vou perguntar se você gosta de mim
Mesmo que já tenha gastado todas as minhas chances
Eu vou te contar sobre meus amores de infância
Vou te mostrar os meus diários,
Meus envelopes coloridos,
Vou te listar todos os meus amigos
E prometer te apresentar a todos eles
Vou pedir socorro mais uma vez,
Só mais uma,
Pedir que pense com carinho na minha proposta
Eu vou fazer uma aposta
Contigo, pra saber quem vai morrer primeiro
E quem vai ser infeliz até o fim

Eu vou perguntar seu nome
Como você quer ser chamado?
E a idade que você acha que tem
Eu vou concordar quando achar que você está errado
E vou me fazer de sonsa pro teu bem

Eu vou te contar os meus segredos mais secretos
Os lugares que eu ia sozinha,
As comidas que eu roubava de alguém que amava,
E os objetos bizarros cheios de valor sentimental
Eu vou te contar as estranhezas todas que tenho
Ou das coisas que fiz no meu passado
Eu vou tentar curar-me do seu lado
E fingir como ninguém estar feliz

Eu vou perguntar como está a sua família
Vou te falar da minha, mais que o necessário
Vou reclamar do nosso fusorário
E de como estou cansada o tempo inteiro
Eu vou te falar sobre todos os meus choros
Eu vou te contar todas as cicatrizes e tropeços
Eu vou te escrever poemas do lado avesso
E te ensinar a traduzir meus códigos secretos
Eu vou te dar todas as minhas senhas
Te dizer todos os meus nomes, endereços e medos
Eu vou te dizer tudo que eu conseguir me lembrar
E um pouco mais, até você me odiar

Eu vou implorar que você me perdoe
Que fique, que aguente, que permaneça aqui
Que me faça companhia
Para que eu nunca precise ir
Para aquele lugar que combinamos aos 20 anos

E em um último sussurro,
Antes que eu tenha tempo de estragar tudo
Antes que eu tenha culhões pra ir de vez
Antes que eu não tenha mais nada para te dizer
Eu te digo esse silêncio de três sílabas
Esse silêncio que só pertence a você
[/te amo]

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Maresia

Meu mar balança e balança
Eu estou a deriva, mas até que gosto
Estar sempre nesse movimento que não cansa
Há algo de bom em nunca secar,
Em nunca estar parada no meu mar

Eu me desligo, olho pras estrelas
Às vezes me desmancho quente,
Às vezes tremo de frio, tanto faz
É quando eu vejo o céu se pincelando
Que eu quero tudo isso e um pouco mais

É quase natal e eu quase sinto
As brigas de família nas esquinas
Todo mundo se abraçando
E as cozinhas sujas de açúcar da rabanada

É quase natal e eu queria estar errada
Quanto à minha desesperança no futuro

Falta quase uma semana
Pra chegar o dia mais quente do ano
Em que as pessoas se abraçam, bebem e comem
Em que tudo isso faz sentido

E eu afundo sem querer,
Tenho um desgosto de tudo
Nem sei o que me puxa para baixo
Maremoto, talvez

Eu sou esse mar, não sou?
E essa época do ano
E os infinitos pacotes
De simbolismos cronológicos

Eu sou as náuseas do ir e vir
E a limpeza eterna que o sal promove
Não posso ser nada além de mar
Sou mar, apenas mar

Na miséria invernal
Ou nos escapismos do verão
Eu preciso continuar aqui
Até que alguém queira
Me mergulhar
E ficar um pouco mais
Nadando em mim

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Condolências

O céu está vermelho.
É tão tarde que é quase cedo.
Cedo demais para ir embora,
Tarde demais para voltar para ti.

Hoje me culpei
Pelo vazio que carrego.
Pus teu nome 
Na escassez do meu ar
E chamei-nos de fracasso.
É isso que sei:
Fracassar.

Quando pesavas sobre mim
Era certo, mais que todas as coisas.
Mas, quando te esvais,
Quando escorres pelo ralo
Nos meus banhos raros,
És sujo como tudo mais.

O sol do meio-dia me desfaz.
Me estiro na cama, não peço
Por nenhuma força ou salvação.

Não é o calor ou a dor
Que me provoca isso.
Eu sei
Que é resultado
Da minha falta enorme
De coisa alguma.

Eu te chamo, te chamo,
E sei que contigo aqui
Não faria nada.
Tu não tens valor algum.

Se não me amas,
Se mentes,
Se não podes me preencher
De euforia ou desespero,
Se não podes explodir minha libido,
É como se estivesses morto.

Tu morres, morres, 
Pra mim.
Eu nem choro no teu funeral,
Apenas me sinto vazia.
Um pouco morta também,
Entediada.

Se tu amas outro alguém.
Não vales nada.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Parede, Fogo

Você se senta.
A garrafa cheia,
Tampa sobre a mesa.
Você repousa o copo,
Pega a garrafa.
E começa a entornar o líquido
Dentro do copo.

Você se cala.
Chega a ser ridículo pensar
Que eu nunca te esperei esse silêncio.
Talvez eu seja
Demasiadamente estúpida.
Mas há algumas coisas que sei.

Você toma a primeira dose
E a segunda,
E a terceira,
E a quarta.
Você bebe uma atrás da outra,
Já está na metade da garrafa
E nem se importa.
Essa vodca barata
Não faz passar o que você sente.

Eu escuto o seu olhar
Não dirigido a mim
Em nenhum momento.
Eu posso senti-lo
Pousar inerte sobre a parede verde.

Você ouve músicas
Das quais não gosto
No último volume,
Mas não é suficiente
Pra fazer parar.
Não é.

Você mente.
Você não diz que está melhor,
Apenas espera que o seu silêncio
Seja interpretado dessa forma.

Você tenta não pensar sobre isso,
Sobre coisa alguma,
Mas acha que se não disser,
Talvez você tenha alguma chance.
Não tem.
E você sabe disso.
Você tenta esquecer.

De súbito, acende mais um cigarro,
Porque está lembrando, está lembrando,
Precisa consumir alguma coisa,
Precisa queimar, sugar, apagar a própria alma,
Matar os próprios pensamentos de câncer,
Você sente o desespero e precisa contê-lo.

Você precisa de silêncio.

E assim, deixa de ser quem é.
Torna-se mesa, cadeira, chão.
Torna-se parede. Verde.
Cinza, preta, branca,
A cor que for.

Torna-se a inércia do objeto, garrafa.
Você já está quase no final,
Já nem se lembra do copo.
Cinzeiro cheio, está prestes a desabar,
Não tem mais nome, endereço.
Não tem mais dor ou culpa,
Pois não tem identidade.
Não ouve, não vê, não sente,
Não existe.

Você bebe e fuma até morrer.
E repete o processo. E repete.
Você não pode acabar com tudo.
Então apenas esquece.
Insiste em esquecer e esquecer.

Você me esquece.

E enquando eu escuto, escuto, escuto
O eco das coisas que você tentou extrair,
Enquanto você nem sabe que possui voz,
Nós morremos.
Não só você, nós.

Se você é o fracasso que se cala,
Eu sou o que se manifesta.
Maior tua dormência,
Incrível meu excesso.
Transbordo, copo, cinzeiro.
Acesa, queimando, ardendo, sendo.
Vivendo todos os dias.

Sóbria, só,
Em autocombustão.

Afasia

As palavras dizem mais o que desdizem
Que o que de fato tentam dizer.
Não me convencem ou guiam,
As palavras não conseguem me entender.

Já fazem quase oitocentos textos
Que tudo está prestes a terminar
E um anjo guardião me disse
Que o que importa é continuar aqui.

Há coragem nas coisas que escolhemos ouvir
E há doçura no que às vezes decidimos não falar.
Não no medo ou malícia,
No silêncio compulsivo da passividade,
Há por vezes uma espécie de amor.

A paixão afásica me leva talvez
Ao mais desdito dos impulsos.
E ali, residente da fronte de desconhecidos,
Eu me enxergo satisfeita
No pranto reprimido de outros.

Isso me salva.
A palavra que não verbaliza-se
Ou o sentido que veste um belo disfarce.
Não o que possuem,
Mas o que são.

Sempre o que são os homens,
Mulheres, crianças, velhos,
Às vezes os cachorros, borboletas,
O que são os seres me intriga.

Sinto que para existir,
Preciso ser e compreender
Todos os outros.

Só sou se eu existir em você,
Se ouvir teu silêncio,
Se sentir teu medo,
Teu sorriso, tua dor,
Só sou eu mesma
Se eu antes te for.