As cicatrizes são tão bonitas desenhadas no meu antebraço.
Não me reconheço.
Não me escondo, tampouco me ponho para exibição.
Não reconheço a tatuagem na minha pele, ou as músicas que eu costumava ouvir.
Sei que existem as minhas mãos e a minha voz. E isso é insano.
Não vos amo desde já.
A lua daqui não é mais tu.
Qual é o propósito?
Não existe mais álcool.
Meu cigarro é como respirar oxigênio.
Não me sufoca nem um pouco.
Monótono.
Não existe mais euforia a teu respeito.
Que tédio.
A chuva nem molha direito.
Morre, março, que há outra porção de nadas me esperando.
Morre, março, que abril me fecha todas as portas.
Acrílica.
Papelão.
Mosquitos.
Fumaça.
Me deixa aqui.
Nem você tem mais graça.
Nem dá mais pra sentir esse amor empoeirado.
O passado foi cremado.
Nem velório teve.
Faz mais um ano que você vive.
Tá tudo muito certo pro pouco de felicidade que me resta.
segunda-feira, 30 de março de 2015
Março depois tu
1, 2, 3.
Eis a minha nova dupla:
Maço de cigarro e copo d'água.
Eis tu na minha anemia.
Eis tu na minha companhia escassa.
Esse trago não te merece.
Esse cigarro que eu fumo é muito fraco.
Esta janela agora é tua.
Como tantos outros lugares que não me pertencem.
Eu, por outro lado, só tenho uma dona.
E essa é a desgraça.
Esporadicamente, eu tento ser boa.
Mas raramente dá em alguma coisa.
Contigo eu farei o mesmo que da última vez.
Serei atenta para equilibrar o agrado com a sutileza.
Serei apenas tu, e cada vez menos eu.
Até que você morra, como ele.
Vai ser mais um luto.
Você estará satisfeito.
Eu não terei culpa.
E o mundo vai voltar à sua rotação original.
Eu procuro outro
Pra acertar a minha derrota.
Tudo bem.
Você ganhou.
Quem ganha de mim
Sempre me perde.
Quer vitória melhor que essa?
Teimoso
Eu entendo as suas manhas.
Ok.
Mas eu não posso lidar com elas.
Eu me importo demais contigo
Pra fazer o que você quer.
Não posso brincar com isso.
Você não entende.
Que se foda que não entende.
Eu já disse o que você queria, não disse?
Eu amo você,
Eu me importo muito,
Eu preciso de você vivo.
Pare com isso.
Por favor.
Eu pedi por favor!
Eu só peço por favor nessa situação.
Você insiste nisso.
Você é teimoso.
Eu queria poder bater na sua cara.
Queria que nós rolássemos no chão.
Uma briga decente.
Não é justo fazer isso.
Não é certo.
Eu sou obrigada a fazer contigo o que você faz comigo todas as vezes.
Até você mudar de ideia.
É isso que eu faço.
E é assim que eu perco as pessoas.
Eu vou acabar perdendo você, não tá vendo?
Eu odeio isso.
Mas é infernal falar com você.
Subnutrida
Eu deleto-te de mim,
Enquanto tu odeias todas as coisas.
Gosto da ânsia que tu tinhas de me destruir,
Por gostar de mim.
Era o que parecia.
Me destruir fisicamente deveria ser
O amor que há por dentro.
Amor demais exige a violência,
Por isso pedia que o fosse.
Mas tu preferes a frieza da ignorância.
Eu nunca entenderia.
Não entendo.
Eu queria que fosses tu,
Mas insistes que o tu que tens é este.
E logo parece que eu quero transformar-te em algo.
Não.
Ah, não, querido.
Queria que fosses fraco.
Uma vez na vida fraco.
Comigo.
Eu não te devoraria.
Ages comigo da mesma maneira que eu ajo.
Há escudos sempre,
Escudos de vidro impenetráveis.
O que pode ser visto nunca pode ser tocado.
Será que entendes algo do que eu digo?
Ou permaneces no jogo de venço-eu-ou-vence-tu?
Vou removendo os teus resquícios no meu ambiente.
Gostaria de ser estúpida novamente.
Porque só faço, em sua maior parte, desfazer-me de todos.
Detesto ficar só.
Prefiro a tua companhia inútil.
Tu és como água para a minha fome.
Definho de qualquer forma.
domingo, 29 de março de 2015
Céu
Esse azul lilás me trouxe de volta.
A melancolia que aconchega a alma
Aí está.
Para poder ouvir batuques e violinos,
Eu precisava existir.
E desse vento incansável lambendo a cara de todo mundo.
Quando a vida não morde,
Não há poesia.
Há brancos me esperando do outro lado, do mesmo.
Não há nada que eu possa fazer.
Esperando o trem
Repulsa pelos dois segundos da minha imagem refletida no espelho.
Domingo de chuva é uma das piores torturas que existem.
Branco no branco,
Preto no preto.
Vermelho no dentro.
Domingo é o fim de tarde da semana.
Eu só quero ficar triste e me achar bonita.
Só quero não sair de mim.
Dá pra morrer assim?
A vida não tem fim
Não tem fim
Não tem fim
S e c r e t o s
Todos os que eu amo escrevem.
Todos os que eu amo existem enquanto escritores.
Esclarecendo o fato,
Eu os amo pelo que escrevem.
Pelo que são quando escrevem.
Eu os amo por seus segredos e suas maneiras de dizê-los,
Sem admitir a confissão.
Todos os que eu amo,
São.
E quem são, basta.
Para que exista esse fogo frio
Na minha compreensão,
Basta que sejam secretos.
Eles sempre se desdizem.
Eles sempre temem algo.
É isso que os faz só meus,
Completamente meus.
Porque posso lê-los só comigo mesma,
E formular segredos à prova de lógica.
Eles alimentam a minha introversão secreta,
Por isso os amo.
Demolição
Tudo bem.
É isso que você faz.
Você mente.
Bem, é isso.
Eu sou infeliz.
Nós nunca teríamos filhos.
Nós nunca treparíamos na escada do prédio.
Ou tomaríamos cerveja largados na cama.
Bem como tu conquista as tuas putas.
O que te importa é sórdido,
Sórdida sou eu.
Mas somos de sordidezas diferentes.
Como tu tricotas as tuas qualidades para exibição.
Não me digas qual é a relevância
Da inconsistência nos meus tratamentos
À tua pessoa.
Ela não é importante.
Este é o certo,
Que me incomoda, mas ainda certo.
Quando estiver pronto o meu cachecol,
As águas de março terminam.
E tu somes no túnel de mim.
sábado, 28 de março de 2015
Dear N
Estou triste pela nossa briga, querido.
Estou triste por quem você é.
Triste por quem você sempre foi comigo.
Uma parte de mim morre sempre que eu falo com você.
Essa indiferença, essa arrogância.
Às vezes é interessante falar contigo,
Mas nunca vale mesmo a pena.
E pelo que você diz, também não vale pra você
(me corrija se eu estiver errada).
Eu espero coisas irreais de você.
Não sei o que você espera de mim exatamente.
Você nunca parece real.
É sempre uma farsa, seja na doçura ridícula
ou na prepotência desnecessária.
O dia está amanhecendo e eu pensando em você.
Sabe, eu sempre penso nas pessoas.
Eu queria poder confiar em você como meu amigo.
Mas não posso.
É uma pena, não acha?
Que contigo eu tenha sempre que fingir.
Você me fez sentir a pior pessoa na face da Terra.
Obrigada.
Assim eu não preciso te tratar bem quando
Você for o mesmo.
Mas continuo triste a respeito.
Eu queria que você agisse como um ser humano real.
Que sente as coisas.
Que se importa.